{"id":20280,"date":"2025-10-24T14:38:18","date_gmt":"2025-10-24T14:38:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.netmundi.org\/home\/?p=20280"},"modified":"2025-10-24T15:03:14","modified_gmt":"2025-10-24T15:03:14","slug":"a-cobra-sem-memoria-mia-couto-sobre-a-arte-de-lembrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.netmundi.org\/home\/a-cobra-sem-memoria-mia-couto-sobre-a-arte-de-lembrar\/","title":{"rendered":"A Cobra sem Mem\u00f3ria: Mia Couto sobre a arte de lembrar"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em><strong>Texto de Giovanni Mesquita*<\/strong><\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 nos estertores do mil\u00eanio passado, quando j\u00e1 quase acabava a era dos veros debates, \u201carrigorou-se\u201d um tempo de palestras. Nossa, hoje, pobre capital viu os gigantes daqueles, e desses tempos, em carne, ossos e verbo. Vimos, ou perdemos, Saramago, Eric J. Hobsbawm, Marilena Chau\u00ed, Perry Anderson&#8230; Quase no \u201cfinzim\u201d desse tempo, quando no horizonte j\u00e1 preteava o olho da gateada do fascismo, fui na UFRGS, costeado de compadre meu Knierim, acompanhar uma s\u00e9rie de falas. Na \u00e9poca j\u00e1 estava um pouco c\u00e9tico quanto \u00e0 sabedoria dos s\u00e1bios. O lugar-comum te\u00f3rico era mato, ou melhor, j\u00e1 era mato. Mas era trabalho e n\u00e3o prazer, e l\u00e1 estava eu. A estudantada e professorada estavam de cola em p\u00e9. Era pura agita\u00e7\u00e3o para ver o grande te\u00f3rico que vinha das \u201czor\u00f3pias\u201d para trazer-nos luzes. Assisti com parcimoniosa aten\u00e7\u00e3o o douto, n\u00e3o me fez luzir novas signific\u00e2ncias. Me pareceu que requentava ideias e as atava com mimosas neolog\u00edsticas, que estavam em voga naquela quadra da redoma acad\u00eamica. A minha isolada impress\u00e3o era que chamava o preto de negro e o cinza de pl\u00fambeo&#8230;. Fiquei l\u00e1 a ouvi-lo com dificuldades devido aos fortes ru\u00eddos gerados pela est\u00e1tica dos meus pensamentos em outra coisa qualquer. N\u00e3o que fosse descabido, n\u00e3o que fosse indevido, era s\u00f3, ou me pareceu, mais do mesmo. <strong>Pela tarde, ou no dia seguinte, outra palestra, com outro douto que tamb\u00e9m cruzou o oceano. Vinha da Mama \u00c1frica, de Mo\u00e7ambique. J\u00e1 conhecia, de-ouvir-falar, o gajo de al\u00e9m-mar, pero n\u00e3o <em>mucho<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou ele de mansinho era praticamente um mineirinho. Disse que n\u00e3o sabia porque haviam-no convidado para falar sobre mem\u00f3ria, considerando que a dele era p\u00e9ssima e mesmo que, talvez pouco servisse porque <em><strong>\u201cde que vale ter mem\u00f3ria se o que mais vivi foi o que n\u00e3o se passou?\u201d<\/strong><\/em>. J\u00e1 me ajeitei na poltrona. Relatou que, por ter uma mem\u00f3ria gr\u00e1cil, ele se vexava quando pela manh\u00e3 sua fam\u00edlia esnobava em detalhes os sonhos tidos, e ele&#8230; nada. Quando o constrangimento tornou-se tortuoso ele resolveu tomar uma atitude dr\u00e1stica. <strong>Ent\u00e3o, na hora \u201cda inveja e do caf\u00e9\u201d ele come\u00e7ou a inventar seus sonhos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Depois da figurativa anedota, ele divagou divinamente sobre o conte\u00fado dos sonhos e da distin\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre eles e o que recorda o sonhador<\/strong>. Segundo o bi\u00f3logo, os temas sonhados s\u00e3o reelaborados pelos que sonham porque \u201cnem um sonho pode ser descrito (&#8230;) <strong>o sonho pede uma linguagem que n\u00e3o h\u00e1, que \u00e9 a linguagem dos sonhos<\/strong>. A\u00ed s\u00f3 a poesia pode entreabrir essa porta.