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Orlando Carneiro: O Último Carneiro da Conselheiro (eBook | PDF)

Orlando Carneiro - o último carneiro da conselheiro

Uma declaração de amor a Belém do Pará!

Livro digital – distribuição gratuita. Clique no link abaixo para baixar o PDF

Prefácio de Alfredo Carneiro.

Nesta pequena obra, Orlando conta sua infância e adolescência na casa da família, na rua Conselheiro Furtado, número 616. Assim, narra também um pedaço da história da cidade de Belém do Pará durante as décadas de 40 a 60, uma cidade muito diferente de hoje, idílica e encantadora — em um Brasil também muito diferente.

O autor deste livro dedicou grande parte de sua vida à valorização da história e da cultura da Amazônia — especialmente da cidade de Belém do Pará. Além de sua produção literária, foi responsável pela implantação e expansão da TV e do Rádio nos locais mais inacessíveis da região em uma época de grande dificuldade de transporte, estando à frente da Fundação de Telecomunicações do Pará. Idealizou e implantou o Museu da Eletricidade do Pará e o Projeto de Memórias do Registro Mercantil, que publicou o livro “Marcas do Tempo”, editado em parceria com a Secretaria do Estado de Cultura do Pará, destacado com um Prêmio Jabuti na categoria Projeto Gráfico (2016). É também o homem que me criou com carinho e dedicação, meu pai, Orlando Carneiro.

Ler O Último Carneiro da Conselheiro não foi apenas uma viagem ao passado de minha família. Foi também um momento de recordação pessoal, pois tive a oportunidade de passar algum tempo naquela casa brincando com meus primos Beto, Renata e Celinha que moravam lá. A casa era impressionante, seja pelo tamanho ou pela localização privilegiada, bem no centro de Belém, próximo à Praça Batista Campos. E tinha ainda o quintal. É até estranho chamar de quintal o que mais parecia, para uma criança, um quarteirão inteiro, tão grande que era. De tal forma a residência resistiu à modernização da cidade, que ainda continua lá; não mais propriedade da família, porém, ainda de pé e lembrando o ideal amoroso de meus avós Orlando e Célia Carneiro.

Hoje percebo que existia algo de poderoso naquele lugar, não apenas sua construção adornada pelas histórias da família, mas também os detalhes do portão de ferro, dos azulejos e várias outras coisas que registravam o capricho e a força de vontade de meu avô. A casa viu os filhos do casal crescerem, os prédios subirem, o asfalto e os carros se proliferarem pela cidade. Persistiu como se protegesse a família mesmo após a morte do provedor. Todos daquela família inicial já se foram, o casal e os três filhos. O último a partir foi Orlando, o último Carneiro daquela casa da Conselheiro. Antes de ir, e sem saber que iria, pediu que eu escrevesse esse prefácio.

Além da história familiar e do registro histórico, existe no livro a noção de que o passado é importante. Não como melancolia, mas como referência sólida. Minha geração, aparentemente, despreza o passado. Derruba casarões históricos, destrói memórias, constrói prédios cada vez mais altos, tecnologias cada vez mais inovadoras e carros cada vez mais velozes — ainda que, aparentemente, não saiba muito bem para onde ir. O autor deste livro, por outro lado, sempre demonstrou plena consciência do valor do passado. Não como uma velha bússola em um museu, mas como uma bússola que ainda funciona.

Não conheci o meu avô Orlando, e o livro cumpriu o papel de nos apresentar com maior profundidade. Pude então conhecer sua personalidade tranquila, seus valores familiares, sua religiosidade sensata, a preocupação com os filhos e amigos, os cuidados com o lar e o amor pela cidade. O passado esclarece o presente, e assim pude compreender por que não lembro de meu pai e meus tios, criados naquela casa, brigarem entre si ou mesmo levantarem a voz. A criação que eu e minha irmã Daniela recebemos foi reflexo disso. Nosso lar sempre foi pacífico. No caso de meus avós, o passado pode trazer também um ideal humano. Esse ideal foi o legado de toda uma vida com o propósito de edificar um lar onde pudessem criar seus filhos em paz e agradar a Deus. Essa era enorme ambição deles.

