SMITH E MARX: breves considerações em sala de aula
Texto de Rogério Cruz*
Atualmente, a internet passou a conter e permitir o acesso a informações que, até bem pouco tempo atrás, circulavam apenas no interior das Universidades. Um exemplo disso pode ser visualizado num didático vídeo sobre uma conversa imaginária travada entre Adam SMITH e Karl MARX .
Em paralelo, na internet, há muita “conversa fiada” — nos termos atuais “fake News” — circulando, de tal modo que, se faz necessário, inicialmente, um cauteloso exame do material acessado e a busca de sua fonte. No caso desse vídeo, (Veja-se CARNEIRO (s/d)), a fonte eletrônica é netmundi.org.
Assim, após uma visita ao referido sítio eletrônico, a dedução é simples: “nada consta”, ou seja, os leitores terão às mãos uma leitura de teor confiável, até porque, é assinado por um estudioso e/ou filósofo e porque foi elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Governo do Estado de São Paulo. E, mais: este detalhe não é pequeno, afinal, com isso, assumem-se as responsabilidades institucionais pelas informações ali contidas: esta, outra característica ausente nessas “redes”, que funcionam nestes tempos bicudos atuais — que estamos vivendo nesta segunda década do século XXI.
Aprovada a fonte, vamos em frente com a leitura e comentários ao texto.
Uma primeira observação de ordem mais geral sobre esse vídeo é que se trata de um material educativo e, como tal, que poderá ser indicado para leitura, tanto de principiantes na matéria, quanto para os demais interessados.
Uma segunda observação, ainda introdutória: o filme — que se convencionou chamar de “Encontro do Século” — tem duas partes, não necessariamente explicitadas. Na primeira parte, confronta as concepções de Smith e de Marx, acerca da sociedade capitalista que, à época dessas duas produções intelectuais, era um tipo de sociedade emergente e/ou em ascensão.
E, na segunda parte, há, não mais um posicionamento desses autores, mas, uma interpretação do que esses pensadores diriam caso pudessem viver as questões que estão postas na atualidade. E, este, é um ponto importante na medida em que foge à elaboração de um suposto “Encontro”, para ser uma das possíveis leituras elaboradas a posteriori acerca de um debate entre esses dois pensadores.
Enfim, pelo conjunto da obra, é possível considerar que se está diante de um filme inteligente e, ainda, porque na primeira parte acima mencionada, busca ser fiel às posições originais assumidas por esses autores, acerca de seu objeto de análise: interpretar o capitalismo.
Vídeo: “O Encontro do Século”
Essa interpretação, então, apresenta as duas posições distintas: de um lado, a liberal que defende a manutenção e o aprofundamento da ordem social capitalista defendida por Smith; e, de outro, a postura crítica ao capitalismo, defendida por Marx. Onde, dois conceitos que aparecem implícitos podem ser considerados como basilares nas análises, a saber, interesses individuais para o primeiro autor; e, classes sociais para o segundo, respectivamente. E, é a partir daqui que pode se dar início ao debate.
Primeiro ponto: enquanto aquele conceito vê a lógica capitalista através de decisões individuais — naquilo que se convencionou chamar de individualismo metodológico —, Marx procura ver o movimento da sociedade em geral. Esses pontos de partida — distintos desde os pontos de vista teórico e metodológico — vão conceber duas interpretações bastante diferentes.
É como se estivéssemos diante de “duas” ciências, ao menos na aparência: porque a concepção de classes foi originalmente formulada por Smith e retomada de forma crítica, por Marx. Enquanto aquele optou por chegar às classes pelas formas de renda (salários para trabalhadores; lucros e juros para capitalistas; e, renda para proprietários de terras) Marx abordou os conflitos existentes entre essas classes, em torno da posse e/ou controle da riqueza.
Sugestão de leitura
No plano da discussão acerca do Estado, tal como aparece no filme, é interessante comparar que, enquanto Smith combatia o Estado feudal, por suas mazelas, os seus seguidores modernos também o fazem. Mas, aqui, é um Estado distinto em sua existência e sua lógica, ainda que privilegiasse os mais favorecidos e/ou poderosos.
O Estado capitalista, por sua vez, ainda que tenda a privilegiar um segmento específico da sociedade, que é em suma quem produz leis que tendem a ser favoráveis a seus interesses — tal como defende Marx —, move-se de modo distinto ao Estado feudal: por exemplo, na modernidade, a terra torna-se um ativo e/ou alvo de investimento capitalista, e, não mais apenas uma referência de vida e/ou de poder político.
Logo, em ambos os tipos de sociedade — feudal ou capitalista —, há uma ordenação da conduta humana em sociedade conduzida por um Estado, onde, os componentes apresentam distintas formas de conduta. Onde, o que há de comum em ambas as sociedades é a lógica da dominação de classes, fato que dá atualidade sobretudo ao pensamento de Marx. Exemplos, neste sentido, não faltam: basta observar os movimentos do Parlamento Brasileiro, que é um dos braços do Estado nacional. E, ainda, especificamente no caso do Poder Executivo, isso se explicita ainda mais com o evento crescente da corrupção, por exemplo, posto à tona e tornada pública pela imprensa.
