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Epifanias & Catarses

Epifanias e catarses de Alfredo Carneiro, editor do netmundi.org. Por gentileza, se for utilizar alguns dos textos abaixo, cite a fonte e ajude a divulgar o netmundi.org.

Epifanias e catarses de Alfredo Carneiro, editor do netmundi.org. Por gentileza, se for utilizar alguns dos textos abaixo, cite a fonte e ajude a divulgar o netmundi.org.

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Uma das piores dores que um adulto pode sentir é, pela primeira vez, olhar para si mesmo. Dependendo da altura da vida, muitos erros e comportamentos são vistos com um arrependimento monstruoso, acompanhados de uma culpa que pesa uma tonelada. Por que antes não tinha percebido? Porque não se via, mas simplesmente acompanhava os sentimentos, a raiva, a cultura, as opiniões alheias. Analisar-se é antes de tudo conseguir se ver de certa distância. E muitas vezes aquilo que vemos nos desagrada. Antes tarde do que nunca, mas, fica o alerta de que pode ser de fato tarde demais. Os mais jovens devem aprender o quanto antes a se observar, se avaliar, ceder de opiniões radicais. Isso é uma forma de sabedoria: conhece-te a ti mesmo antes que não existam mais coisas boas para se conhecer.

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Quando eu era ainda adolescente, reclamei arrogantemente para uma senhora muito simples que eu odiava o sol e o calor. Ela muito hesitante me disse que esse era um tempo bom para as lavadeiras e os pedreiros, e também para as plantações. Eu sabia que ela estava falando dos familiares dela. Foi quando percebi que não estava só no mundo com minhas pequenas demandas, e que aqueles que amam dão sempre as melhores respostas.

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A moral, assim acredito, é alguma coisa inscrita em nós. Refuto de todas as formas o relativismo cultural, principalmente no que diz respeito à violência. TODOS os seres humanos sabem o que é bom e, por consequência, todos sabem o que é certo. Qualquer um que tenha experimentado a violência não tem dúvidas disso. Mas para defender o que é certo é preciso coragem pois, geralmente, as pessoas são covardes. E é isso que defendo: que o relativismo no que diz respeito à violência é uma ideia covarde que nasceu de homens covardes. A verdade não pode ser algo relativo, assim como o mal também não. Daí o ditado espartano “todos os gregos sabem o que é certo, mas só os espartanos fazem o que é certo”.

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Quando alguém se pergunta se teve uma epifania, um súbito entendimento sobre a essência de algo, então provavelmente não teve. Pois a epifania é também certeza. E a Epifania do Rosto é mais específica ainda, pois é a devastadora percepção da beleza ou tragédia do outro. Coisa muito rara de acontecer. Ninguém se pergunta “se teve” uma epifania, pois é sentimento ora insuportável e ora arrebatador. Não existem dúvidas nas epifanias. Ninguém se pergunta se teve epifania. Ninguém jamais se pergunta. As epifanias são certezas.

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Dei o nome de “botões emocionais” para algo puramente humano e natural, mas que tem me parecido, cada vez mais, nocivo e destrutivo. As pessoas estão a tal ponto sensíveis que acabam se tornando manipuláveis, inconstantes e perigosas. Saem de casa com todos esses botões coloridos e bem visíveis. Um esbarrão, uma palavra num tom errado, qualquer coisa pode apertar um desses botões e seja o que Deus quiser. Irritação, raiva, ódio, ressentimento. É só apertar. Chego a pensar que muitos conseguem voltar para casa por pura sorte.

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Minha antipatia pela arrogância nada tem a ver com uma suposta superioridade. Pelo menos para mim, é uma questão estética, pois é algo feio de ser ver. Pouco importa a riqueza, beleza, roupas, carros e inteligência. Quem se coloca como superior acaba refletindo isso nos seus gestos. E quando isso acontece eu acho feio. É como olhar uma escultura mal feita onde o escultor errou na proporção, no material, na cor….em tudo. Pouco importa o que tal pessoa diz, o que faz, o que “é”. Para mim é apenas feio.

