{"id":19378,"date":"2023-08-11T22:15:08","date_gmt":"2023-08-11T22:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.netmundi.org\/home\/?p=19378"},"modified":"2023-08-12T12:16:03","modified_gmt":"2023-08-12T12:16:03","slug":"tornar-se-selvagem-a-jornada-de-jera-guarani","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.netmundi.org\/home\/tornar-se-selvagem-a-jornada-de-jera-guarani\/","title":{"rendered":"Tornar-se Selvagem: a jornada de Jer\u00e1 Guarani"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>&#8220;Tornar-se selvagem&#8221; \u00e9 um texto da educadora e l\u00edder ind\u00edgena <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jer%C3%A1_Guarani\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jer\u00e1 Guarani<\/a>, do povo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mbi%C3%A1s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">guarani mbya<\/a>, que relata sua dif\u00edcil jornada entre dois mundos<\/strong>. De um lado, o individualismo radical das grandes cidades, do outro, a vida comunit\u00e1ria das aldeias ind\u00edgenas. A autora faz diversas cr\u00edticas ao <em>&#8220;mundo civilizado&#8221;<\/em>, discorrendo sobre o brutal contraste social, a alimenta\u00e7\u00e3o envenenada e o desrespeito \u00e0 natureza t\u00e3o comuns nas sociedades que se dizem mais esclarecidas que os <em>&#8220;povos selvagens&#8221;<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00e1 Guarani n\u00e3o recorre ao lugar-comum de afirmar que toda produ\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim. Faz elogios \u00e0 medicina e ensina em sua aldeia que o mundo civilizado tamb\u00e9m t\u00eam coisas boas. <strong>Contudo, afirma que se os povos ind\u00edgenas fizessem estudos antropol\u00f3gicos sobre o mundo civilizado, compartilhando relat\u00f3rios e an\u00e1lises, perceber\u00edamos o estilo de vida absurdo que vivemos e as coisas inaceit\u00e1veis que aceitamos<\/strong>. Afinal, tudo indica que n\u00e3o compreendemos nossa real condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, seria mais f\u00e1cil convencer os povos civilizados a se tornarem selvagens do que o contr\u00e1rio, pois todas as coisas ruins que ocorrem no planeta v\u00eam de pessoas civilizadas. Ou, nas palavras da autora: <em><strong>&#8220;Apesar de v\u00e1rios estudos produzidos pelo mundo civilizado, as pessoas n\u00e3o param de fazer coisas erradas&#8221;<\/strong><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto tamb\u00e9m apresenta a vis\u00e3o religiosa dos povos ind\u00edgenas. Essa vis\u00e3o est\u00e1 distante dos complexos discursos dos nossos prolixos te\u00f3logos livrescos e suas hermen\u00eauticas, que tentam falar, sem sucesso, sobre uma realidade sagrada que sempre esteve clara para os povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Autor<\/strong>:&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.netmundi.org\/home\/quem-sou\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alfredo Carneiro<\/a>&nbsp;<\/em>\u2013 Graduado em Filosofia e p\u00f3s-graduado em Filosofia e Exist\u00eancia pela Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Leia abaixo o texto <em>&#8220;Tornar-se Selvagem&#8221; <\/em>de Jer\u00e1 Guarani<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tornar-se Selvagem<\/h2>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Posso n\u00e3o parecer muito simp\u00e1tica com o que vou dizer. Em outras ocasi\u00f5es, certamente, n\u00e3o seria assim, pois gostamos muito de dar risada, o povo Guarani Mbya \u00e9 muito alegre! E eu sempre me esfor\u00e7o para ser quem sou de fato \u2013 feliz, apesar dos pesares \u2013 mesmo quando falo de assuntos problem\u00e1ticos e ruins.