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Sobre golfinhos e leopardos

Sobre golfinhos e leopardos

Infelizmente nem sempre a vida imita a arte, e existe um aberrante contraste entre um golfinho morto por uma sessão de selfies e a cena do ghost-cat do filme A Vida Secreta de Walter Mitty. A cena do diálogo entre Walter Mitty e Sean O´Connel (o fotógrafo) é uma verdadeira aula sobre apreciação estética. É tão significativa que pode ser assistida até no mudo. Experimente! Porém, esta cena talvez não faça sentido algum para a população de turistas que matou o golfinho na Argentina. Mais pareciam personagens estúpidos de um episódio de Os Simpsons ou South Park. Ou mesmo The Walking Dead.

No filme, o misterioso fotógrafo da revista Life aguarda o momento de tirar uma foto rara de um ghost-cat. Quando o animal surge, ele fica emocionado e não tira a foto. Walter pergunta se ele não vai tirar a foto, e O´Connel responde que muitas vezes não tira, prefere apreciar aquele momento e não se distrair com a câmera. Ele diz ainda: “As coisas belas não clamam por atenção” (infelizmente esta frase foi cortada nesse vídeo).

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O próprio personagem do fotógrafo é, ele mesmo, um ghost-cat. É simbólico (em uma interpretação minha) o fato de Walter Mitty ter de subir uma montanha para encontrá-lo, dando um sentido de elevação. Walter fica confuso com a atitude do fotógrafo, mas ele mesmo irá se tornar, como fica claro depois, também um ghost-cat.

Walter sofre e persegue o fotógrafo pelo mundo apenas para conseguir o negativo de uma foto. Quando finalmente consegue, ele não está mais interessado em saber qual era a foto. Ele percebeu que toda sua aventura foi mais importante que a foto que ele tanto perseguiu. Como disse Morpheus para Neo no filme Matrix: “aquilo que foi dito, foi apenas para você”. Nenhum selfie ou foto alguma irá capturar aquilo que está sendo dito apenas para você. Singularmente para você.

O filhote de golfinho na praia da Argentina, assim como o ghost-cat do filme, poderia ter proporcionado um raro momento a todos. Um momento único, pois a maioria eram turistas, provavelmente se esforçaram para estar ali e foram presenteados com a presença do golfinho.

Ok, sem radicalismos, uma foto de longe poderia valer a pena, mas não substituiria o momento. Toda a cena trágica da agonia do golfinho pareceu uma tentativa desesperada de captar a beleza de um animal mágico. Como nos filmes de zumbis, atacaram o golfinho como uma horda de mortos-vivos tentando desesperadamente extrair dele a beleza que eles próprios já não têm mais.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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