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Quem me dera eu tivesse o poder de abençoar. Mas ninguém no mundo tem esse poder! Se eu tivesse esse poder, abençoaria até o dia em que as pessoas estivessem fartas e me falassem: “estou cansado de tanta felicidade, não preciso mais do que já tenho”. Portanto, se alguém me diz: “Deus te abençoe” ou “vá com Deus”, não acredito que de fato estarei magicamente abençoado. Porém, existe algo de incrível naquele que abençoa: ele parece gostar de mim. O valor da benção, acredito, reside no fato daquela pessoa desejar meu bem. Eis o milagre! Diante de tanto egoísmo, aquele que abençoa é uma singularidade, pois quer dar aquilo que lhe sobra e que tem grande valor. A singularidade, pelo menos para a ciência, é aquilo que não é provável, contudo, mesmo assim existe. Pois bem, existem aqueles que sinceramente abençoam! Pouco importa se Deus existe, pois existe aquela pessoa. Mas se existe alguém assim, não existiria algo que seja “Deus”? Não acho que Deus se importe se as pessoas acreditam nele, caso contrario, não seria Deus. Mas aquelas pessoas me desejaram o bem. “Vá com Deus”, “Deus te abençoe”. Nem me conheciam, o velho transeunte divino, a senhora farta de felicidade. Isso me fez bem.

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A boa razão, bem aplicada, deve ser imparcial e sem emoções. Mas os sentimentos que nos guiam de fato não seguem razão alguma. Somos mais sentimentos que razão. O desafio é equilibrar os dois, nem tanto racional demais, nem tanto sentimental demais. Mas quem manda sempre foi a emoção. Sei lá, que tal 60% sentimento e 40% razão? Sem razão não vamos à lugar algum, e sem sentimentos também não. Mas são forças antagônicas.Viver é coisa de profissional mesmo.

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O antissemitismo é algo que, por mais que eu tente (e eu tento) nunca consegui compreender. Todas as explicações que encontro para esse sentimento são toscamente tendenciosas, “históricas”, ingênuas, odiosas e infantis. A minha explicação provisória vem de Sartre, que acreditava que os moralmente incapazes; que não conseguem tomar as rédeas de suas vidas, precisam necessariamente achar um culpado. Quando eu falo tomar as rédeas não falo de sucesso profissional nem financeiro (isso é uma superficialidade moderna para o sucesso), falo de aprender a estar no mundo com responsabilidade pelos seus, esse sim, é o maior dos êxitos. E isso os judeus aprenderam a fazer. Aí está um dos motivos de tanto ódio: a falha moral versus a capacidade organizacional, educacional e social dos judeus. No livro O Estrangeiro, de Albert Camus, o condenado compreendeu que todo o ódio que a população tinha dele era, na verdade, o ódio que a população tinha do mundo; de suas vidas. É desta forma que entendo provisoriamente o antissemitismo.

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Devemos respeitar as crenças religiosas dos outros, claro. Mas é muito chato quando meu respeito é mal interpretado e o outro se coloca em uma posição de superioridade e começa a dar aulas de sabedoria e espiritualidade. Acho isso meio constrangedor. E ainda sou tímido. Na vida real não sou tão extrovertido quanto na internet (Freud explica a cibercultura). Então fico com vergonha de avisar que a pessoa está sendo chata. Se eu aceito a outra crença, é apenas por respeito à escolha singular e sagrada de cada um, desde que não me agridam fisicamente. O efeito colateral que o proselitismo surte em mim é contrário ao desejado pelo pregador.

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Da janela de minha casa vejo uma ruazinha de pouco movimento. Toda vez que vou para a janela, vejo passar alguém que me ensina alguma coisa. Seja um casal de namorados, um velho, um solitário qualquer. Isso só acontece porque vou para a janela. Dentro de minha casa, fechado em minhas ideias e conceitos, eu não aprendo nada. Por isso Lévinas afirma que o outro é sempre um mestre. Dentro de minha morada, as verdades ficam velhas. A novidade está lá fora.