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, neste momento da hist\u00f3ria, diante do medo dos mais velhos e do lamento das pessoas na aldeia, por ser ind\u00edgena guarani mbya e por ter aprendido tudo o que aprendi, quando penso no planeta Terra agora \u2013 n\u00e3o nele apenas, mas em n\u00f3s nele \u2013, eu realmente gostaria de acreditar em vidas passadas. \u00c0s vezes, desejo ter vivido em outra era para n\u00e3o sentir e n\u00e3o ver tantas coisas incompreens\u00edveis. Eu poderia perfeitamente ter vivido no tempo dos dinossauros e ter sido comida por um, ter sido mastigada por um dinossauro. Acho que seria uma situa\u00e7\u00e3o bem melhor do que a que temos hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas que digo para os mais velhos e para voc\u00eas, Juru\u00e1, em momentos de encontro, \u00e9 que seria importante fazer antropologia na cultura de voc\u00eas. Tirar o Guarani da aldeia para ele ficar na casa de voc\u00eas e observar voc\u00eas todos os dias. Sentir, refletir, tentar entender, fazer relat\u00f3rios e, finalmente, produzir uma tese de capa dura, bem bonita, com muitas p\u00e1ginas, fotografias, gr\u00e1ficos e refer\u00eancias a outros estudos, para concluir e dizer aos Juru\u00e1 para se tornarem selvagens, para que se tornem pessoas n\u00e3o civilizadas \u2013 pois todas as coisas ruins que est\u00e3o acontecendo no planeta Terra v\u00eam de pessoas civilizadas, pessoas que n\u00e3o s\u00e3o, teoricamente, selvagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Se fiz\u00e9ssemos um estudo antropol\u00f3gico na cultura de voc\u00eas, ter\u00edamos qualifica\u00e7\u00f5es e um respaldo maior para conseguir convencer muitas pessoas a se tornarem selvagens, a se tornarem pessoas n\u00e3o t\u00e3o intelectuais, n\u00e3o t\u00e3o importantes. Voc\u00eas passariam a correr o risco di\u00e1rio de ser assassinados, de ter suas casas e suas fam\u00edlias queimadas, seus filhotes queimados. Mas, de um modo geral, voc\u00eas seriam melhores.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fiquem assustados: tenho amigos juru\u00e1s muito queridos e contamos com muitos parceiros juru\u00e1s que lutam conosco. Muitos j\u00e1 morreram e outros ainda v\u00e3o morrer. Tornar-se selvagem n\u00e3o \u00e9 algo que pode acontecer r\u00e1pido, de um dia para outro, mas algo que implicaria momentos de muita dedica\u00e7\u00e3o e de muito trabalho por parte de voc\u00eas, n\u00e3o ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de v\u00e1rios estudos e evid\u00eancias produzidos pelo mundo civilizado, as pessoas n\u00e3o param de fazer coisas erradas. Facilmente conseguimos perceber muitas coisas ruins e entender que n\u00e3o estamos nada bem. Eu sei um pouco sobre S\u00e3o Paulo por meio dos estudos dos pr\u00f3prios Juru\u00e1 e de alguns relatos dos mais velhos da aldeia. Sei que aqui existiam bra\u00e7os de \u00e1gua. Mas o Juru\u00e1 veio e colocou cimento em cima deles. Canalizou os rios lindos que poderiam estar a\u00ed, hoje, para os Juru\u00e1 beberem, tomarem banho, nadarem. Mas os Juru\u00e1 querem cimentar tudo, cobrir tudo com cimento, e agora n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua. A \u00e1gua foi destru\u00edda. E tenho a impress\u00e3o de que ainda vamos enfrentar situa\u00e7\u00f5es piores daqui em adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito revoltante quando a sociedade juru\u00e1 fica perplexa e indignada ao ouvir falar que o povo ind\u00edgena no Brasil comete infantic\u00eddio; ou que os caciques no Brasil t\u00eam duas ou tr\u00eas mulheres, ou outras coisas do tipo. Mas o povo dos Juru\u00e1, por sua vez, faz coisas absolutamente incompreens\u00edveis e maldosas contra seres que n\u00e3o podem se defender, como, por exemplo, o contrabando do marfim, que vem de um bicho t\u00e3o lindo, t\u00e3o gigante, que \u00e9 o elefante. O elefante, \u00e0s vezes, \u00e9 deixado no ch\u00e3o, agonizando, sangrando, porque teve uma parte de seu corpo tirada para esse mundo maluco do consumo, do ac\u00famulo de riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que, se eu fizesse antropologia, eu conseguiria explicar para o meu povo por que o Juru\u00e1 faz isso? Mas, enfim, n\u00e3o podemos perder a esperan\u00e7a. Temos que lutar \u2013 estamos lutando h\u00e1 500 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu tinha seis ou sete anos era muito dif\u00edcil chegar \u00e0 minha aldeia. Nasci h\u00e1 quase 40 anos em uma aldeia de 26 