Michel Foucault: biopoder e produção da verdade
Autora: Georgia Faust *
Os protestos de maio de 1968, na França, inauguraram uma nova esquerda, libertária, subjetiva, sexualizada, que trocou o material pelo simbólico. Mas o que deu sustentação filosófica para essa virada foi a obra de um homem, Michel Foucault, um pensador francês que transforma o corpo em texto, a verdade em poder e a linguagem em campo de batalha. É ele quem entrega pra esquerda cultural o que ela mais precisava: uma justificação intelectual para desconfiar da biologia, da ciência e de qualquer ideia de natureza. Assim começa o deslizamento da esquerda para dentro do labirinto da linguagem.
Foucault propõe algo radical. O poder não é uma coisa que se possui, mas é algo que circula. Não existe um lugar do poder, nem um sujeito que o exerça. O poder está em toda parte, infiltrado nas relações sociais, nas instituições, nas normas e nos discursos.
Em vez de perguntar “quem manda?”, o Foucault pergunta “como somos governados?”. Essa mudança é sutil, mas revolucionária, no mau sentido. Ela transforma o poder numa rede difusa e faz dele o motor da produção da verdade.
Segundo ele mesmo, “cada sociedade tem o seu regime de verdade”. E o que chamamos de ciência, razão ou natureza são apenas efeitos desse regime. O resultado é que para ele toda a verdade é política, inclusive a verdade biológica.
Foucault: o poder não reprime, ele produz
Antes de Foucault, o poder era visto como algo que reprimia: o rei, o estado, o patriarca. Só que Foucault diz o contrário. O poder não apenas proíbe, ele também produz. Produz corpos, comportamentos, saberes, subjetividades.
A medicina, por exemplo, produz a categoria do “doente”. A psiquiatria produz o “louco”, o direito produz o “criminoso”. E a biologia, sim, a biologia produz o “homem” e a “mulher” como categorias inteligíveis. Ou seja, o poder não apenas nos controla, ele nos fabrica. Essa inversão foucaultiana é o coração do pós-estruturalismo e é também a semente do que depois será chamado de construção social do sexo.
O nascimento do biopoder
No século XVII, o poder passa a assumir uma nova forma, o biopoder. Até então, o poder era do soberano, o direito de “tirar a vida”. Com o biopoder, ele se torna o poder de “fazer viver”: administrar populações, regular nascimentos, definir os padrões de saúde e de sexualidade.
A medicina, a demografia e a biologia passam a ser instrumentos de governo e o corpo, antes um dado natural, vira um objeto político. O biopoder, portanto, é o controle da vida por meio da ciência.
Quando Foucault escreve a “História da Sexualidade”, ele mostra que a sexualidade não é uma essência reprimida, mas sim uma invenção discursiva, uma maneira de regular corpos, identidades e comportamentos. Assim, o sexo deixa de ser natureza e passa a ser dispositivo de poder.
A partir daí, toda referência à biologia passa a ser suspeita. Dizer que algo é “natural” vira sinônimo de “conservador” e dizer que é “social” vira sinônimo de “progressista”.
O discurso como base fundamental
Foucault diz que não existe saber inocente. Toda forma de conhecimento está vinculada a uma estrutura de poder. O saber não descreve o mundo, ele o produz. Isso significa que a ciência, medicina, biologia e até a linguagem são vistas como tecnologias de dominação.
Assim, o corpo deixa de ser a base material da experiência e se torna o efeito de uma rede de discursos. E é nesse ponto que Foucault se separa radicalmente do materialismo. Se Marx dizia que a base determina a superestrutura, Foucault diz que o discurso cria a base. E essa inversão é o momento em que a esquerda larga de vez o chão do real e passa a caminhar sobre o terreno escorregadio da linguagem.
Da luta de classes à luta contra as normas
A influência de Foucault na esquerda foi imediata e profunda. Ele ofereceu uma nova arma intelectual: a crítica da verdade. Isso permitiu que qualquer discurso dominante — da ciência à moral — fosse acusado de “violência simbólica”.
O marxismo clássico dizia que a opressão vinha da propriedade. Foucault diz que ela vem do discurso. E essa ideia cai como uma luva na geração pós-68, cansada de greves e fábricas, mas fascinada pelo poder da linguagem.
Assim, a luta de classes cede lugar à luta contra as normas. A revolução deixa de ser econômica e se torna cultural. E é o nascimento da política identitária, da ideia de repressão simbólica e, décadas mais tarde, da convicção de que mudar palavras pode mudar realidades.
Foucault e a Invenção das Categorias
Foucault escreveu “História da Sexualidade” para mostrar que a homossexualidade não existia como categoria antes do século XIX. Ela teria sido inventada pela medicina e pela psicologia, que a transformaram numa identidade. Ou seja, o próprio ato de “nomear” o homossexual é o que faz com que ele exista.
E esse raciocínio, aplicado mais tarde por outros autores, vai ser a base do transativismo contemporâneo. A ideia de que as categorias “homem” e “mulher” também são criações discursivas e que o indivíduo pode, portanto, se redefinir linguisticamente.
A frase “o gênero é uma construção social” nasce aqui. E o que começa como uma crítica ao controle dos corpos acaba se tornando a legitimação teórica da autodeclaração identitária.
A crítica que serve ao capitalismo
O problema é que, ao negar a materialidade do corpo, a teoria do Foucault acaba servindo ao mesmo sistema que ele queria criticar. Se não há natureza, se não há verdade, se tudo é discurso, então nada é sólido o suficiente para resistir ao mercado.
O capitalismo adora identidades fluidas, desejos mutantes, consumidores que se reinventam a cada estação. O “eu discursivo” de Foucault casa perfeitamente com o “eu flexível” do neoliberalismo. O que era crítica à opressão se transforma em estética da diferença. E a esquerda, que antes enfrentava o capital, passa a disputar o vocabulário da moda.
Foucault ensinou à esquerda a duvidar da verdade e acreditar no discurso. A partir dele, toda a realidade material passa a ser lida como efeito de poder. É a virada que vai transformar marxismo em pós-modernismo e o corpo em narrativa.
Autora: Georgia Faust | Doutoranda em Estudos de Gênero.