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Tenho observado muitos jovens ateus brasileiros atacando religiões e usando Sartre. Esse é mais um problema de nosso país: não saber/querer ler. O texto “O existencialismo é um humanismo” é gratuito na net, não é longo nem difícil. É uma palestra de Sartre. Mas as pessoas usam Sartre sem se dar ao trabalho de ler. Em Sartre a existência precede a essência, ou seja, não existe uma essência anterior ao nosso nascimento. Nós construímos nossa essência a partir de nossas ações e somos totalmente (totalmente) responsáveis por tudo que fazemos. Sem Deus (ou o diabo) não existem desculpas para nossas ações. Então, o objetivo do ateísmo sartriano é suprimir todas as desculpas. Sartre não está preocupado se Deus existe ou não, mas que ele não deve ser considerado quando o assunto é ação e responsabilidade. Para isso, Sartre usa o exemplo de Abraão. Se Abraão tivesse matado Isaac, como ordenou Deus, quem seria o responsável? Abraão poderia dizer “Deus ordenou”? Não! Para Sartre o culpado pela morte de Isaac seria Abraão, não importando os motivos. O objetivo de Sartre não é simplesmente negar Deus, como dizem, mas principalmente incitar as pessoas a fazer o que geralmente elas não fazem: assumir absolutamente a responsabilidade por suas ações. E Sartre vai mais além: ser livre não é fazer o que quiser, mas ser responsável por tudo o que faz. 

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Não faz sentido que a esquerda ou a direita utilizem Nietzsche para sustentar coisa alguma. Por mais que a morte de Deus seja algo utilizado pelo ateísmo para lutar contra o “poder alienante e opressor da religião”, vale lembrar que na política Nietzsche é simplório: o ferrado tem mais que se ferrar pra deixar de ser ingênuo. Nietzsche tinha ojeriza a qualquer “voz do oprimido”. Além do mais, antes que se utilize esse filósofo para sustentar a meritocracia usando o conceito do forte, vale também lembrar que para ele a tal burguesia não passava de um bando de gente cafona e sem brilho que só pensa em dinheiro e olhe lá. Pedir para pensar mais é pedir demais. E não adianta usar roupas caras. Melhor para humanidade que nunca tivessem surgido. Quem tentar utilizar Nietzsche como ferramenta política vai se queimar. E ele mesmo deixou o recado: “Tudo o que toco fica em chamas. Sou fogo, com certeza”.  Nietzsche é um filósofo para os solitários, não para os preocupados com dinheiro, religião, igualdade e democracia. Para ele a modernidade nivelou todos por baixo, foi uma tragédia. Não estou defendendo o bigodudo, sou democrático, mas era assim que ele pensava. Só sei que foi assim.

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Quem tem religião e religiosidade não tem o que temer. Quem tem apenas religiosidade também não. Mas quem tem apenas religião, esse tem medo de tudo.

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Falar mal dos outros por falar, fofocar, fazer intrigas…essas coisas são totalmente aceitáveis quando somos jovens, e até mais ou menos aceitáveis em pessoas sem brilho que tem nessa prática seu passatempo. Mas depois de certa idade isso fica estranho. Que falemos dos outros quando julgamos necessário, quando se tem alguma boa utilidade, é até necessário. Mas falar por falar, para satisfazer certa necessidade interior, é um indicativo de degradação.

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Dentre as previsões futuristas que faço para o Brasil, compartilho da visão do diretor sul-africano Neill Blomkam, aquele do Elysium e Distrito 9 (considerando no Distrito 9 a forte crítica social, não os alienígenas, claro). Esse futuro é mesclado de enorme desigualdade social, pobreza extrema, altíssima tecnologia e concentração de riqueza insana. Nessa ideia de futuro, todas essas coisas convivem juntas e interagem como se a realidade fossem assim mesmo, e parece que, da forma como fazemos capitalismo, caminhamos mesmo para isso. Pois bem, dia desses percebi esse futuro mais próximo. Próximo até demais. Estava em uma velha banca de revistas, entre vendedores de castanhas, camelôs e mendigos, quando uma televisão de tubo dentro da banca começou a noticiar sobre a regulamentação dos drones no Brasil. Em várias ocasiões observei esses drones nas praças e até passando pelas ruas tal como no desenho dos Jetsons. Minha conclusão é que esse futuro contrastante chegou, e ele não é bem o futuro que eu gostaria que fosse.