hectares, e l\u00e1 vivi toda a minha inf\u00e2ncia, comendo milho de Juru\u00e1, esse milho amarelo que j\u00e1 continha veneno, porque n\u00e3o havia mais milho guarani. Aprendemos a comer a comida do Juru\u00e1 na mesma \u00e9poca em que chegou \u00e0 aldeia a energia el\u00e9trica, entre outras coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os Juru\u00e1 chegaram \u00e0 aldeia, rapidamente depararam com a falta de arquitetura considerada conveniente, correta e confort\u00e1vel, porque na aldeia n\u00e3o existiam casas de alvenaria nem todas as outras constru\u00e7\u00f5es da cidade \u2013 nem autom\u00f3veis, nem m\u00e1quinas, nem escadas rolantes. As pessoas simplesmente t\u00eam uma casinha de pau-a-pique e cozinham no ch\u00e3o com lenha, todos cobertos de terra, com as crian\u00e7as descal\u00e7as. Assim, imediatamente, fomos considerados um povo miser\u00e1vel, um povo que precisa de muita ajuda, um povo de coitadinhos. \u201cEles s\u00e3o muito sofridos, s\u00e3o muito sujos!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E come\u00e7aram a levar alimentos para a aldeia. Naturalmente, as pessoas t\u00eam curiosidade, come\u00e7am a experimentar as comidas do Juru\u00e1 e se encantam com a praticidade. Mesmo sendo Guarani, o fasc\u00ednio ocorria com a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em v\u00e1rios aspectos. Desde quando come\u00e7amos a consumir esses produtos, ficamos por mais de 70 anos na aldeia guarani, na capital de S\u00e3o Paulo, sem comer ou plantar mais nossos alimentos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9ramos mais de 170 fam\u00edlias que tinham ocupado todo o espa\u00e7o, e n\u00e3o havia lugar para plantar nossas comidas tradicionais. Com o passar do tempo, com esse n\u00famero todo de pessoas numa aldeia pequena tendo muito acesso \u00e0 cidade e \u00e0s coisas dos Juru\u00e1, as coisas dos guarani foram desaparecendo. Eu mesma s\u00f3 fui conhecer os milhos guarani aos 30 anos de idade. S\u00e3o milhos coloridos, muito bonitos e gostosos de comer. Mas antes eu n\u00e3o os conhecia.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2008, comecei a fazer projetos de fortalecimento cultural dos Guarani com amigos e parceiros, por meio de editais da Secretaria Municipal de Cultura e da Secretaria de Cultura do Estado de S\u00e3o Paulo. E um desses projetos era sobre a quest\u00e3o da comida guarani. O que \u00e9 a nossa comida de verdade, nossa comida sagrada? Ainda temos essa comida ou n\u00e3o? E, se n\u00e3o temos, o que aconteceu com ela, afinal? Quais foram os motivos de seu desaparecimento? Como ir em busca dela?<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente ao fortalecimento da alimenta\u00e7\u00e3o tradicional, continu\u00e1vamos a luta pela demarca\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Tenond\u00e9 Por\u00e3, e tudo se somou. Fortalec\u00edamos o movimento das mulheres na lideran\u00e7a, fech\u00e1vamos as ruas e tent\u00e1vamos resgatar nossa comida. Porque est\u00e1vamos comendo s\u00f3 comida transg\u00eanica, comida morta, que trazia doen\u00e7as para a comunidade, doen\u00e7as novas que n\u00e3o t\u00ednhamos antes. Antes n\u00e3o havia registros de pessoas com c\u00e2ncer, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>As aldeias come\u00e7aram a surgir, inicialmente, em car\u00e1ter de retomada. Retomamos a aldeia Kalipety, que j\u00e1 era reconhecida como Terra Ind\u00edgena pela Funai, mas n\u00e3o pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, em 2013. Depois do reconhecimento da Funai, lutamos pela portaria declarat\u00f3ria, dada pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Em seguida, vem o trabalho da demarca\u00e7\u00e3o f\u00edsica, que \u00e9 o que ainda n\u00e3o temos. Mas antes mesmo que sa\u00edsse a portaria declarat\u00f3ria, para dar sentido e \u00e2nimo ao esfor\u00e7o de fortalecimento cultural e de luta pela terra, entramos na aldeia Kalipety e come\u00e7amos imediatamente a plantar.