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José Saramago – o Mito da Caverna nos dias de hoje

José Saramago e o Mito da Caverna

O escritor português José Saramago, enquanto estava sozinho em um restaurante, foi arrebatado pelo seguinte questionamento: e se fôssemos todos cegos? A conclusão do escritor (um tanto natural) é que estamos de fato cegos em vários sentidos (da razão, da sensibilidade e de tudo o que é razoável). Porém, nunca antes, segundo Saramago, fomos tão cegos quanto neste mundo midiático que vivemos. Neste ponto, o escritor faz uma comparação com o Mito da Caverna, do filósofo Platão. De fato, esta é uma comparação que faz algum sentido, uma vez que as pessoas no Mito da Caverna estavam olhando sombras e acreditando que eram a realidade. Transportando essa ideia para o mundo de hoje, não estaríamos todos nós na frente de nossas televisões, computadores e celulares olhando sombras e julgando que estamos lidando com a realidade?

Mito da Caverna diz respeito a toda uma doutrina espiritual e filosófica que sustenta o pensamento de Platão. Seria, portanto, um erro supor que a caverna de Platão “finalmente se tornou realidade”, reduzindo o mito a um esquema de dominação política, ideológica e tecnológica, como sugere Saramago nesta entrevista. Apesar disso, é perfeitamente razoável, para efeito de argumentação, comparar a situação alienante que vivemos atualmente com a alegoria criada pelo antigo filósofo grego. Um dos fatores para acreditar nessa comparação é que muito raramente as notícias e informações que recebemos pela TV e internet são verdadeiras. Quase sempre estão fora de contexto ou são tendenciosas. Porém, milhares de pessoas julgam que estão diante de informações verídicas.

A proliferação acelerada de novos canais de comunicação (tanto na internet quanto na tv aberta ou fechada) só tende a piorar a situação, uma vez que serão cada vez mais pontos de vista e perspectivas diferentes sobre um mesmo tema. Isso cria uma situação estressante onde temos muito de todas as coisas (menos tempo). O que significa, basicamente, que não temos nada. Somos incapazes de prestar atenção ou julgar corretamente esta miríade de informações. A situação torna-se ainda pior quando se constata que apenas as histórias e notícias extraordinárias recebem nossa atenção, enquanto aquilo que é simples e corriqueiro (mas pode ser valioso e verdadeiro) é deixado de lado.

Saramago conclui, de forma pessimista, que estamos perdidos tanto de nós próprios quanto de nossa relação com o mundo. Não sabemos mais o que somos, para que servimos e (pior) qual o sentido de nossa existência. A própria realidade tornou-se algo estranho, uma vez que não prestamos mais atenção nela. Os pequenos detalhes da natureza e do cotidiano que eram observados com atenção pelos antigos são, agora, a despeito de todo nosso avanço tecnológico, imperceptíveis. O resultado final disso tudo é que não conseguimos mais estar, com nossa alma e nossa atenção, em lugar algum.

Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org

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