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Já dizia a musiquinha da Xuxa: “o que importa nessa vida é ser feliz”. O problema disso é que trata-se de uma felicidade que é a base nossa sociedade. Claro, a Xuxa queria apenas audiência e vender tralhas de plástico. Por isso mesmo era um conselho mentiroso, ainda que hoje nossa sociedade brasileira tenha na felicidade mentirosa seu principal valor. É preciso ganhar e gastar muito para viver essa felicidade. O filósofo Immanuel Kant nos disse muito duramente: “Não devemos tentar ser felizes, mas antes devemos ser dignos de felicidade”. Contra uma sociedade de homens que buscam a felicidade, deveríamos construir uma sociedade de homens dignos de felicidade. E não necessariamente o homem digno será feliz, eis a dureza desse conselho. A vantagem disso é que o homem digno pode viver uma felicidade real, e não uma felicidade de plástico. Somente assim, como homens dignos, poderíamos de fato construir uma sociedade séria. Enquanto não existir uma revolução nessa “ética da felicidade”, toda escolha política será inútil.

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Ao contrário do que possa parecer, aceitar nossas limitações torna a vida um pouco melhor. Não falo de repassar tarefas, ser mais humilde ou aprender a confiar nos outros, isso é apenas consequência. Falo da vida mental mesmo.

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Gente que leva tudo a sério já é um pé no saco. E gente assim, na internet, acredita que pode espalhar a seriedade e sabedoria sobre a Terra. Só que a Terra é um pouco maior que o mundo sacrossanto de cada um, mas um mundinho sacralizado tem a mania de achar que é o mundo todo.

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Na tentativa de agradar as mulheres (seja amiga, esposa, namorada ou mãe) o homem quase sempre falha miseravelmente. Isso acontece porque o homem é um bicho muito simples e a mulher um animal altamente complexo. Para agradar completamente a mulher, o homem deve tornar-se um animal altamente adestrado e domesticado. O problema é que quando o homem vira um banana as mulheres também não gostam. Então foda-se né??

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Existe a teimosia estúpida e a teimosia genial. O que separa uma da outra, como diria Sócrates, “só o deus sabe”. É preciso pagar para ver. E pagar para ver, até mesmo no estúpido, tem lá seu mérito.

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Os gênios nos dão exemplos de várias formas, seja com sua sabedoria ou com sua estupidez. Um gênio consegue ser estúpido quando se torna arrogante, ou seja, é uma sumidade em um campo e se julga capaz conhecer bem aquilo que ignora. Einstein e Dawkins quando falaram de religião pareceram crianças chateadas. Temos também o exemplo de Steve Jobs que, mesmo sendo um notório gênio, tentou resolver seus problemas de saúde por conta própria com dieta vegan. Quando se é prepotente, a pessoa se recusa a aceitar que seus paradigmas não servem pra tudo (que, aliás, é também um mal dos religiosos e ateus). Mas no caso de Jobs, temos também um exemplo da cegueira que vai além dos fatos. Diante de seu exemplo de auto-medicação desastrada, a comunidade vegan americana ainda afirma que “ele viveu mais 30 anos após o diagnóstico do câncer graças à dieta vegana”, ignorando o fato de que ele estaria vivo até hoje se tivesse se tratado como deveria. Quem se agarra a um paradigma é como um cachorro com seu osso.

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Richard Dawkins é considerado uma sumidade no seu campo de atuação (biologia e evolucionismo), mas, quando escreve sobre religião, parece um adolescente problemático. Até mesmo Einstein, outra sumidade da ciência, criticou a Torah e a Bíblia dizendo que “eram contos infantis” (basta procurar esta famosa carta de Einstein no google). Aristóteles já havia dito: “um homem instruído a respeito de um assunto julga bem apenas aquele assunto”. Dawkins e Einstein são a prova de que Aristóteles estava certo. Esse é um dos erros mais comuns que observo em pessoas muito inteligentes: acham que sabendo uma coisa, sabem todas as coisas. O religioso comete o mesmo erro. Conhecendo bem os textos sagrados de sua religião, acredita que pode julgar a ciência “e tudo o mais”. É preciso ser um pouco burro para aceitar algo que os inteligentes parecem não ver: que o nosso mundo não é o mundo todo. Quando é assim, a burrice é uma forma de inteligência, e a inteligência uma forma de burrice.separador

Compartilho da dúvida singela e quase infantil (por isso mesmo interessante) de Ariano Suassuna quanto a Darwin. Entre o homem e o macaco existe um abismo. Entre um orangotango e a 9ª sinfonia existe algo insuperável. Sermos assim, misteriosos, é muito belo. Ainda temos, então, essa beleza. Amém.