\u201d (O que nos lembra que o \u201cpoeta \u00e9 um fingidor\u201d!) e segue \u201c(&#8230;) a mem\u00f3ria funciona como os sonhos.\u201d Ou seja <em><strong>\u201cA mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 factual do que se passou, ela \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do que se passou, a mem\u00f3ria \u00e9 uma entre as v\u00e1rias vers\u00f5es do passado.\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Desse pensamento, evoluem duas conclus\u00f5es: se a mem\u00f3ria, assim como o sonho, \u00e9 a reconstru\u00e7\u00e3o confeccionada pela lembran\u00e7a de cada um, a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 coletiva e sim, por consequ\u00eancia, exclusivamente individual; portanto, e decorrente disso, n\u00e3o \u00e9 A mem\u00f3ria e sim AS mem\u00f3rias, mesmo quando advindas de um mesmo fato. Para o escritor, o sonho \u00e9 um parente pr\u00f3ximo da mem\u00f3ria, <strong><em>\u201cOs sonhos s\u00f3 existem na imposs\u00edvel lembran\u00e7a que temos deles<\/em><\/strong>\u201d e, \u00e0 guisa de conclus\u00e3o, tirou <em>onda<\/em> \u201c<strong><em>\u00e9 como impress\u00f5es digitais que inventam o dedo\u201d<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele fez uma distin\u00e7\u00e3o muito clara entre hist\u00f3ria e mem\u00f3ria, podendo ser hist\u00f3ria, a que se referia, aquela de que fala Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, a com E e sem H: est\u00f3ria. Mas, eu vou me dar o desplante de n\u00e3o fazer essa distin\u00e7\u00e3o, porque, na minha opini\u00e3ozinha, tudo que ele disse vale tamb\u00e9m para a hist\u00f3ria com H.<\/p>\n\n\n\n<p>Sigamos: <strong><em>\u201c &#8230;. a diferen\u00e7a entre mem\u00f3ria e hist\u00f3ria \u00e9 artificialmente produzida.\u201d<\/em><\/strong> Talvez essa rigidez posti\u00e7a seja sintoma de alguma sequela de cartesianismo mal curado. Para o poeta a mem\u00f3ria e hist\u00f3ria se misturam, sendo elas individualmente constru\u00eddas <strong><em>\u201cs\u00e3o o ch\u00e3o de minha alma (&#8230;) E foi no ch\u00e3o da cozinha que eu me fiz poeta\u201d<\/em><\/strong>. Ele passou a descrever o ch\u00e3o de sua cozinha de sua meninice e os seres que l\u00e1 habitavam (habitam?), as mulheres que trabalhavam na casa e cirandavam a volta da mesa da cozinha \u201ce eu olhava fascinado essas longas saias que ondulavam como se fossem cortinados soprados por uma misteriosa brisa, era como se fosse uma dan\u00e7a, um baile de divindades (&#8230;) e as m\u00e3os que circulavam entre a \u00e1gua, a terra e o fogo&#8230;\u201d Desnecess\u00e1rio dizer que a esta altura eu j\u00e1 estava de boca aberta por onde escorriam em cascatas babas imagin\u00e1rias. E aos ingredientes que formaram sua mem\u00f3ria, foram incorporados os cheiros, sons, fuma\u00e7as e sabores&#8230;. <strong>Talvez a fun\u00e7\u00e3o do poeta seja essa mesma, a de descrever as coisas que o resto de n\u00f3s s\u00f3 somos capazes de sentir<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu o te\u00f3rico militante, a nossa <em><strong>\u201c&#8230;casa \u00e9 a casa da inf\u00e2ncia como se ainda estiv\u00e9ssemos l\u00e1, onde em n\u00f3s a casa mora. Ter casa \u00e9 isso, \u00e9 ter um lugar de eterno regresso\u201d<\/strong><\/em>. Essa marca de sua mem\u00f3ria, a casa da inf\u00e2ncia, \u00e9 comum a todos n\u00f3s. Lembro quando me escondia embaixo da mesa da sala, oculto pela comprida toalha, ensinando-me a ler.