FILOSOFIA

Diógenes de Sinope – os filósofos como cães

Diógenes de Sinope

O cinismo foi uma vertente filosófica fundada por um discípulo de Sócrates, Antístenes (445 a.C.- 365 a.C.), que centrou sua filosofia na ética, defendendo uma vida pautada pela virtude.

Antístenes ensinava no Cinosarges, em Atenas, uma escola para atenienses filhos de mães estrangeiras. Acredita-se que o nome da escola poderia ter dado origem ao termo cinismo.

No caso específico dos cínicos, a arte de viver de forma virtuosa estava expressa no humor. Esses filósofos não escreveram tratados, mas faziam da filosofia uma prática cotidiana, assim como Sócrates, que filosofava dialogando com as pessoas em praça pública.

Contudo, foi com Diógenes de Sinope (412 a.C. – 321 a.C), discípulo de Antístenes, que essa filosofia ganhou expressão e popularidade.

Tanto Antístenes quanto Diógenes foram apelidados de Cão (kunés, em grego), apelido que tinha um sentido pejorativo, pois o cachorro era considerado um animal sem vergonha.

Também se atribui o termo cinismo a essa origem, significando “a filosofia do cão”. Enquanto Sócrates usava a ironia, os cínicos usavam o humor: seu pensamento e sua filosofia eram expressos na forma de anedotas e piadas.

Diógenes e sua inconveniente irreverência

Diógenes de Sinope

Diógenes levou às últimas consequências a noção de vida como prática filosófica. O pensamento deveria ser não apenas uma teoria, mas uma ação do dia a dia.

Se os filósofos afirmavam que o sentido da vida não estava na posse de bens materiais, então o melhor seria viver na mais absoluta pobreza.

Confira abaixo algumas anedotas e histórias lendárias envolvendo Diógenes.

Uma das anedotas sobre o filósofo conta que, estando um dia numa fonte bebendo água com sua cuia, viu uma criança que bebia diretamente com as mãos; deu então sua cuia para o primeiro que passou, pois descobriu que lhe era um bem desnecessário.

Outra anedota relata seu encontro com Alexandre, o Grande. Diógenes estava recostado tomando banho de sol, e o grande conquistador, ouvindo falar do filósofo e querendo testá-lo, colocou-se diante dele, fazendo-lhe sombra, e disse: “O que posso fazer por você?”, ao que o cínico teria respondido: “Não tire de mim o que não pode me dar! Saia da frente do meu Sol”.

Existe também uma história sobre Diógenes onde um rico comerciante o convida para comer na sua casa, querendo com isso mostrar para todos sua generosidade. Incomodado com os modos de Diógenes, alertou “não cuspa na casa, ela está limpa”. Então o filósofo cuspiu no seu anfitrião e declarou: “desculpe, foi o único lugar sujo que encontrei para cuspir”.

Diógenes ouvia um dia na Ágora (praça pública) um astrólogo que, mostrando tábuas nos quais estavam desenhadas estrelas, explicava que se tratava dos astros errantes (planetas). “Não diga asneiras, meu amigo — disse-lhe Diógenes —, não são os astros que erram, mas estes aqui”, e indicou com o dedo aqueles que assistiam.

Conta-se que Diógenes teria ouvido Platão dizer em sua escola que o ser humano é “como um galo sem penas”; no dia seguinte, estando Platão reunido com seus discípulos, Diógenes jogou-lhe um galo depenado, dizendo: “aí está seu ser humano!”.

A Filosofia Cínica

Diógenes de Sinope

Relatos históricos sobre o filósofo contam que Diógenes caminhava de dia com uma lanterna acesa falando ironicamente: “procuro um homem”, pois para ele as pessoas não seriam genuínas, vivendo suas vidas baseadas em convenções sociais falsas e estúpidas.

A filosofia cínica apresenta-se como uma intervenção direta contra os costumes instituídos. Com seu modo de vida simples, os cínicos exercitavam aquilo que muitos filósofos expunham na teoria.

E sua ação era como “jogar na cara” dos habitantes da cidade as hipocrisias de suas vidas. Faziam isso de modo humorístico.

A filosofia de Diógenes era, portanto, voltada para os atos. Ao contrário de uma postura filosófica que busca na contemplação das ideias o alcance de uma vida feliz, como acreditava Platão, a filosofia cínica buscava a virtude na ação.

O efeito do humor é desestabilizador, porque nos provoca o pensamento. Enquanto vivemos “no automático”, distraídos e convictos a respeito de nossas opiniões, sem pensar de fato nas coisas que acontecem, se somos acometidos por esse efeito humorístico, de repente somos tirados do lugar-comum.

Essas ações nos alegram ou nos agridem, mas de qualquer forma nos fazem pensar. Eis o modo de ação da filosofia cínica.

Mas, claro, ao confrontarem o jeito de ser das pessoas, esses filósofos foram mal vistos e considerados incômodos; apelidados de Cães. Por isso, o cinismo ganhou uma conotação pejorativa e passou para a história como uma filosofia marginal.

É inegável, porém, a contribuição desse pensamento para a ética. Ao levar às últimas consequências a ideia de uma vida orientada pela virtude, os cínicos produziram uma “ética encarnada”.

Suas próprias vidas eram um tratado de ética. Eles não diziam a ninguém como viver; viviam da forma que achavam melhor, esperando que isso servisse como exemplo ou como um modo de fazer as pessoas pensarem em suas próprias vidas.

Texto extraído e adaptado do livro Filosofia, experiência do pensamento, de Sílvio Gallo.

Confira algumas imagens famosas do filósofo Diógenes:

  1. Diogène, de Jules Bastien-Lepage (1873)
  2. Diogenes, de Willian Gropper (1946)
  3. Diógenes sentado em seu barril cercado por cães. Pintura de Jean-Léon Gérôme (1860)
  4. Diógenes, lanterna acesa, procurando um homem honesto, tela de Jacob Jordaens (1642)

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