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O Super-Homem e a Fortaleza da Solidão

Super-Homem e a Fortaleza da Solidão

O Super-Homem é um super-herói interessante durante o período em que ele não conhece sua identidade. É justamente quando ele se parece muito com todos nós. E como se chama a casa do Super-Homem? Seu próprio pai, Jor-El, batizou a mansão de gelo: Fortaleza da Solidão. É simbólico que ela seja de gelo; é também simbólico que ela seja um local solitário.

Tanto no filme de 1978 quanto no de 2013 a parte mais fértil da história é justamente a angústia, a solidão e a falta de sentido e identidade que Clark Kent enfrenta. Tal é o drama que todos nós também enfrentamos desde o dia em que nascemos. Não por acaso o filósofo Friedrich Nietzsche criou seu conceito de Übermensch atrelado à solidão e às coisas elevadas (Übermensch significa “além-do-homem”, traduzido nas suas obras como Super-Homem).

Coincidentemente, o personagem da obra prima de Nietzsche se isola em uma montanha por vários anos para, no final desse período, anunciar ao mundo o Super-Homem. De qualquer forma, tanto na história de Clark Kent quanto na obra de Nietzsche existe a ideia de que apenas a fria solidão pode nos apresentar nosso aspecto superior.

Observe na cena do filme de 1978 o tom melancólico que Jor-El batiza a Fortaleza da Solidão. Reparem a expressão de tristeza ao citar a mansão de gelo como um momento desconfortável mas necessário. A primeira e única pergunta feita por Clark Kent, a única que realmente importa, foi: “Quem sou eu?” Infelizmente não encontrei esta cena legendada.

A sugestão principal, talvez, seja a ideia de que o autoconhecimento não é possível no barulho e confusão do mundo. E o que são nossas casas e apartamentos senão pequenas fortalezas da solidão que nunca cumprem seu objetivo? A solidão de um mundo lotado é a característica mais paradoxal de nosso tempo.

Infelizmente, dentro de nossas casas e na própria vida moderna, não buscamos a virtude do autoconhecimento. Preferimos abafar a angústia e o tédio com entretenimentos vazios, manias e passatempos. Fugimos do sofrimento e com isso encontramos apenas mais sofrimento, entretanto, encarar com bravura a solidão do autoconhecimento pode ser muito mais sensato e fértil do que apenas fugir.

É assim, movido pelo sofrimento corajoso, que Clark Kent chega na sua gelada Fortaleza da Solidão e se torna Kal-El, o Super-Homem. Coincidência ou não, Kal-El em hebraico significa “Todo Deus”, o que pode significar também que o herói, através do autoconhecimento, se tornou completo. Somente depois disso ele pode de fato ser útil aos outros. Simbolicamente, apenas após esse período surge de fato o super-herói com seus plenos poderes e capacidade de voar.

Nossa jornada não precisa ser grandiosa. Aceitar a voz da consciência que aponta nossos erros e reconhecer nossa falhas, com o intuito de não mais repeti-las, pode ser um começo. Acontece que a grande maioria de nós (e aqui me incluo) sequer acha que errou, sempre buscando justificativas e culpando os outros, incapazes de auto-observação.

Se continuarmos assim, nunca seremos de fato pessoas completas e úteis. Permaneceremos sempre em nossas casas solitárias que nunca serão de fato fortalezas, “Casas que não são nunca lares”, como alfinetou Nietzsche, pois esse é o sentido maior da mansão de gelo de Kal-El: que a solidão se torne fortaleza, e não fraqueza angustiante.  Comecemos então a refletir imediatamente, afinal, o maior sábio da Grécia Antiga já havia alertado: “Uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”.

Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org

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