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 estranho que esse filho de imigrantes portugueses, que nasceu em Mo\u00e7ambique, carregue em si, como uma for\u00e7a poderosa, a filha mais linda e melanc\u00f3lica da mem\u00f3ria: a saudade. O curioso \u00e9 que em nenhum momento ele descreve o papel que exerce a saudade nessas filigranas de mem\u00f3rias e hist\u00f3rias. Essa presen\u00e7a da aus\u00eancia, produto t\u00e3o tipicamente portugu\u00eas, que n\u00f3s fizemos com ela o mesmo que fizemos com tudo: misturamos. Para n\u00f3s que criamos a pizza de sorvete, isso foi moleza. Na saudade acrescentamos um forte punhado de banzo, duas x\u00edcaras de karukasy e talvez at\u00e9 uma pitada Sehnsucht. Mas como nossa l\u00edngua se manteve lusa, continuamos a chamar de saudade. <strong><em>N\u00e3o achamos uma palavra para a primeira pa\u00e7oca, o colo da av\u00f3, o gol da mem\u00f3ria, o brilho daqueles olhos<\/em><\/strong>. Saudade! Saudade simplifica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os lusos a saudade \u00e9 como uma tatuagem que nunca sa\u00eda deles at\u00e9 porque, em muitos casos, eles nunca estavam no seu lugar. J\u00e1 n\u00f3s que n\u00e3o sa\u00edmos daqui potencializamos esse sentimento e o aplicamos mesmo para aquelas coisas que nunca vivemos, para aqueles lugares onde n\u00e3o estivemos&#8230; Ent\u00e3o, nesse contexto, o que seria a saudade? Uma musa, uma diva, um orix\u00e1, uma fibra \u00f3tica que conecta nossas mem\u00f3rias e hist\u00f3rias ou um forno sider\u00fargico que as derretem e misturam em elevadas temperaturas sentimentais? Chega! Vamos deixar isso para quem sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>O jornalista lembrou que a natureza das culturas africanas, em Mo\u00e7ambique, transita em diferentes avenidas: <em><strong>\u201cA mem\u00f3ria, que se baseia na hist\u00f3ria falada e n\u00e3o escrita, se deita em outra cama.\u201d<\/strong><\/em> Ela se alimenta do \u201cprov\u00e9rbio, da f\u00e1bula e da pequena hist\u00f3ria\u201d. Soubemos, ent\u00e3o, que naquele canto da \u00c1frica os povos, n\u00e3o mais \u00e1grafos, mant\u00eam-se leais a cultura oral, a magia da palavra dita. Aquela em que o verbo viaja em asas sonoras, que se despregam dos l\u00e1bios e pousam nos ouvidos, na pele, e penetram nos mais \u00edntimos recantos, levando \u00e0s diversas gera\u00e7\u00f5es os encantamentos de mem\u00f3ria. Como era conosco antes do advento do r\u00e1dio, da luz el\u00e9trica, da TV, dos celulares. Outra era que n\u00e3o dista a duas gera\u00e7\u00f5es passadas&#8230; <strong>Dessa forma, as falas, os dizeres, tem suas constru\u00e7\u00f5es assentadas na mem\u00f3ria, na hist\u00f3ria, na lembran\u00e7a e, eu diria, na saudade<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>E mais uma vez ele saltou do barco ao cais, ou manteve o p\u00e9 num e noutro, com uma \u201cpequena hist\u00f3ria\u201d. Dessa vez, j\u00e1 crescido, j\u00e1 juvelecido, j\u00e1 adultecido e talvez at\u00e9 envelhecido, ele contou uma