<\/p>\n\n\n\n<p>Plantamos, com muita alegria, tudo o que t\u00ednhamos conseguido coletar em outras aldeias e em feiras de troca de sementes. Sa\u00edmos da Terra Ind\u00edgena Tenond\u00e9 Por\u00e3, onde quase n\u00e3o t\u00ednhamos espa\u00e7o para plantar, e, de repente, est\u00e1vamos em uma \u00e1rea com muito espa\u00e7o. Era uma \u00e1rea que havia sido explorada com plantio de eucalipto pelos posseiros que moravam ali, e por isso estava muito degradada. Mas come\u00e7amos a tratar a terra e a prepar\u00e1-la com adubo org\u00e2nico, adubo verde. Est\u00e1vamos ansiosos para recuperar a terra e poder comer nossas comidas tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse trabalho foi apoiado pela Funai de Itanha\u00e9m, pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), outro parceiro h\u00e1 mais de 30 anos, e pela Secretaria Municipal de Cultura de S\u00e3o Paulo, que subsidiou um projeto que se chama Programa Aldeias. Fizemos v\u00e1rias viagens para feiras de troca de sementes, encontros, reuni\u00f5es e oficinas \u2013 tudo voltado para a sabedoria do plantio guarani. Em seis anos conseguimos recuperar mais de 50 variedades de batata doce e mais de nove tipos de milho. Plantamos tamb\u00e9m amendoim, banana verde, mandioca e plantas que os Juru\u00e1 chamam de PANCs (plantas aliment\u00edcias n\u00e3o convencionais).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s mandamos esp\u00e9cies de batata doce para muitos lugares \u2013 para outras aldeias guarani e tamb\u00e9m para agricultores n\u00e3o org\u00e2nicos, porque quanto mais plantarmos, menos risco teremos de perder de novo. E n\u00e3o tivemos que desmatar \u00e1reas imensas, botar fogo no mato ou matar os bichos de forma covarde. A passos pequenos conseguimos fazer tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s da ideia de trabalhar cada vez mais a autonomia e a soberania alimentar guarani, h\u00e1 o objetivo de manter este povo forte. Porque a comida transg\u00eanica que vem da cidade n\u00e3o deixa as pessoas fortes de verdade. A comida guarani tradicional alimenta o corpo e alimenta o esp\u00edrito tamb\u00e9m. Isso significa que as pessoas ficam fortes para continuar lutando. Para defender a natureza, o nosso modo de ser guarani, temos que estar fisicamente fortes, espiritualmente fortes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, a \u00e1rvore tem dono, a pedra tem dono, a \u00e1gua tem dono. Al\u00e9m de Nhanderu, que fez tudo isso, h\u00e1 os Ij\u00e1 de cada coisa, que tomam conta desses recursos naturais. Quando voc\u00ea usa indevidamente os recursos, voc\u00ea destr\u00f3i muito. Os donos ficam bravos e v\u00e3o tirar esses recursos de voc\u00ea. Os mais velhos dizem: \u201cA gente protege nossos filhos do perigo. E esses donos tamb\u00e9m s\u00e3o pais e m\u00e3es que v\u00e3o proteger os seus filhos dos seres humanos quando come\u00e7am a maltrat\u00e1-los\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu tinha nove anos, entrei na cultura de voc\u00eas para estudar. No in\u00edcio foi muito sofrido. Fui estudar em uma escola estadual perto da aldeia e n\u00e3o sabia falar nenhuma palavra em portugu\u00eas. Minha m\u00e3e, que j\u00e1 tinha uma hist\u00f3ria diferenciada das outras mulheres guarani por ter crescido sem m\u00e3e, falava um pouco de portugu\u00eas. Meu pai tamb\u00e9m j\u00e1 havia tido contato com o povo Juru\u00e1. Entendiam que, para defender melhor a aldeia, eu tinha que aprender bem a l\u00edngua do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e colocou minha irm\u00e3 e eu na primeira s\u00e9rie. Minha irm\u00e3 desistiu no segundo ano. Eu passei por muitas dificuldades e desisti da escola tr\u00eas vezes, mas tive uma professora que foi muito especial na minha vida. Ela foi at\u00e9 a aldeia atr\u00e1s de mim e me levou de volta para a escola. Ela foi uma pe\u00e7a muito importante no meu contato com o mundo dos Juru\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do t\u00e9rmino da primeira s\u00e9rie, tomei gosto pela educa\u00e7\u00e3o que estava recebendo e que, apesar de ser diferente da aldeia, tinha coisas boas. Mais tarde, entrei no curso de pedagogia, mas s\u00f3 terminei o curso para fortalecer meu discurso na aldeia de que, sim, pod\u00edamos tamb\u00e9m aprender a cultura do Juru\u00e1. A cultura juru\u00e1 tamb\u00e9m tem coisas boas e bonitas. Algumas delas s\u00e3o muito sofisticadas, como o conhecimento da medicina que corta um corpo inteiro, tira o cora\u00e7\u00e3o, remenda e coloca de volta. \u00c9 muito avan\u00e7ado de fato!