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A coisas mais difíceis de serem percebidas são muito óbvias, e perceber o óbvio é algo para pessoas muito especiais. O (grande) resto das pessoas se perde em falsas complexidades, ficam buscando pelo em ovo no glorioso e divino labirinto da irrelevância.

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Para ser um filósofo, basta amar. Quem ama dá sentido à sua vida e à vida de outros. E a filosofia é só isso mesmo: uma busca de sentido. Aquele intelectual  obscuro que só dissemina ódio e crítica não será nunca um filósofo. Pode ser um intelectual, mas de que adianta a inteligência se ela não dá sentido à vida? Quando é assim, a inteligência é uma forma de burrice. Mil vezes os burros que amam, pois é deles toda a eternidade. São eles que impedem as injustiças e dão os grande exemplos. O resto é comentário de intelectual.separadorPode parecer lugar-comum, mas considero uma verdade: que aquilo que não foi dito diz mais do que o dito.separador

Dia desses um garoto com uniforme de escola e mochila passou por mim, me olhou, sorriu, e disse: “Boa tarde”. Fiquei surpreso e lhe desejei também uma ótima tarde. Pois é esse nosso mundo de hoje, onde as gentilezas gratuitas nos assustam. E a minha tarde foi boa, pois aquele garoto assim desejou. Espero que a dele também tenha sido.

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Os esquemas de dominação cultural e ideológicos são, na maioria das vezes, muito bem elaborados. Mas no Brasil até isso é tosco, qualquer coisa cola, qualquer discurso serve. Religião, política e cultura são algumas das esferas dessa dominação. Mas os representantes dessas esferas podem ser burros, toscos, desescolarizados ou até analfabetos. Podem falar o que quiserem e qualquer coisa serve. A razão simplesmente tomou um avião e foi embora daqui.separador

Uma querida professora de filosofia, cristã ortodoxa e muito inteligente, disse certa vez que o “cristão não deve se conformar com este mundo”. Peno que isto dever ser uma coisa de todos, não apenas uma ideia cristã. Não devemos nos conformar com este mundo. Ssei que existe também uma interpretação metafísica nisso, mas penso também que não devemos nos conformar com esta realidade. Devemos tentar melhorá-la, da melhor forma possível e dentro de nossas possibilidades.Talvez seja essa a mensagem final, essencialmente mundana e paradoxalmente espiritual.

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O barulho deveria ser considerado crime hediondo. Mas aqueles que não refletem não percebem o mal que o barulho faz, pois não se importam em perder pensamentos.

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O jovem brasileiro adestra-se para passar no vestibular, forma-se em um curso qualquer que tem o objetivo último de ganhar dinheiro, seja qual for, engenharia, informática, arquitetura, direito e até medicina, além de muitos outros novos cursos. Não recebe nenhuma educação filosófica, apenas um verniz religioso, e ainda pensam a filosofia nos termos de “não serve para nada”, pois assim foram adestrados. Não concebem nada que não seja investimento (até mesmo no amor). Depois, contudo, querem pensar mais profundamente sua condição humana e politica, mas não há mais nada dentro deles além de boletos. Melhor abraçar uma religião qualquer (qualquer uma serve, uma vez que será de modo superficial) e seguir rumo ao expediente.

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Quem vê cara não vê coração. Será? As vezes o coração está na cara. E talvez por isso, de cara, eu não vá com a cara de alguns.

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Hoje de madrugada um espelho caiu da parede do meu quarto e se partiu todo. Foi uma coisa meio poltergeist. Meu incômodo maior foi ter acordado, pois dormir é possivelmente a coisa que mais gosto de fazer. Espíritos, caso existam, perdem tempo comigo. Não ligo para eles. Não porque eu despreze espíritos, mas porque já tenho meus próprios fantasmas.