Uma das dificuldades na ilustração do livro, conforme as conversas que tive com meu pai, foram as fotografias. Naquele tempo, as fotografias eram poucas e, por isso mesmo, muito especiais. Algumas revestidas de certa solenidade, pois não era comum alguém sair fotografando por aí naquele tempo. Então, não existem muitas imagens daquele tempo, a não ser aquelas poucas fotos protocolares de rosto ou da família inteira, com direito à vestimenta adequada, ornamentos de cabelo e paletó. Por isso, infelizmente, o livro não conta com muitos registros fotográficos. As fotos reunidas pela família estão no fim no livro.

Por outro lado, as imagens que o livro evoca não são tão distantes. O vendedor de cascalhos com seu triângulo de ferro, os trilhos do bonde e os paralelepípedos ainda podem ser vistos pela cidade. Contudo, um casarão com quintal enorme cheio de árvores frutíferas, galinhas, jabutis e perus, bem no centro da cidade, não é mais algo fácil de ser visto. Uma vizinhança amigável, praticamente familiar, onde as crianças entram nas casas dos outros inocentemente, tornou-se uma cena ainda mais rara. Se imaginarmos que tudo isso ainda era colorido pela exuberante natureza da Amazônia que se mesclava à arquitetura colonial, não é exagero dizer que Belém do Pará era uma cidade encantadora, explicando a paixão de toda uma geração.

De minhas próprias lembranças infantis, ainda recordo daquele quintal com pequenos barracões que incitavam à “pesquisa arqueológica” daquela “civilização antiga” que deixara construções misteriosas. Entre os objetos indecifráveis que encontrei estava um ferro de passar a carvão, na verdade, indecifrável até hoje, pois não entendo como alguém poderia usar aquilo sem estragar tudo. Na casa existia também um relógio de fabricação portuguesa que anunciava as horas de maneira fantasmagórica. Quando minha avó Célia veio morar conosco, trouxe esse relógio. E como eu assumi o trabalho de dar corda e regular, foi vontade dela que após sua morte ele fosse entregue a mim. E assim foi feito. Hoje tenho minha própria família e esse relógio faz parte dela.

Quando eu ouvia as histórias de minha avó, percebia que naquela época praticamente tudo exigia um enorme trabalho manual, e imaginava que a vida dos meus avós era um eterno sacrifício. Mas pensar assim é coisa da minha geração. O próprio fato de eu não compreender aquele ferro de passar pode significar que esquecemos algo importante. A praticidade de nosso tempo torna incompreensível o trabalho dedicado, amoroso e detalhista dos nossos avós. Era uma vida cheia de sentido e dedicação ao próximo, bem diferente de hoje.

Ah, existia também um pequeno e misterioso barracão em ruínas, mal dava para entrar. Eu era jovem demais para querer investigar seus mistérios antigos. Muito tempo depois descobri que meu tio Américo dava aulas de matemática ali. No meu tempo de criança, a casa já tinha um longo passado que eu ignorava. Hoje, todos os integrantes daquela família inicial já se foram. A casa, surpreendentemente, ainda está lá, até que seja destruída para a construção de algum prédio em nome desse progresso paradoxalmente autodestrutivo.

Orlando Carneiro faleceu em 19 de dezembro de 2020, em sua casa, sem dor, na companhia de minha mãe, Nádia, esposa de toda vida. Assim partiu o último Carneiro da Conselheiro. Poucos tiveram a sorte de viver bem, ter uma boa família, amigos, filhos, escrever livros, realizar projetos, participar de um momento mágico da história do Brasil e partir em paz. Demorou bem pouco tempo para que minha tristeza fosse substituída pela inveja.

Fiquei com a tarefa de publicar este seu último livro. Optei pelo formato digital e distribuição gratuita para que a última contribuição literária de Orlando Carneiro seja um presente a todos.

 

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