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Alteridade e renúncia absoluta à transcendência

caça alteridade

Este vídeo é uma das minhas maluquices. Um alce enorme — só dá para perceber seu tamanho no final do vídeo — apresenta sua alteridade à caçadora, criando uma cena magnífica. Depois que ela atira, começa a chorar. Parece que ela se emociona e hesita. Considero este vídeo uma aula sobre alteridade, pelo menos para os mais sensíveis. A alteridade tem esta característica principal de surpreender.  Não falo aqui de defesa de animais ou contra caçadas, nada disso, isso é outro assunto. Falo de metafísica e transcendência. Esta cena SERIA, pelo menos para mim, uma bela cena SE a caçadora tivesse desistido. Se fosse eu, abaixaria o arco e diria: “que cena magnífica”, e tenho quase certeza que a caçadora sentiu isso.

O que importa, para mim, é o aspecto simbólico desse momento. Diante dela surgiu algo magnífico e raro, ela parece perceber a grandeza da cena. Contudo, sua equipe a incentiva a atirar. Ela dispara e parece se arrepender, mas logo depois sua mente “desce” para o nível corriqueiro, para a “moral menos elevada”, a moral coletiva e impessoal.

Por fim ela se alegra com o resultado da caçada. Voltou a ser quem era, a personalidade desejável para o grupo. Recusou-se a si mesma. Nesse confronto pessoal, parece que existiu uma moral superior e uma inferior. Nesse caso, venceu a inferior. Falo também sobre isso neste outro vídeo, uma experiência onde ordenam para alguns garotos que batam em uma menina.

A caçadora estava inserida em uma moral, representada pelo seu grupo. Resolveu fazer aquilo que acreditava ser normal. Renunciou, assim, a uma decisão de natureza transcendental. O filósofo Emmanuel Lévinas chama de renúncia absoluta quando alguém, além de negar a alteridade, a destrói para que ela nunca mais aconteça.

Mais belo que o surgimento do animal seria a recusa em matá-lo, seria o grandioso momento pessoal do “isso eu não faço!. O nascimento de uma personalidade para além da moral. Ou, como diria Hannah Arendt, “o segundo nascimento do homem“, que se dá pelo seu discurso pessoal e singularíssimo perante outros.

“Aquilo que é feito por amor, faz-se para além do bem e do mal”

Friedrich Nietzsche

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Autor: Alfredo Carneiro

Editor do netmundi.org