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O bom senso parece ser a coisa que mais falta no mundo. O que se observa, normalmente, são paixões desenfreadas, gastos desnecessários, brigas sem sentido, “pitis”, descontroles, “personalidades fortes”, idealismos malucos, fanatismo religioso e outras coisas igualmente bizarras que, no final das contas, promovem o espetáculo da desgraça alheia. Raras vezes encontrei alguém que saiba viver bem, que pesa as coisas e pensa suas decisões. No geral, parece que as pessoas gostam de se sofrer.

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Amamos muito nosso estilo de vida. E por mais R$ 0,50 sua batata é grande, espere aqui ao lado senhor, e coma sem pensar.

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É claro que de forma alguma os problemas da vida bastam. Precisamos piorar as coisas, tornar pior o que já é ruim. Vivemos boa parte da vida resolvendo problemas desnecessários, pois amamos muito tudo isso, só pode..

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Quando eu crescer, gostaria de ser como todos aqueles que um dia chamei de loucos.

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Quem está verdadeiramente alegre e feliz transmite certa paz, e alguma calma, pois essa alegria e felicidade são vividas interiormente. Naturalmente, somos atraídos por pessoas assim, como quem se pergunta: “como isso e possível?”. Por mais que existam pessoas transbordando de felicidade na vida moderna e midiática, percebemos claramente que é algo artificial. Mas a pessoa misteriosa, aquela que está em paz de fato, pela sua absoluta naturalidade nos assombra e nos encanta. Parece que, estando parada, tudo se movimenta ao seu redor e por sua causa.

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Ou vivemos em uma época de inversão absoluta de valores ou a bondade e a sensatez nunca foram a regra. Certo é ser errado, violento, cruel e indiferente. Tomo como exemplo aquela antiga história de um motorista de trator que, sendo tomado de compaixão por uma mãe e seus filhos, recusou-se a derrubar a casa que aquela família estava. Ele foi preso por ordem do oficial de justiça, pois o certo seria derrubar a casa na frente daquela família e com todas as coisas dentro. Aquele motorista é o típico subversivo que, quando age, geralmente através da bondade, nos deixa chocados e envergonhados. Sem pessoas assim, nunca teríamos uma noção de certo e errado, que de forma alguma são noções relativas, como acreditam aqueles que nunca amaram ou que nunca sofreram, esses teóricos da idiotice.

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A pessoa generosa raras vezes sente-se obrigada, pois percebe que existe transcendência na doação. O egoísta dá por obrigação e acredita que está perdendo, sendo abusado, faz as coisas de forma aborrecida. Quem doa espontaneamente compartilha a boa vontade que é infinita. Quem doa por obrigação se irrita, pois dá um pedaço de sua carne, de sua feiura.

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Religiosos fanáticos e ateus militantes metidos a inteligentes são uma expressão da filosofia para amadores. Filosoficamente, eles não têm nada a oferecer. Eles interessam mais ao psicólogo do que ao filósofo. “Quando Pedro fala de Paulo, sei mais sobre Pedro do que sobre Paulo”. Mas, as vezes, o filósofo não quer saber nem de Paulo e nem de Pedro. Por que esses grupos não são interessantes ao filósofo? Porque o filósofo vai além de si mesmo.

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O questionamento existencial é como uma praga. Você limpa sua casa, passa um veneno metafísico, aplica religião nos cantos, reveste as paredes com ciência, mas, a praga volta.

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Filosofia é igual barata. Você pisa, esmaga, dá chinelada mas ela continua se mexendo.

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Enfrentar a solidão é algo que todos deveríamos estar preparados. O problema pode ser resolvido com entretenimento contínuo e muita gente alegre e divertida. Com muita preocupação, contas a pagar e muitos problemas. As vezes penso que todas as coisas que fazemos são apenas para fugir dessa coisa chamada solidão, anjo para uns, demônio para outros. Como disse Aristóteles, o homem solitário ou é fera ou é Deus.

