Texto de Giovanni Mesquita*
Lá nos estertores do milênio passado, quando já quase acabava a era dos veros debates, “arrigorou-se” um tempo de palestras. Nossa, hoje, pobre capital viu os gigantes daqueles, e desses tempos, em carne, ossos e verbo. Vimos, ou perdemos, Saramago, Eric J. Hobsbawm, Marilena Chauí, Perry Anderson… Quase no “finzim” desse tempo, quando no horizonte já preteava o olho da gateada do fascismo, fui na UFRGS, costeado de compadre meu Knierim, acompanhar uma série de falas. Na época já estava um pouco cético quanto à sabedoria dos sábios. O lugar-comum teórico era mato, ou melhor, já era mato. Mas era trabalho e não prazer, e lá estava eu. A estudantada e professorada estavam de cola em pé. Era pura agitação para ver o grande teórico que vinha das “zorópias” para trazer-nos luzes. Assisti com parcimoniosa atenção o douto, não me fez luzir novas significâncias. Me pareceu que requentava ideias e as atava com mimosas neologísticas, que estavam em voga naquela quadra da redoma acadêmica. A minha isolada impressão era que chamava o preto de negro e o cinza de plúmbeo…. Fiquei lá a ouvi-lo com dificuldades devido aos fortes ruídos gerados pela estática dos meus pensamentos em outra coisa qualquer. Não que fosse descabido, não que fosse indevido, era só, ou me pareceu, mais do mesmo. Pela tarde, ou no dia seguinte, outra palestra, com outro douto que também cruzou o oceano. Vinha da Mama África, de Moçambique. Já conhecia, de-ouvir-falar, o gajo de além-mar, pero não mucho.
Começou ele de mansinho era praticamente um mineirinho. Disse que não sabia porque haviam-no convidado para falar sobre memória, considerando que a dele era péssima e mesmo que, talvez pouco servisse porque “de que vale ter memória se o que mais vivi foi o que não se passou?”. Já me ajeitei na poltrona. Relatou que, por ter uma memória grácil, ele se vexava quando pela manhã sua família esnobava em detalhes os sonhos tidos, e ele… nada. Quando o constrangimento tornou-se tortuoso ele resolveu tomar uma atitude drástica. Então, na hora “da inveja e do café” ele começou a inventar seus sonhos.
Depois da figurativa anedota, ele divagou divinamente sobre o conteúdo dos sonhos e da distinção que há entre eles e o que recorda o sonhador. Segundo o biólogo, os temas sonhados são reelaborados pelos que sonham porque “nem um sonho pode ser descrito (…) o sonho pede uma linguagem que não há, que é a linguagem dos sonhos. Aí só a poesia pode entreabrir essa porta.” (O que nos lembra que o “poeta é um fingidor”!) e segue “(…) a memória funciona como os sonhos.” Ou seja “A memória não é factual do que se passou, ela é uma construção do que se passou, a memória é uma entre as várias versões do passado.”
Desse pensamento, evoluem duas conclusões: se a memória, assim como o sonho, é a reconstrução confeccionada pela lembrança de cada um, a memória não é coletiva e sim, por consequência, exclusivamente individual; portanto, e decorrente disso, não é A memória e sim AS memórias, mesmo quando advindas de um mesmo fato. Para o escritor, o sonho é um parente próximo da memória, “Os sonhos só existem na impossível lembrança que temos deles” e, à guisa de conclusão, tirou onda “é como impressões digitais que inventam o dedo”.
Ele fez uma distinção muito clara entre história e memória, podendo ser história, a que se referia, aquela de que fala João Guimarães Rosa, a com E e sem H: estória. Mas, eu vou me dar o desplante de não fazer essa distinção, porque, na minha opiniãozinha, tudo que ele disse vale também para a história com H.