<\/p>\n\n\n\n<p>Na aldeia, desenvolvo o discurso de que a nossa cultura tamb\u00e9m \u00e9 importante, de que ela n\u00e3o \u00e9 inferior a nenhuma outra cultura, de que ela tamb\u00e9m tem que continuar sendo valorizada. Um dos argumentos que uso para estimular o trabalho de fortalecimento cultural e, principalmente, de defesa da natureza \u00e9 falar que podemos nos encantar com a cultura juru\u00e1, mas h\u00e1 tamb\u00e9m o risco de nos perdermos. Se n\u00e3o respeitarmos as regras que nos foram colocadas desde que nascemos, n\u00e3o vamos ter coisas boas. Temos que lembrar os ensinamentos da generosidade: se a natureza d\u00e1 a \u00e1gua, se a natureza d\u00e1 o rem\u00e9dio, se a natureza d\u00e1 o alimento, ent\u00e3o o m\u00ednimo que podemos fazer, tendo ou n\u00e3o alguma cren\u00e7a, \u00e9 respeit\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o achamos que amanh\u00e3 ou depois o mundo vai acabar. Os mais velhos tamb\u00e9m n\u00e3o acham isso, mas falam que agora as coisas v\u00e3o ficar bem mais complicadas. E esse agora n\u00e3o \u00e9 somente depois da \u00faltima elei\u00e7\u00e3o presidencial e do covid-19. Na verdade, eles est\u00e3o falando isso h\u00e1 algum tempo, porque sabem que tem Juru\u00e1 nas ruas da cidade passando fome, sem casa, que tem crian\u00e7as na rua, que tem idosos nas ruas. Que, em um territ\u00f3rio que produz tanto alimento, h\u00e1 fome.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida na aldeia passou a fazer mais sentido para mim \u00e0 medida que eu observava a vida na cidade. A correria, o fato de que as pessoas n\u00e3o dividiam o que tinham com os outros, o fato de tudo ser muito individual, de os Juru\u00e1 n\u00e3o se conhecerem na rua, se esbarrarem e n\u00e3o darem \u201cboa tarde\u201d nem \u201cbom dia\u201d. Ningu\u00e9m estava nem a\u00ed para ningu\u00e9m, havia pessoas dormindo na rua e ningu\u00e9m ligava para isto.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando eu retornava para a aldeia, era tudo diferente. Todas aquelas coisas que, para mim, batiam como muito fortes e erradas, n\u00e3o existiam na aldeia. Inevitavelmente come\u00e7aram as compara\u00e7\u00f5es: na aldeia, por exemplo, as pessoas mais velhas s\u00e3o muito respeitadas, s\u00e3o sagradas para todo mundo, e na cidade simplesmente n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomei a decis\u00e3o de deixar de ser professora na aldeia, mesmo estando em uma categoria est\u00e1vel na carreira de docente, dentro da qual eu poderia me aposentar tranquilamente. Foi a partir do momento em que deixei a escola que consegui fortalecer os discursos que fazia quando ainda era professora. Quando era professora, eu dividia o meu sal\u00e1rio, ele nunca era s\u00f3 para mim mesma. Mas, ainda assim, eu n\u00e3o deixava de ser funcion\u00e1ria p\u00fablica na minha aldeia. Eu n\u00e3o deixava de ser aquela pessoa que, no futuro, poderia ter suas coisas enquanto a maioria n\u00e3o tinha nada. Mas agora \u00e9 diferente, consigo mostrar que posso viver como minha m\u00e3e e meu pai viviam, como meus av\u00f3s viviam, sem um sal\u00e1rio do Estado. Meus pais e meus av\u00f3s n\u00e3o eram assalariados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos meus anos iniciais como professora, errei muito \u2013 como professora e como Guarani que entrou nessa vida sem entender direito o que era isso. Depois, por muitos anos, fiz muitas coisas boas junto com meus colegas. Sobretudo refletimos muito sobre o que se ensina, para que se ensina, o que buscamos, que tipo de alunos queremos formar. E hoje h\u00e1 professores na aldeia Tenond\u00e9 Por\u00e3 bem conscientes dessas quest\u00f5es, fazendo um excelente trabalho, apesar de ainda termos muito para caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00ed da escola para me dedicar ao trabalho de pol\u00edtica da aldeia, como lideran\u00e7a, e tamb\u00e9m para fortalecer o trabalho da ro\u00e7a, para mostrar para as pessoas que podemos seguir um estudo de Juru\u00e1, aprender bastante coisa, e depois fortalecer e viver na nossa cultura. Eu queria mostrar para o meu povo que podemos aprender a cultura do outro para nos defender melhor, para entender melhor o outro, e que podemos estudar a cultura deste outro sem perder ou deixar de valorizar a nossa.