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Acabei de ler uma notícia sobre o transporte público em Helsinki. O texto afirma que em 10 anos não existirão motivos para o cidadão daquela cidade comprar carros. Ora, que pessoal atrasado. Aqui no Brasil não teremos mais motivos para comprar carros em 5 anos. Estamos adiantados. Na verdade, o brasileiro não deveria comprar carro desde hoje, afinal, o preço do carro aqui é uma ofensa ao brasileiro, que só não se ofende porque ou é burro ou é rico (ou os dois). Então, dinheiro não é problema. Pode botar preço alto que compramos. Preço não será o motivo. Trânsito também não, pois brasileiro é resistente, não se importa de ficar horas no transito para chegar em qualquer lugar, mesmo que na esquina. AMAMOS MUITO TUDO ISSO. Carro é a identidade de muitos nativos daqui da Terra de Santa Cruz. É um espelinho que vale a pena, ademais, em muitos casos o carro é mais seguro e as ruas estão violentas, reconheço. Mas o que vai fazer o brasileiro parar de comprar carro? É que não existirão mais vagas! Então, terão de estacionar muito longe, tipo, 5 minutos do local desejado. Inadmissível para o brasileiro motorizado. Deixaremos de comprar carros, mas não por motivos sensatos.

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Agora sim, estamos em 2015. Atravessamos de um ano para o outro e, apesar de parecer algo banal e simples, ver outro ano chegar é algo incrível. Para aqueles que não se surpreendem mais, é apenas mais um ano, para outros, é como chegar a uma nova galáxia, pois, na verdade, é isso mesmo. Meus desejos sinceros são sempre coletivos. São eles: que aqueles que ajudam sejam ajudados, que aqueles que amam sejam amados, que aqueles que toleram sejam tolerados, que aqueles que ensinam sejam ensinados, que aqueles que não entendem piadas passem a entendê-las, para os muito sérios que riam de sua seriedade, para os alegres que sejam alegrados, para aqueles que se doam que recebam (apesar de ser a doação já um recebimento), que os chatos sejam mais flexíveis (pois é da rigidez que nasce a chatice), que os corajosos encontrem sua oportunidade, e, por fim, que aqueles que abençoam sejam abençoados. Amém.

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Não dá para ser feliz agradando a todos. Ou melhor, talvez dê para fazer todos felizes, mas, o preço seria nossa própria felicidade. Mas, pensando bem, se estamos cercados de pessoas que nos cobram certos comportamentos, então essas pessoas não querem nossa felicidade, mas apenas desejam que sejamos iguais a elas. Mas tais pessoas não merecem respeito, pois só amam a elas mesmas. Parece que duvidam do que acreditam e precisam que os outros confirmem a todo momento suas crenças. Então, não pode-se viver sendo psicólogo da humanidade, é preciso escolher as pessoas que vãos nos odiar.

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Meus gatos sempre me ensinam algo sobre homens e mulheres. Cosmo, o gato, é estabanado, deita de qualquer forma, estica as pernas, é preguiçoso e quando ouve o barulho do saco de ração vem correndo. Seu olhar denuncia medo e prazer. Vanda, a gata, senta-se recolhida, fica parecendo um almofada negra de olhos atentos. Não denuncia nada, é difícil de ler. Ela te olha sem transmitir o que está sentindo, na verdade parece que ela que está lendo você. O Cosmo, como a maioria dos homens, é aquilo que você vê. A Vanda, como a maioria das mulheres, é puro mistério. Talvez esse seja apenas um ponto de vista masculino.

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O Cosmo é um gato gordo e meio burro, vive no apartamento como se vivesse em uma floresta perigosa. Sua vida é cheia de emoções, apesar de nada nunca mudar (nem no apartamento e nem na vida dele). Ele tem um ar investigativo, um olhar preocupado e leva tudo a sério (como se tivesse que levar algo sério). Se assusta com movimentos bruscos (os mesmos de sempre) e até hoje corre atrás do laser. Ele sempre inventa alguma coisa idiota para tornar sua vida emocionante. Vanda, a gata, passa o dia em um canto do sofá, olhando entediada a vida “estressante e emocionante” de seu parceiro. De certa forma, o Cosmo e a Vanda me ensinam um pouco sobre os casais humanos.

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Quem aperta o botão do “foda-se” geralmente são pessoas que sofreram porque se importam com os outros. Mas aqueles que apertaram esse botão acabam voltando a se importar, afinal, são pessoas boas e responsáveis. No entanto, gente egoísta não aperta nunca esse botão, pois são eles que estressam os outros e ainda se acham com a razão. Mas todo egoísta que eu conheço se acha com a razão, pois o egoísmo é um tipo de burrice. E o burro sempre se acha certo, caso contrário não seria burro.