Sigamos: “ …. a diferença entre memória e história é artificialmente produzida.” Talvez essa rigidez postiça seja sintoma de alguma sequela de cartesianismo mal curado. Para o poeta a memória e história se misturam, sendo elas individualmente construídas “são o chão de minha alma (…) E foi no chão da cozinha que eu me fiz poeta”. Ele passou a descrever o chão de sua cozinha de sua meninice e os seres que lá habitavam (habitam?), as mulheres que trabalhavam na casa e cirandavam a volta da mesa da cozinha “e eu olhava fascinado essas longas saias que ondulavam como se fossem cortinados soprados por uma misteriosa brisa, era como se fosse uma dança, um baile de divindades (…) e as mãos que circulavam entre a água, a terra e o fogo…” Desnecessário dizer que a esta altura eu já estava de boca aberta por onde escorriam em cascatas babas imaginárias. E aos ingredientes que formaram sua memória, foram incorporados os cheiros, sons, fumaças e sabores…. Talvez a função do poeta seja essa mesma, a de descrever as coisas que o resto de nós só somos capazes de sentir.
Seguiu o teórico militante, a nossa “…casa é a casa da infância como se ainda estivéssemos lá, onde em nós a casa mora. Ter casa é isso, é ter um lugar de eterno regresso”. Essa marca de sua memória, a casa da infância, é comum a todos nós. Lembro quando me escondia embaixo da mesa da sala, oculto pela comprida toalha, ensinando-me a ler.
Não é estranho que esse filho de imigrantes portugueses, que nasceu em Moçambique, carregue em si, como uma força poderosa, a filha mais linda e melancólica da memória: a saudade. O curioso é que em nenhum momento ele descreve o papel que exerce a saudade nessas filigranas de memórias e histórias. Essa presença da ausência, produto tão tipicamente português, que nós fizemos com ela o mesmo que fizemos com tudo: misturamos. Para nós que criamos a pizza de sorvete, isso foi moleza. Na saudade acrescentamos um forte punhado de banzo, duas xícaras de karukasy e talvez até uma pitada Sehnsucht. Mas como nossa língua se manteve lusa, continuamos a chamar de saudade. Não achamos uma palavra para a primeira paçoca, o colo da avó, o gol da memória, o brilho daqueles olhos. Saudade! Saudade simplifica.
Para os lusos a saudade é como uma tatuagem que nunca saía deles até porque, em muitos casos, eles nunca estavam no seu lugar. Já nós que não saímos daqui potencializamos esse sentimento e o aplicamos mesmo para aquelas coisas que nunca vivemos, para aqueles lugares onde não estivemos… Então, nesse contexto, o que seria a saudade? Uma musa, uma diva, um orixá, uma fibra ótica que conecta nossas memórias e histórias ou um forno siderúrgico que as derretem e misturam em elevadas temperaturas sentimentais? Chega! Vamos deixar isso para quem sabe.
O jornalista lembrou que a natureza das culturas africanas, em Moçambique, transita em diferentes avenidas: “A memória, que se baseia na história falada e não escrita, se deita em outra cama.” Ela se alimenta do “provérbio, da fábula e da pequena história”. Soubemos, então, que naquele canto da África os povos, não mais ágrafos, mantêm-se leais a cultura oral, a magia da palavra dita. Aquela em que o verbo viaja em asas sonoras, que se despregam dos lábios e pousam nos ouvidos, na pele, e penetram nos mais íntimos recantos, levando às diversas gerações os encantamentos de memória. Como era conosco antes do advento do rádio, da luz elétrica, da TV, dos celulares. Outra era que não dista a duas gerações passadas… Dessa forma, as falas, os dizeres, tem suas construções assentadas na memória, na história, na lembrança e, eu diria, na saudade.
