O Paradoxo da Onipotência

O Argumento da Onipotência

O Paradoxo da Onipotência é um argumento surgido durante a Idade Média que contesta a onipotência de um ser divino. Sua forma popular mais conhecida é: pode Deus criar uma pedra que não consegue carregar? Caso sim, não é mais onipotente; caso não, então, nunca foi onipotente. Qualquer que seja a resposta, a conclusão ataca um dos pilares das religiões monoteístas: a ideia de que Deus é onipotente, onisciente e onipresente.

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Esse paradoxo foi abordado pelo filósofo cristão Tomás de Aquino no século XIII, que era um pensador representante da escolástica, filosofia amplamente difundida na Europa medieval que buscava conciliar fé cristã e razão grega. A escolástica tinha forte influência do antigo filósofo grego Aristóteles.

Um dos objetivos da lógica de Aristóteles era identificar erros de linguagem e construir argumentos não contraditórios. Inspirados em Aristóteles, os filósofos medievais da escolástica pretendiam demonstrar que tanto fé quanto razão são caminhos independentes e não contraditórios que levam a Deus.

Por esse motivo a linguagem era preocupação fundamental desse período. Se a linguagem (como expressão racional) tem relação com a verdade e a fé, então os paradoxos (como o Paradoxo da Onipotência) recebiam atenção especial. Vejamos agora a solução dada por Tomás de Aquino.

Tomás de Aquino: Deus é lógico


Para o pensador medieval Tomás de Aquino, Deus é capaz de fazer coisas logicamente possíveis, mas não logicamente impossíveis. Porém, “logicamente possível”, na perspectiva do filósofo, não é a mesma coisa para Deus e para os homens. Deus poderia, por exemplo, ressuscitar os mortos, mas não pode fazer um quadrado redondo, já que essa última opção é ilógica: não existe quadrado redondo.

Isto não significa dizer que Deus “não pode fazer algo”, mas que seria o mesmo que dizer: “Deus pode ressuscitar os mortos sem ressuscitá-los”. Algo ilógico, na verdade, é algo que não existe. Da mesma forma, Deus não pode criar uma pedra que não pode carregar, pois esta opção também não existe. O paradoxo da onipotência, segundo esse filósofo, seria um mero jogo de linguagem sem sentido.

Vejamos agora uma breve reflexão do filósofo francês René Descartes sobre a onipotência divina.

René Descartes: Deus é ilógico


Ainda que Descartes não tenha abordado o Paradoxo da Pedra, o filósofo francês refletiu sobre a onipotência divina. Sua perspectiva é considerada simples demais: Deus pode fazer qualquer coisa, inclusive coisas ilógicas. Para Descartes, Deus é substância infinita, enquanto que o homem é substância finita, sendo a lógica apenas uma perspectiva humana.

Se quisesse, Deus poderia criar uma pedra que não pudesse carregar e carregá-la assim mesmo, assim como poderia criar um quadrado redondo, pois dilemas lógicos só se aplicam à humanidade.

Variações do Paradoxo da Onipotência


O Paradoxo da Onipotência não se resume ao argumento da pedra. Uma vez que sua lógica seja compreendida, outros paradoxos podem ser criados com o objetivo de demonstrar a limitação de um ser onipotente. Por exemplo:

  1. Um ser onipotente pode ter o poder de tirar seu próprio poder?
  2. Um ser onisciente pode querer não saber algo?

A série de animação Os Simpsons satirizou o paradoxo: “Jesus pode esquentar no microondas um burrito tão quente que Ele não conseguisse comer?”

AutorAlfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.