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o que pesou para mim \u00e9 que o sistema de escolariza\u00e7\u00e3o como um todo, no mundo todo, \u00e9 muito falido. Isso \u00e9 especialmente grave no Brasil. \u00c9 absolutamente vergonhoso o sistema da educa\u00e7\u00e3o que se coloca na grade curricular para os educandos. E se eu digo que a educa\u00e7\u00e3o do povo Juru\u00e1 \u00e9 falida, ent\u00e3o imagina a educa\u00e7\u00e3o para o povo Guarani? As escolas, estaduais e municipais, que est\u00e3o dentro das aldeias guarani de todo o Estado de S\u00e3o Paulo entraram nessas aldeias sem prepara\u00e7\u00e3o, sem que fossem pensadas as consequ\u00eancias disto. Como as aldeias n\u00e3o estavam preparadas, naturalmente n\u00e3o havia nenhum plano pol\u00edtico-pedag\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje ainda temos escolas com mais de 20 anos que n\u00e3o t\u00eam um plano pol\u00edtico-pedag\u00f3gico. Isso significa que essas escolas t\u00eam uma parte muito grande do seu funcionamento pedag\u00f3gico focada em estudos de fora \u2013 elas n\u00e3o t\u00eam uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada para os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>E para piorar, as pessoas nas aldeias colocam na cabe\u00e7a que a escola \u00e9 o futuro. Com isso, muitas vezes, crian\u00e7as e jovens deixam de aprender sua cultura tradicional porque est\u00e3o indo para a escola. Se a escola \u00e9 o futuro, se a escola vai garantir um futuro, ent\u00e3o por que aprender e fazer outras coisas? Esse modo de pensar \u00e9 um grande risco. A escola n\u00e3o pode ser pensada assim. Quando o aluno termina o ensino m\u00e9dio, ele n\u00e3o vai ter um emprego garantido na aldeia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisamos aderir a essa ideia insana de que temos que estudar como malucos para arrumar um emprego e trabalhar a vida inteira para, s\u00f3 depois, \u00e0 beira da morte, percebermos que n\u00e3o aproveitamos nada. Temos que saber que podemos aprender outra cultura, mas que depois podemos usar o conhecimento de outras formas, para fortalecer nossa cultura e para mostrar aos nossos jovens que \u00e9 poss\u00edvel sobreviver e viver bem sem ter sal\u00e1rio na aldeia. Saber que podemos ir para a mata, que podemos aprender de novo as coisas da natureza com os mais velhos, e que est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Se temos contato com a cultura dos Juru\u00e1 h\u00e1 quinhentos anos, isto \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de que, de fato, o Juru\u00e1 poderia se tornar selvagem, continuar vivendo e ter um pouco mais de respeito com o planeta Terra. N\u00e3o h\u00e1 palavras para descrever o quanto nosso planeta \u00e9 magn\u00edfico, mas acho que ainda n\u00e3o entenderam isto direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Costumo ir bastante para o mundo dos Juru\u00e1, mas tento trazer o m\u00ednimo poss\u00edvel, para a aldeia, das coisas de l\u00e1 que n\u00e3o s\u00e3o boas. As coisas boas trago tamb\u00e9m, mas elas costumam chegar por si mesmas, por meio da TV e do mundo atual tecnol\u00f3gico, principalmente. O que fa\u00e7o ali, ent\u00e3o, \u00e9 peneirar o que vem para dentro e conversar com as pessoas sobre isto. At\u00e9 onde voc\u00ea aceita isso? At\u00e9 onde voc\u00ea tem que ter isso tamb\u00e9m? Tento diminuir o conflito do que chega com a din\u00e2mica tradicional guarani de ter s\u00f3 o suficiente para uma vida tranquila e saud\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Como