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O Cadarço – a loucura segundo Charles Bukowski

Charles Bukowski

Recentemente fui presenteado com o livro O Hospício de Muskov, uma antologia de contos sobre a insanidade. São histórias não apenas sobre a terrível realidade de um hospício, mas também sobre a loucura de alguns daqueles que tratam os loucos, esses, mais loucos que os loucos de verdade, seja pela perversidade ou pelo descaso. Recebi também do amigo Caesar Charone, um dos autores — psicólogo com décadas de experiência —, um livrinho introdutório sobre a pequena e formidável novela de sua autoria: Os Sigilos de Muskov. Foi nesse livrinho que encontrei um trecho do poema O Cadarço, de Charles Bukowski. Nada mais apropriado para falar sobre a loucura.

Não são as grandes perdas de nossa vida, mas as milhares de pequenas perdas e problemas do cotidiano que finalmente nos vencem. O sentimento de luto pela perda de um guarda-chuva, a conta que venceu, a sujeira que acumula, a louça suja de ontem, o trânsito diariamente engarrafado, o relatório que não terminou, o formulário que não foi preenchido, tudo isso acaba formando uma massa recorrente de pequenas coisas que nos destroem vagarosamente.

O Cadarço resume a insanidade do nosso tempo. As verdadeiras tragédias e as grandes perdas nos marcam profundamente, porém, também carregam em si mesmas um sentido profundo da vida. Mas essas “pequenas tragédias” — essa infinitude de mediocridade — e a grande importância que lhes damos, acabam tornando nossa própria vida sem sentido. São essas coisas, segundo Bukowski, que mandam um homem para o manicômio.

Alfredo Carneiro

Trecho do poema O Cadarço, de Charles Bukowski

Tradução de Caesar Charone

Charles Bokowski - O Cadarço

Uma mulher, um pneu furado, uma doença,
um desejo; medos em sua frente,
medos que se tornam tão sólidos
que você pode estudá-los
como peças em um tabuleiro de xadrez
Não é a morte de seu amor,
mas um cadarço que se arrebenta
quando nos falta tempo de sobra…
O pânico da vida
É essa multidão de trivialidades
que pode matar mais rápido que o câncer
e que sempre estão nos acontecendo
Não são as coisas grandes
que mandam um homem para o manicômio
Para a morte ele esta preparado
Ou o assassinato, o incesto, o roubo,
o incêndio, a inundação… Não
É a série constante de pequenas tragédias
que mandam um homem para o hospício

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