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Falácia da rampa escorregadia

falácia da rampa escorregadia

Imagine um rapaz, conversando com um amigo, dizendo que vai sair com uma garota. O amigo faz um alerta: “Cuidado! Ela vai querer compromisso sério, vai tentar te colocar uma coleira. Logo você vai estar casado, endividado, infeliz e cheio de filhos”. Ora, caso o encontro não seja como esperado, ele pode muito bem não sair outras vezes, ou a garota pode não gostar dele ou ele pode se casar com ela e ser feliz. Esse alerta do amigo é uma falácia da rampa escorregadia, pois afirma que, se você der aquele passo, vai escorregar feio com consequências drásticas.

Existem muitos exemplos de rampas escorregadias.  Se a maconha for liberada, logo a cocaína será também liberada. Se o casamento gay for aceito por todos, todo mundo vai virar gay (que medo suspeito, não acham?). Se a clonagem de animais for permitida, logo estaremos clonando pessoas em escala industrial. Se você emprestar dinheiro para aquele amigo, logo ele vai pedir mais e te deixar falido. Quando Elvis Presley começou a fazer sucesso, muitos afirmaram que o rock espalharia a depravação por toda a sociedade americana.

Declarações alarmantes e a “bola de neve”

falácia da bola de neve

Para todos esses argumentos existem consequências drásticas, contudo, todos são facilmente refutáveis. O correto é apresentar razões plausíveis que justifiquem a conclusão, e não fazer uma afirmação taxativa, dramática e alarmante. Quando essa falácia ocorre, é sempre um alerta assustador (até mesmo ridículo). Mas, cuidado, um argumentador habilidoso (e desonesto) pode disfarçar essa falácia, como fazem muitos (muitos) políticos e líderes religiosos.

A falácia da rampa escorregadia é largamente utilizada na argumentação religiosa, ou pelo menos na argumentação religiosa desonesta. Um líder religioso pode afirmar (citando a Bíblia para adquirir autoridade) que, se você der aquele passo, a desgraça “cairá sobre sua vida” e todo tipo de problema surgirá.  Na Índia, se você for de casta superior e tocar em um daliti (pessoa da casta mais inferior de todas) ficará “poluído” e vários males lhe afligirão. Além da incoerência, a teatralidade é característica dessa argumentação. Repare que isso é um terrorismo psicológico “místico” utilizado para disfarçar a rampa escorregadia.

Essa falácia é também chamada de “bola de neve”, uma vez que afirma — de forma alarmante — que as consequências virão como uma bola de neve, crescendo cada vez mais.

Rampa escorregadia e pseudoprofundidade

o argumento divinizado islamismo

Alguns praticantes “profissionais” dessa falácia (picaretas, pirados, manipuladores, falsos gurus, líderes espirituais pilantras e políticos corruptos) se respaldam em outra falácia, a pseudoprofundidade, para dar força à falácia da rampa escorregadia. Assim, o ouvinte é levado a um estado psicológico receptivo aos alertas dramáticos sem perceber a teatralidade do argumentador.

Normalmente a rampa escorregadia e a pseudoprofundidade andam juntas. A combinação de rampa escorregadia, pseudoprofundidade e argumento divinizado é uma habilidade fundamental dos manipuladores.

 Defesa

falácia bola de neve

Este argumento falacioso é facilmente detectado, basta estar atento quando alguém tentar lhe assustar com uma ameaça absurda ou exagerada. Com algumas afirmações contrárias e um pouco de sensatez, ela se desfaz. Peça mais detalhes ou questione a terrível ameaça e verá que a “bola de neve” vai derreter. Mas, se você estiver lidando com um picareta profissional que manipula estados mentais e domina pseudoprofundidade, então lembre-se do conselho da filósofa Hannah Arendt: “Nada destitui mais o poder do que o riso e o desprezo”. Seja razoável, tranquilo e racional e verá que o mundo será menos assustador.

Autor: Alfredo Carneiro

Editor do netmundi.org
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