Em acréscimo, há uma conversa travada pelos pensadores com o garçom, em que o objeto da conversa é a crise capitalista como sendo uma dada condição que ameaça o status quo original e que levou aquele trabalhador específico a buscar alternativas de sobrevivência, algo que não foi conseguido pelos seus pais e/ou parentes.
A crise, que foi um assunto tratado por Marx — e não tratado e/ou vivenciado por Smith —, é de uma atualidade incrível, até para negar a falácia do equilíbrio da mão invisível defendida por este último autor.
Algumas observações adicionais, que são breves: Smith defende que a natureza humana é individualista mas, há outros autores – em geral, de formação antropológica -, que mostram isto ser equivocado, ou seja, cada sociedade tem uma lógica e uma historicidade.
De outra parte, a partir do Manifesto Comunista é possível dizer que, se Marx teria se equivocado ao propor a realização de uma Revolução Socialista, que quase dois séculos após ainda não ocorreu e nem sequer é possível dizer se virá ou não eclodir, tudo indica, acertou nas questões que levantou acerca da desigualdade entre os homens, que vem se ampliando ao longo do tempo. Ademais, acertou na dinâmica do capitalismo, onde, as formas mudam, mas, sua essência conflituosa permanece.
Sugestão de leitura: (PDFs):
- Manifesto do Partido Comunista
- O Capital – Parte I – Capítulo 1: A Mercadoria
- O Capital – Parte III – Capítulo 7: Processo de Trabalho e Processo de Produção de Mais-Valia
Então, tudo indica que, esses dois autores clássicos levantaram questões pertinentes, ainda que suas propostas de equação desses problemas tornaram-se ideologizadas porque vencidas pela realidade diferente dos fatos. Ao menos, parcialmente, pois ambos têm proposições de relevância na atualidade, tal como, por exemplo, a divisão do trabalho em Smith, ou, a centralização do capital, em Marx, dentre outros pontos de relevância que foram originalmente formulados por esses autores.
Aqui, aparentemente, há uma espécie de “empate”, ou melhor dito, similitude entre as partes debatedoras. Pois, a contribuição de Smith foi seminal para a constituição de uma Ciência Econômica, posteriormente criticada por Marx.
Ademais, os autores utilizaram-se métodos de elaboração de pensamento e de pesquisa, distintos, onde, este autor critica aquele primeiro autor.
Enfim, são duas concepções distintas que se basearam em métodos distintos, e, consequentemente, fizeram uso de conceituações e modos de ver a sociedade capitalista, diferentes. E, isto, reafirma, salvo melhor juízo a respeito, a necessidade de se entender que a Ciência Econômica é plural porque formulada por homens com perspectivas distintas em momentos históricos distintos, e, ainda, com projetos de vida diferentes: de um modo simplificado vem que, de um lado, há os autores que trabalham com a perspectiva de um movimento individualista que move a sociedade; e, de outro, os pensadores com preocupações generalizantes, em sua manifestação média dos integrantes da sociedade.
Para finalizar, quanto ao filme, de novo, por ter tocado nos dois conceitos principais dos autores, pode ser recomendado para utilização didática, leia-se em sala de aula, para discussão. Pois, apesar de muito curto e/ou sucinto, tem a vantagem de não aborrecer seus espectadores e que pode ser visto e criticado, principalmente por aqueles que demonstram ter interesse nesse tema.
Aos interessados no tema há uma série de obras que tratam do pensamento desses autores, ainda que, como tal, obras de abordagem contida na História do Pensamento Econômico, tal como, bem o fazem, dentre outros autores, NAPOLEONI (1978), ou ainda, HUNT & LAUTZENHEISER (2012).
* Autor: Rogério Cruz. Economista pela Universidade Mackenzie (SP). Especialista em Políticas Económicas (CIDE/México). Mestre em Teoria Econômica (CAEN/UFC). Doutor em Desenvolvimento Econômico (UNICAMP/SP). Professor UFRN (1977-2017). Aposentado. E-mail: rogerio.cruz@ufrn.br
Texto produzido em 2012 para leitura e discussão com alunos de graduação em Economia da UFRN, disciplina Metodologia da Ciência Econômica.
Referências
- CARNEIRO, Alfredo. Karl Marx e Adam Smith: vídeo sobre marxismo e liberalismo clássico. Disponível em https://www.netmundi.org/filosofia/karl-marx-e-adam-smith-oposicoes-entre-marxismo-e-liberalismo-classico/. s/d.
- HUNT, E. K. & LAUTZENHEISER, Mark. História do Pensamento Econômico – Uma Perspectiva Crítica. 3ª. Ed. São Paulo: ATLAS, 2012.
- NAPOLEONI, Cláudio. Smith, Ricardo e Marx. Rio de Janeiro: Edições GRAAL, 1978.