hist\u00f3ria, uma daquelas que sai da boca da ternura, da boca de um av\u00f4. <strong>Contou que ao passear com um dos netos eles cruzaram com uma cobra<\/strong>. O menino exclamou, com mais espanto que propriamente medo, <strong>\u201colha esse bicho que s\u00f3 tem pesco\u00e7o\u201d<\/strong> E ele completou vaidoso, \u201cveja isso! \u00e9 poesia, \u00e9 poesia pura\u201d. E eu l\u00e1, virado em olhos e ouvidos, recebendo bem mais do que n\u00e3o esperava. <strong>Ele sacou do conto do neto, como se fosse o conto a cartola de um mago, um longo len\u00e7o de cores fluidas, ou melhor um inesperado coelho<\/strong>. <em>\u201cNosso tempo \u00e9 esse um bicho que s\u00f3 tem pesco\u00e7o, comeram a cabe\u00e7a e arrancaram-lhe a cauda, e essa dupla amputa\u00e7\u00e3o foi praticada por essa sociedade que a gente chama a sociedade do ef\u00eamero, em que tudo o que nasce \u00e9 transit\u00f3rio, nasce j\u00e1 morrendo (&#8230;) vivemos nesse tempo que tudo \u00e9 simult\u00e2neo, que tudo \u00e9 imediato, tudo \u00e9 voragem&#8230;(&#8230;) como isso aconteceu? Acho que foi uma coisa chamada o Mercado que (&#8230;) imp\u00f4s um (outro) tempo, o tempo do consumo. \u00c9 um tempo que se consome a si pr\u00f3prio, e que nos consome a n\u00f3s\u201d e nunca temos tempo \u201cn\u00f3s n\u00e3o precisamos de mais tempo, n\u00f3s precisamos um tempo que seja nosso, (&#8230;) e nesse tempo, n\u00f3s temos que encontrar intimidade com as coisas que nos s\u00e3o pr\u00f3ximas, com as pessoas que n\u00f3s amamos, e isso requer um vagar, um tempo pr\u00f3prio (&#8230;) hoje (&#8230;) a nossa primeira preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 viver (&#8230;) \u00e9 registrar o sucedido numa imagem, numa fotografia, num v\u00eddeo (&#8230;) \u00e9 obvio que essas coisas t\u00eam suas vantagens (&#8230;) mas a quest\u00e3o \u00e9 sabermos se n\u00f3s continuamos sendo sujeitos, autores dessa narrativa que \u00e9 nossa pr\u00f3pria vida (&#8230;) (\u00e9 necess\u00e1rio) a presen\u00e7a corporal, as m\u00e1quinas n\u00e3o podem serem as \u00fanicas e exclusivas contadoras de hist\u00f3ria (&#8230;) tem que ter esse afeto que s\u00f3 pode ser causado pela presen\u00e7a f\u00edsica&#8230;\u201d Como diria Lula \u201ceu preciso tocar nas pessoas\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E para que as pessoas n\u00e3o deixem de existir como sujeito da sua hist\u00f3ria, elas precisam do seu territ\u00f3rio do seu lugar, seu morro, sua rua, sua casa de inf\u00e2ncia, <em>\u201c\u00c9 preciso que esses lugares n\u00e3o morram, porque perderam ra\u00edzes, porque perderam sua pr\u00f3pria alma. Hoje \u00e9 muito vulgar as pessoas viver numa cidade e n\u00e3o conhecerem a hist\u00f3ria de sua cidade, de seu bairro, de sua pr\u00f3pria casa isso significa que vivem em lugares que s\u00e3o mortos. Um lugar \u00e9 morto quando ele n\u00e3o produz hist\u00f3ria, quando ele n\u00e3o evoca mem\u00f3rias<\/em>\u201d. Bingo!