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Meu apartamento é um pequeno Brasil. Eu sou o povo e meus gatos são os políticos. Eles têm conforto, ração da boa às minhas custas e não fazem porra nenhuma o dia inteiro. Mesmo assim roubam minha comida, fazem bagunça e eu ainda me comporto como se os venerasse.

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Acho decepcionante quando conheço alguém que se declara participante de algum grupo político ou religioso e, ao conversar com a pessoa, ver que TODAS as suas ideias são de acordo com o pensamento do grupo. “ha, mas se ela é do grupo tem de estar de acordo”. Claro, são regras do jogo. Mas que toda unanimidade é burra, isso é.

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A arrogância é aceitável em um jovem, mas em uma pessoa madura é indicativo de idiotice.

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Não basta ser guerreiro, é necessário alguma inteligência para não enfrentar batalhas desnecessárias.

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Uma vez quando era criança vi o Ney Matogrosso em uma praia no Ceará, fiquei impressionado dele ser absolutamente normal, sentado em uma cadeira tomando sol e conversando com um amigo. Na minha cabeça de criança ele deveria andar arregalando o olho e rebolando. Sempre.

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O covarde acha sempre um culpado, desde que não ele mesmo. O mundo é culpado; os outros são culpados; os espíritos são culpados; a macumbeira é culpada; a família é culpada. Existe também o clássico “foi por que me afastei de Deus”. Quem é assim não foge apenas de suas falhas, foge até de si mesmo.

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Começo a desconfiar seriamente que a maioria das pessoas amam aqueles que mentem, e odeiam as que falam a verdade.

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Amigos com problemas de relacionamento sabem que eu sou um conselheiro amoroso de um conselho só. Mesmo assim eles vem falar comigo, pois sabem que a coisa acaba no bar mais próximo. Essa é a parte mais importante, a confraternização.

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O pai de família das grandes cidades é essencialmente um animal doméstico. Assim como um gato doméstico está restrito ao apartamento, a sua ração e ao seu dono, o pai de família está cercado de restrições e vigilância. Só falta agora vender uma ração para pais de família, sabor frango, carne ou cordeiro.

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Eu lhe desejo uma vida cheia de possibilidades. Que você possa ver a infinitude que existe entre um sim e um não, entre uma boca que disse sim e um olhar que disse não, a resposta afirmativa de um talvez, um não dito sem convicção, um sim cheio de vida e brilho. Que você possa ver a dúvida do convicto, o amor travestido de ódio, a verdadeira razão de uma fé. Que sua vida se preencha de riquezas, sutilezas, caminhos e que você consiga viver em paz, como uma águia tranquila que sobrevoa um vale.

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No facebook o mural é o consciente e o InBox é o inconsciente. No mural só tem o que pode, as meias verdades. No InBox o que não pode, que é proibido, reprimido, a verdade escondida, a confissão.

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Aquele que julga a visão de mundo do outro geralmente o faz utilizando sua própria visão de mundo. É uma dupla cegueira, pois não consegue ver nem o outro e nem a si mesmo.

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Para estudar uma coisa difícil : Sente-se de e comece a ler, mesmo que não entendendo. Vai dar vontade de beber água, resista. Vai dar vontade de ir no banheiro, resista. Vai dar vontade de ir na geladeira, resista. Então, seu cérebro vai dizer para ele mesmo: “Vou começar a funcionar se não esse doido vai matar todo mundo.”

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Qual a diferença entre nós e os outros animais? É que os outros animais sabem exatamente o que precisam para viver, e não querem nem mais, nem menos. Nós não sabemos o que precisamos para viver, e queremos muito do que não serve para nada.

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Eu duvido que um desses caras musculosos e bombados consiga colocar uma pesada mochila de escola nas costas e carregar nos braços uma criança de 6 a 7 anos por 3km. Essa mulheres humildes que saltam dos ônibus nessa situação são pequenas titãs. Parece que é uma força que vem da alma.

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Autor: Alfredo Carneiro

Editor do netmundi.org