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A “Carta de Deus” de Albert Einstein

Albert Einstein

“A palavra ‘Deus’ não é para mim nada além da expressão e o produto de fraquezas humanas”. Esta e outras observações de Albert Einstein sobre Deus e as religiões da tradição judaico-cristãs, levada a público recentemente em uma carta, causaram enorme surpresa. Einstein foi um dos cientistas mais influentes do século XX e acreditava na existência de uma inteligência ordenadora do universo. Porém, essa crença de Einstein sempre foi mal compreendida e utilizada para “confirmar” crenças religiosas, afinal, seria um argumento de grande autoridade afirmar que o homem mais inteligente do século XX acreditava em Deus.

Contudo, mesmo antes da descoberta desta carta — escrita em 1954  — Albert Einstein deixou claro em vários escritos que o Deus ao qual ele se referia nada tinha a ver com um Deus que se releva em escrituras religiosas. Pelo contrário, antes do surgimento desta carta, Einstein já criticava as religiões. Leia abaixo algumas de suas mais famosas observações sobre esse tema.

  • “O caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, nem pela fé cega, mas pelo esforço em atingir o conhecimento racional.”
  • “A profunda certeza de um poder superior que se revela no universo, difícil de ser compreendido, forma minha ideia de Deus.”
  • “Aceito o mesmo Deus que Spinoza chama de Alma do Mundo. Não aceito um Deus que se preocupe com nossas necessidades pessoais.”
  • “Não imagino um um Deus a recompensar e castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva após a morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espírito, para mim ele é um fraco, medroso e estupidamente egoísta.”

Einstein foi bastante enfático nesse ponto. Por isso que o conteúdo da “Carta de Deus” causou surpresa apenas entre os mal informados. O documento confirmou algo que Einstein já havia dito várias vezes, entretanto, na carta o cientista alemão foi ainda mais agressivo com a tradição religiosa de seus pais, o judaísmo, e também com o cristianismo. Leia abaixo os trechos retirados da carta.

  • “A Bíblia é uma coleção de lendas honoráveis mas ainda assim primitivas que são, do mesmo modo, muito infantis.”
  • “Para mim a religião judaica, como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis.”

Deus Revelado x Deus dos filósofos

A Carta de Deus

Toda a confusão que existe sobre a crença de Einstein em Deus ocorre porque as pessoas não estão familiarizadas com a tradição filosófica. O Deus ao qual Einstein se refere está mais próximo do Deus dos filósofos, e mais próximo ainda do Deus idealizado pelo filósofo judeu Baruch Spinoza(1632-1677), citado tanto na carta de 1954 quanto em outros escritos. A grande diferença entre essas duas concepções de Deus é que uma se refere à percepção que os pensadores atingem ao elevar racionalmente seus pensamentos, que seria a ideia de uma substância infinitiva (em Descartes), um Motor Imóvel (em Aristóteles) ou uma inteligência ordenadora (de Spinoza, citado por Einstein), enquanto que o Deus Revelado (da tradição judaico-cristã) se refere a um Deus que se revelou aos homens em uma escritura sagrada.

A revelação, por si só, seria a comprovação da existência de Deus e concessão de autoridade máxima à escritura religiosa, dispensando qualquer necessidade de “comprovação racional ou científica”. Acreditar nesta revelação é, portanto, um ato de fé. Por isso que não faz sentido que religiosos queiram tanto vincular descobertas científicas com a existência de Deus. Este Deus revelado é também um Ser com característica antropomórficas e demonstra piedade, severidade e preocupação com os homens.

O Deus dos filósofos, por sua vez, é uma constatação racional de algo que está muito além da razão humana, base fundamental da existência, mas que não tem características humanas e não se liga às necessidades dos homens. É apenas um conceito, por assim dizer  — ainda que cause assombro nos pensadores, como causou em Einstein. E os problemas humanos? Ora, os problemas humanos devemos resolver nós mesmos, diriam os filósofos.

A ingratidão de Albert Einstein

Albert Einstein

Ainda que Einstein não acreditasse na divindade das escrituras sagradas dos judeus, que compõem também as escrituras cristãs, dizer que são contos infantis é no mínimo uma ingratidão. Estas escrituras compõem o núcleo da cultura judaica, que deu unidade ao povo judeu e o fez sobreviver por centenas de anos à escravidão e ausência de território próprio. Como, no passado, os judeus ficaram espalhados pelo mundo, era justamente sua cultura que os mantinham unidos como povo, mantendo sua identidade cultural.

Sem esta cultura, o povo judeu talvez não existisse mais, pois teria se dissipado entre outros povos. Acreditar que estas escrituras são bobas é desconsiderar este fato. Além do mais, elas são no mínimo a expressão de milhares de anos de sabedoria e aprendizado que inspiraram os judeus na sua aventura pela sobrevivência. Talvez o próprio Einstein nunca tivesse existido não fosse a força do judaísmo (de forma contraditória, nesta carta de 1954 ele se diz feliz por ser judeu).

Aristóteles, Schopenhauer e Albert Einstein

A crença religiosa dos judeus, e a influência desta crença na sua sobrevivência, é uma questão eminentemente metafísica. O antipático filósofo alemão Arthur Schopenhauer(1788-1860) foi “profético” quando afirmou que “a física tropeça, muito frequentemente, em problemas metafísicos. No entanto, nossos físicos revelam uma ignorância de sapateiro para as coisas da filosofia“. E esta “sabedoria de sapateiro” pode muito bem se aplicar aos comentários de Einstein sobre as religiões. Aristóteles, um grande e verdadeiro filósofo, nos deixou um valioso conselho sobre isso: “Cada homem julga bem apenas aquilo que conhece. Assim, um homem instruído a respeito de um assunto é bom juiz apenas nesse assunto“.

ObsO autor deste texto, que é também editor do netmundi.org, não é adepto de qualquer religião e, por isso mesmo, não defende posições religiosas e muito menos ateístas. A intenção é esclarecer a confusão de conceitos que existe sobre as supostas crenças religiosas de Albert Einstein, sua ideia de Deus e tomar posição acerca do conteúdo da Carta de Deus, não desmerecendo as impressionantes conquistas científicas do físico alemão. A Carta foi escrita para o filósofo judeu Eric B. Gutkind e vendida no eBay em 2012 por US$ 3 milhões. 

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

O Pensamento Vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret, 1985.

Einstein, Albert. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.