FILOSOFIA

Atlântida – a cidade lendária descrita por Platão

A Cidade Perdida de Atlântida

Frequentemente a lendária cidade de Atlântida é citada em textos esotéricos, livros e filmes de aventura. Essa cidade faz parte do imaginário popular, e o motivo desse mistério e popularidade deve-se ao filósofo grego Platão.

No diálogo Crítias — disponibilizado em PDF no final desse post —  Platão narra uma guerra ocorrida nos primórdios de Atenas contra “os reis da ilha da Atlântida”, que estaria situada “além das Colunas de Hércules.

Essa guerra teria ocorrido 9000 anos antes de Platão, conforme está registrado no próprio diálogo.

Porém, apesar da cidade de Atenas ser bem conhecida, a cidade de Atlântida nunca foi encontrada. Platão, na voz de Crítias, é ambíguo no início de seu texto, não deixando claro se está falando de um evento que realmente teria ocorrido ou se está criando uma alegoria.

Por esse motivo, várias interpretações foram dadas ao longo dos séculos. Desde a interpretação histórica até a ideia de que Platão criou uma ficção com objetivos poéticos e metafóricos, tal como fez com o seu Mito da Caverna.

Origem mitológica, ascensão e decadência da “Ilha da Atlântida”


Os “anéis de defesa” de Atlântida são descritos por Crítias no diálogo de Platão: “Então, de modo a construir uma cerca segura, Poseidon separou num círculo o monte em que ela (Clito) habitava, e construiu à volta anéis de terra alternados com outros de mar, uns maiores, uns mais pequenos – dois de terra e três de mar, no total, torneados a partir do centro da ilha e equidistantes em todos os pontos.”

De acordo com a origem mitológica descrita no diálogo, a região das ilhas gregas foram dadas —   conforme uma divisão ocorrida entre os deuses —   aos irmãos Atena e Hefesto, filhos de Zeus.

A região situada além do Estreito de Gibraltar (no Oceano Atlântico) foi cedida ao irmão de Zeus, Poseidon.

Nesta região —  praticamente gigantesca e desconhecida na época —  estaria a Ilha de Atlântida, cuja estrutura de anéis de proteção fora idealizada pelo próprio deus Poseidon para proteger a mortal Clito, pela qual se apaixonou e com quem teve cinco filhos gêmeos.

O mais velho desses filhos, nomeado rei  por Poseidon, recebeu o nome de Atlântico. Ele reinaria na ilha, que foi dividida em dez partes para cada irmão.

Essa divisão deu origem aos dez reinos de Atlântida, que governavam com harmonia e sabedoria, pois seguiam uma legislação registrada pelos primeiros reis, recebidas de seu pai divino.

Toda a população da ilha, muitas gerações depois, seriam descendentes dos filhos de Poseidon.

Atlântida era tão próspera que se tornou independente, pois todas as riquezas, alimentos e animais necessários para sustentar qualquer sociedade já existiam em abundância ali. Desde minerais até terras férteis e elefantes que ajudavam no transporte.

A decadência da cidade teria ocorrido devido à perda das características divinas da estirpe dos reis. Nas novas gerações, devido ao excesso de mistura do elemento mortal, o elemento divino acabou enfraquecido.

Isso ocasionou os vícios, ambições e a corrupção próprias dos mortais. A consequência foi a punição final dada por Zeus, o deus dos deuses.

As buscas pela cidade perdida de Atlântida


As Colunas de Hércules, que aparecem no diálogo de Platão sobre a Atlântida, são formadas pelo Monte Musa (na África) e o Rochedo de Gibraltar (na Europa). O nome é uma referência aos Doze Trabalhos de Hércules. Hoje existe um monumento a essas colunas (foto) no Estreito de Gibraltar.

No texto de Platão, Crítias descreve características e preocupações próprias de um historiador. As descrições geográficas, sociais e políticas das cidades de Atenas e Atlântida acabaram dando à narrativa um caráter de registro histórico.

Os relatos detalhados sobre a Ilha de Atlântida e sua sociedade sofisticada são, de modo especial, impressionantes.

O fato da ilha ter sido tragada pelo mar, conforme escreveu Platão, reforçou a ideia de que ela realmente teria existido e estaria submersa em algum ponto do Oceano Atlântico.

Isso fez com que muitos acreditassem na sua literalidade, o que motivou — a partir da Era Moderna — buscas e investigações com o objetivo de identificar geograficamente o local da ilha.

Durante algum tempo, acreditou-se que a ilha de Creta poderia ser o local da cidade descrita por Platão, todavia, com base em investigações arqueológicas e geológicas, essa hipótese acabou sendo descartada.

Afinal, como já foi dito, a cidade estaria “além das colunas de Hércules”, onde fica o Estreito de Gibraltar. Então, sua localização seria no Oceano Atlântico.

Assim, outras regiões foram incluídas nessa especulação, como o Continente Americano, a Suécia, os Mares do Sul (junto ao Peru), os arquipélagos dos Açores, da Madeira, entre outras.

No entanto, o único resultado obtido foi um conflito de opiniões que tornou qualquer ponto do globo passível de ser identificado como local da cidade de Atlântida.

Mesmo após dois mil anos de especulações, pesquisas e buscas motivadas pelo diálogo platônico, nunca houve uma teoria minimamente aceitável que sustente a existência da cidade lendária.

Nos dias de hoje, a grande maioria dos títulos acadêmicos que têm sido publicados sobre a Atlântida, ou que, de algum modo a abordam, tomam como princípio que o texto de Platão não tem caráter histórico.

As suposições mais aceitas


O diálogo de Crítias contêm referências a antigas catástrofes naturais que foram transmitidas pelas tradições orais de vários povos da região. A cidade de Atlântida, sendo tragada pelas águas e desaparecendo por completo, teria sido inspirada nessas catástrofes.

Atualmente a teoria mais aceita é que Platão adaptou um conflito ocorrido entre Egípcios (no tempo de Ramsés III) e uma confederação de ilhas do mediterrâneo (como Creta e Cartago) que invadiram o Egito e outras zonas continentais.

Como no Egito essa história tornou-se muito conhecida, alguns interpretam que Platão teria criado uma ficção baseada nesse evento, misturando vários elementos das culturas gregas e egípcias.

Claro que esta “explicação mais aceita” pode refletir apenas nossa mania moderna por uma “explicação racional”, ignorando assim os possíveis sentidos alegóricos que Platão pode ter dado ao texto.

Apesar da riqueza descritiva que encantou leitores e estudiosos por milênios, o próprio texto de Platão apresenta várias sugestões de que a cidade estava sendo descrita como num mito.

Além disso, o diálogo de Crítias contêm referências a antigas catástrofes naturais que foram transmitidas pelas tradições orais de vários povos da região — devidamente adaptadas de acordo com as culturas locais. A cidade sendo tragada pelas águas e desaparecendo por completo, teria sido inspirada nessas catástrofes.

O consenso sobre a cidade de Atlântida — pelo menos no que diz respeito a Platão — é que o discurso de Crítias é uma narrativa criada a partir de vários elementos históricos, poéticos e mitológicos com objetivos filosóficos.

No entanto, isso não diminui o mistério e as mensagens simbólicas descritas no texto, acessível, talvez, apenas àqueles dispostos a buscar o sentido da Ilha de Atlântida no próprio diálogo de Crítias, e não fora dele. 

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org

Referência Bibliográfica


  1. Platão. Timeu-Crítias. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.

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