<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Eu acredito no poder das hist\u00f3rias, eu acredito que as hist\u00f3rias n\u00e3o salvam o mundo, mas, elas podem incutir o desejo da utopia&#8230;(&#8230;) as hist\u00f3rias nos devolvem o encantamento da inf\u00e2ncia afastam e reiniciam o mundo, e mais que reiniciar o mundo, elas fazem criar um mundo em estado de inf\u00e2ncia, quer dizer um mundo que est\u00e1 ainda nascendo e por isso o pr\u00f3prio passado pode estar ainda nascendo&#8230;\u201d<\/em>. Depois de dizer tudo aquilo, ele questionou o mote do encontro, porque lhe parece que \u201cguardar o passado e semear o futuro faz tanto sentido como o inverso guardar o futuro e semear o passado\u201d. Porque no passado projeta o futuro e futuro, daquele passado, depende da mem\u00f3ria cuidadosa e amorosamente cultivada pelo tempo que dedicamos a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00ed de l\u00e1 aquele dia com tanta coisa para pensar que n\u00e3o sei se cheguei a pensar em algo, mas hoje lembrando posso dizer alguma coisa. Mas, \u00e9 claro n\u00e3o posso reproduzir o som da sua voz, no que muito se perde. Dizem que para um pequeno enxergar mais longe no horizonte \u00e9 necess\u00e1rio que ele sente nos ombros dos gigantes, mas naquele tempo s\u00f3 senti uma vertigem, uma certa impot\u00eancia&#8230;. A cada um \u00e0 sua sina.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem seria ele, o menino de al\u00e9m-mar <strong><em>\u201cO tempo tomou conta de mim, n\u00e3o somos n\u00f3s que guardamos lembran\u00e7as, s\u00e3o as lembran\u00e7as que guardam a n\u00f3s.\u201d<\/em><\/strong> Sim, era ele o escritor, um senhor poeta, SARAV\u00c1, Mia Couto!!!<\/p>\n\n\n\n<p>*\u00a0<strong>Giovanni Mesquita<\/strong>\u00a0\u2013 Historiador, muse\u00f3logo e escritor autor de Bento Gon\u00e7alves do nascimento a revolu\u00e7\u00e3o: uma biografia hist\u00f3rica.\u00a0<em>Email<\/em>\u00a0para contato:\u00a0<strong>Bento1835@gmail.com<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancia<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>A hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria como uma conjuga\u00e7\u00e3o de impossibilidades<\/strong>. Aula magna sal\u00e3o da UFRGS, setembro de 2014. <strong>Dispon\u00edvel em<\/strong>: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IZtc11Bn0M0&amp;t=864s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IZtc11Bn0M0&amp;t=864s<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Giovanni Mesquita* L\u00e1 nos estertores do mil\u00eanio passado, quando j\u00e1 quase acabava a era dos veros debates, \u201carrigorou-se\u201d um tempo de palestras. Nossa, hoje, pobre capital viu os gigantes daqueles, e desses tempos, em carne, ossos e verbo. Vimos, ou perdemos, Saramago, Eric J. Hobsbawm, Marilena Chau\u00ed, Perry Anderson&#8230; Quase no \u201cfinzim\u201d desse tempo, quando no horizonte j\u00e1 preteava o olho da gateada do fascismo, fui na UFRGS, costeado de compadre meu Knierim, acompanhar uma s\u00e9rie de falas. Na \u00e9poca j\u00e1 estava um pouco c\u00e9tico quanto \u00e0 sabedoria dos s\u00e1bios. O lugar-comum te\u00f3rico era mato, ou melhor, j\u00e1 era mato. Mas era trabalho e n\u00e3o prazer, e l\u00e1 estava eu. A estudantada e professorada estavam de cola em p\u00e9. Era pura agita\u00e7\u00e3o para ver o grande te\u00f3rico que vinha das \u201czor\u00f3pias\u201d para trazer-nos luzes. Assisti com parcimoniosa aten\u00e7\u00e3o o douto, n\u00e3o me fez luzir novas signific\u00e2ncias. Me pareceu que requentava ideias e as atava com mimosas neolog\u00edsticas, que estavam em voga naquela quadra da redoma acad\u00eamica. A minha isolada impress\u00e3o era que chamava o preto de negro e o cinza de pl\u00fambeo&#8230;. 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