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O Dono do Jogo: Bobby Fischer e o campeonato de xadrez que marcou a Guerra Fria

O Dono do Jogo: Bobby Fischer partida épica de xadrez

O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice, 2016) narra a trajetória do enxadrista americano Bobby Fischer (Tobey Maguire), considerado um dos melhores jogadores do século XX. Apesar do xadrez ser um assunto inóspito para muitos espectadores, o foco deste filme não é o jogo de xadrez, mas sim o contexto da Guerra Fria e a enervante disputa entre Fischer e o enxadrista russo Boris Spassky (Liev Schreiber), ocorrida em 1972. Outro fator que torna o filme interessante é mostrar a enorme dificuldade em conviver com a paranoia. Um inferno tanto para o paranoico quanto para aqueles que convivem com ele.

A Guerra Fria e o Campeonato Mundial de Xadrez de 1972

Bobby Fischer e Spassy

Mais importante do que o próprio campeonato foi o seu momento histórico. Neste ponto, o diretor Edward Zwick acertou em enfatizar este aspecto. É um filme indispensável para aqueles que desejam conhecer, ou se aprofundar, no período marcado pela disputa ideológica entre EUA e URSS, conhecido como Guerra Fria. A disputa entre Fischer e Spassky simbolizou uma luta pela supremacia intelectual entre russos e americanos. Uma nação que pudesse gerar campeões imbatíveis em um jogo de grande complexidade como o xadrez, certamente seria a sociedade mais avançada. O fato de o xadrez representar uma batalha estratégica entre dois exércitos tornou esta disputa ainda mais importante.

Porém, diferente da corrida espacial — que também marcou a Guerra Fria — a responsabilidade pela supremacia intelectual ficou nas mãos de apenas dois homens. Qual era a nação mais avançada? O comunismo era superior ao capitalismo? A resposta, pelo menos naquela época, estava nas mãos de Bobby Fischer e Boris Spassky.

Enquanto a corrida espacial era a disputa entre duas superpotências envolvendo milhares de cientistas, militares e políticos, o jogo entre Fischer e Spassky era de uma responsabilidade individual quase insuportável. Entretanto, Fischer era tão arrogante e insolente que parecia não ligar para isso, fazendo exigências absurdas e criando situações inusitadas e cômicas.

Alguns se perguntam até hoje se isso não faria parte de uma estratégia de Fischer para desestabilizar Spassky, mas acredito que foi apenas resultado de sua personalidade paranoica. No fundo, o enxadrista americano queria “apenas” ser o melhor jogador da história. Parecia pouco se importar com esta disputa ideológica e tudo o que ela representava.

Silêncio e capacidade mental

O Dono do Jogo - Bobby Fischer

Uma sutileza que atravessa todo o filme é o silêncio que os grandes enxadristas exigem. Parece existir uma relação entre a atividade intelectual e o silêncio, afinal, o barulho afeta a concentração. Alguns poderiam argumentar que trabalham e estudam ouvindo música, ou que sabem se concentrar em meio ao barulho. Porém, estamos falando de um situação que envolve milhares de combinações, exigindo, além da memória, criatividade e estratégia. Então, parece que existe de fato uma relação entre a atividade intelectual mais sofisticada e o silêncio. Como diria o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, a capacidade mental de uma pessoa é inversamente proporcional ao barulho que ela consegue suportar. No filme, até mesmo barulhos quase imperceptíveis incomodam os enxadristas.

Bobby Fischer e os anos 70

Bobby Fischer

O ator Tobey Maguire, apesar de não se parecer fisicamente com Bobby Fischer, conseguiu reproduzir a personalidade dificílima do enxadrista americano. Além de didático, O Dono do Jogo também cumpre seu papel de entretenimento, afinal, Fischer é um personagem tão enervante que faz o filme ficar tenso e ao mesmo tempo engraçado. Chega a dar pena das pessoas que são obrigadas a conviver com ele. Existe certo exagero em mostrar a paranoia do enxadrista americano, que acreditava estar sendo espionado tanto pelos russos quanto pelo seu próprio país.

O filme também garante um melancólico passeio pelos anos 70. É legal observar os móveis, os tecidos quadriculados, os telefones enormes, os óculos grossos, as televisões de tubo. É uma viagem para um passado ainda recente, porém já esquecido. Um passado sem internet e computadores, quando as pessoas tinham apenas uma TV preto e branco, os livros, as revistas e os jornais para estudar e se informar.

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Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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