E mais uma vez ele saltou do barco ao cais, ou manteve o pé num e noutro, com uma “pequena história”. Dessa vez, já crescido, já juvelecido, já adultecido e talvez até envelhecido, ele contou uma história, uma daquelas que sai da boca da ternura, da boca de um avô. Contou que ao passear com um dos netos eles cruzaram com uma cobra. O menino exclamou, com mais espanto que propriamente medo, “olha esse bicho que só tem pescoço” E ele completou vaidoso, “veja isso! é poesia, é poesia pura”. E eu lá, virado em olhos e ouvidos, recebendo bem mais do que não esperava. Ele sacou do conto do neto, como se fosse o conto a cartola de um mago, um longo lenço de cores fluidas, ou melhor um inesperado coelho. “Nosso tempo é esse um bicho que só tem pescoço, comeram a cabeça e arrancaram-lhe a cauda, e essa dupla amputação foi praticada por essa sociedade que a gente chama a sociedade do efêmero, em que tudo o que nasce é transitório, nasce já morrendo (…) vivemos nesse tempo que tudo é simultâneo, que tudo é imediato, tudo é voragem…(…) como isso aconteceu? Acho que foi uma coisa chamada o Mercado que (…) impôs um (outro) tempo, o tempo do consumo. É um tempo que se consome a si próprio, e que nos consome a nós” e nunca temos tempo “nós não precisamos de mais tempo, nós precisamos um tempo que seja nosso, (…) e nesse tempo, nós temos que encontrar intimidade com as coisas que nos são próximas, com as pessoas que nós amamos, e isso requer um vagar, um tempo próprio (…) hoje (…) a nossa primeira preocupação não é viver (…) é registrar o sucedido numa imagem, numa fotografia, num vídeo (…) é obvio que essas coisas têm suas vantagens (…) mas a questão é sabermos se nós continuamos sendo sujeitos, autores dessa narrativa que é nossa própria vida (…) (é necessário) a presença corporal, as máquinas não podem serem as únicas e exclusivas contadoras de história (…) tem que ter esse afeto que só pode ser causado pela presença física…” Como diria Lula “eu preciso tocar nas pessoas”.
E para que as pessoas não deixem de existir como sujeito da sua história, elas precisam do seu território do seu lugar, seu morro, sua rua, sua casa de infância, “É preciso que esses lugares não morram, porque perderam raízes, porque perderam sua própria alma. Hoje é muito vulgar as pessoas viver numa cidade e não conhecerem a história de sua cidade, de seu bairro, de sua própria casa isso significa que vivem em lugares que são mortos. Um lugar é morto quando ele não produz história, quando ele não evoca memórias”. Bingo!
“Eu acredito no poder das histórias, eu acredito que as histórias não salvam o mundo, mas, elas podem incutir o desejo da utopia…(…) as histórias nos devolvem o encantamento da infância afastam e reiniciam o mundo, e mais que reiniciar o mundo, elas fazem criar um mundo em estado de infância, quer dizer um mundo que está ainda nascendo e por isso o próprio passado pode estar ainda nascendo…”. Depois de dizer tudo aquilo, ele questionou o mote do encontro, porque lhe parece que “guardar o passado e semear o futuro faz tanto sentido como o inverso guardar o futuro e semear o passado”. Porque no passado projeta o futuro e futuro, daquele passado, depende da memória cuidadosa e amorosamente cultivada pelo tempo que dedicamos a nossa história.
Saí de lá aquele dia com tanta coisa para pensar que não sei se cheguei a pensar em algo, mas hoje lembrando posso dizer alguma coisa. Mas, é claro não posso reproduzir o som da sua voz, no que muito se perde. Dizem que para um pequeno enxergar mais longe no horizonte é necessário que ele sente nos ombros dos gigantes, mas naquele tempo só senti uma vertigem, uma certa impotência…. A cada um à sua sina.
E quem seria ele, o menino de além-mar “O tempo tomou conta de mim, não somos nós que guardamos lembranças, são as lembranças que guardam a nós.” Sim, era ele o escritor, um senhor poeta, SARAVÁ, Mia Couto!!!
* Giovanni Mesquita – Historiador, museólogo e escritor autor de Bento Gonçalves do nascimento a revolução: uma biografia histórica. Email para contato: Bento1835@gmail.com
Referência
A história e a memória como uma conjugação de impossibilidades. Aula magna salão da UFRGS, setembro de 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IZtc11Bn0M0&t=864s