tamb\u00e9m vivo na cidade e me alimento com a comida de voc\u00eas, em muitos momentos me coloco na mesma situa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas. Acho que muitos dos Juru\u00e1 querem lutar, e que h\u00e1 muitos que choram tamb\u00e9m, que ficam revoltados. S\u00f3 n\u00e3o sabemos como nos unir, como juntar for\u00e7as, como juntar os estudos e a reflex\u00e3o e realmente dar as m\u00e3os para lutar e proteger essa natureza imensa que n\u00e3o \u00e9 importante s\u00f3 para o Brasil, mas para o planeta todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez um dia o Juru\u00e1 perceba que \u00e9 importante apoiar a quest\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o porque somos bonitinhos, coloridinhos ou porque usamos peninhas e temos criancinhas pintadinhas, mas por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia de todas e todos. Podem acusar os ind\u00edgenas de tudo quanto \u00e9 tipo de coisa, mas os povos ind\u00edgenas s\u00e3o as \u00fanicas pessoas aqui no Brasil que respeitam a natureza de fato. Basta digitar no Google \u201cterrit\u00f3rios ind\u00edgenas no Brasil\u201d para visualizar, rapidamente, os territ\u00f3rios ind\u00edgenas, sempre verdes, no meio do mato, sem \u00e1reas descampadas, sem \u00e1reas queimadas, apesar do que diz o governo atual, que os ind\u00edgenas cansaram de ficar olhando para as estrelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de chamar mais pessoas para serem selvagens. O nosso planeta, do jeito que est\u00e1, est\u00e1 sofrendo muito, est\u00e1 chorando, est\u00e1 gritando, e, por estarmos integrados com ele, vamos ter que come\u00e7ar a viver, a ver, a saber e a ter que enfrentar muitas coisas negativas tamb\u00e9m. Fumo cachimbo, fa\u00e7o fogo no ch\u00e3o, cozinho, durmo e acordo com a cantoria dos passarinhos, e tudo isto \u00e9 t\u00e3o simples, mas \u00e9 t\u00e3o bonito, t\u00e3o lindo, t\u00e3o importante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Autora<\/strong>: <strong><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jer%C3%A1_Guarani\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jer\u00e1 Guarani<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como citar<\/strong>: GUARANI, Jer\u00e1. <strong>Tornar-se selvagem<\/strong>. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, n. 14, p. 12-19, jul. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: https:\/\/piseagrama.org\/artigos\/tornar-se-selvagem\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Tornar-se selvagem&#8221; \u00e9 um texto da educadora e l\u00edder ind\u00edgena Jer\u00e1 Guarani, do povo guarani mbya, que relata sua dif\u00edcil jornada entre dois mundos. De um lado, o individualismo radical das grandes cidades, do outro, a vida comunit\u00e1ria das aldeias ind\u00edgenas. A autora faz diversas cr\u00edticas ao &#8220;mundo civilizado&#8221;, discorrendo sobre o brutal contraste social, a alimenta\u00e7\u00e3o envenenada e o desrespeito \u00e0 natureza t\u00e3o comuns nas sociedades que se dizem mais esclarecidas que os &#8220;povos selvagens&#8221;. Jer\u00e1 Guarani n\u00e3o recorre ao lugar-comum de afirmar que toda produ\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim. Faz elogios \u00e0 medicina e ensina em sua aldeia que o mundo civilizado tamb\u00e9m t\u00eam coisas boas. Contudo, afirma que se os povos ind\u00edgenas fizessem estudos antropol\u00f3gicos sobre o mundo civilizado, compartilhando relat\u00f3rios e an\u00e1lises, perceber\u00edamos o estilo de vida absurdo que vivemos e as coisas inaceit\u00e1veis que aceitamos. Afinal, tudo indica que n\u00e3o compreendemos nossa real condi\u00e7\u00e3o. Dessa forma, seria mais f\u00e1cil convencer os povos civilizados a se tornarem selvagens do que o contr\u00e1rio, pois todas as coisas ruins que ocorrem no planeta v\u00eam de pessoas civilizadas. Ou, nas palavras da autora: &#8220;Apesar de v\u00e1rios estudos produzidos pelo mundo civilizado, as pessoas n\u00e3o param de fazer coisas erradas&#8221;. 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