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Sobre bicicletas, automóveis e filosofia

bicicletas x carros

Uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida.

Sócrates

O uso cada vez mais frequente de bicicletas nas grandes cidades indica não apenas uma reação espontânea diante do descaso com a mobilidade urbana, mas é também uma refutação à imposição de um estilo de vida irracional que tomou conta dos centros urbanos. Diante dos engarrafamentos e da falta de estacionamentos, observamos o estímulo cada vez maior ao uso de automóveis.

Isso sem falar no surgimento de novos edifícios onde claramente não deveriam estar, construídos sem planejamento urbano. As cidades, que nasceram da vontade e da inteligência humanas, se tornaram templos da irracionalidade. Não se trata aqui de uma crítica superficial ao capitalismo, mas simplesmente do mau uso da razão.

carro-bicicleta

As bicicletas tornam o mundo mais acessível e colorido

Esta é também uma questão filosófica, e apesar do senso comum afirmar que filosofia não serve para nada, viver irrefletidamente também não tem utilidade alguma. Aristóteles afirmou que “aquele que se maravilha sente que é ignorante; se buscou a filosofia, foi para fugir da ignorância e não por alguma utilidade“. Este maravilhamento é a fonte de todo sentimento profundo; raiz da reflexão comprometida. Parece que este mesmo encantamento toma conta do ciclista, que, devido à diminuição da velocidade, percebe um mundo mais acessível e colorido. Na velocidade cinza do automóvel não há tempo para se encantar. Precisamos andar mais lentamente para perceber a realidade e pensar melhor. A bicicleta cai muito bem como metáfora.

Juliana Dantas Chuva

O automóvel, logo mais, não será opção de mobilidade urbana

A resposta dos governantes ao uso cada vez maior de bicicletas é a criação de ciclovias improvisadas, com honrosas exceções, que têm a função principal de propaganda política. Tal reação é fruto da falta de habilidade — ou de vontade — em compreender o que está ocorrendo. Porém, a bicicleta como reação individual não pode resolver o problema da mobilidade urbana. Mas já é um eficaz indicador de insatisfação. É importante observar que, se a bicicleta ou o transporte público não são uma solução para a mobilidade urbana, o automóvel, logo mais, também não será. Esta situação se parece muito com a síndrome do sapo fervido, e aqueles que dependem do carro deveriam pensar sobre isso.

Trânsito e uso de recursos públicos

No que diz respeito ao uso de recursos públicos o trânsito não é apenas um exemplo irracional, mas também imoral. Segundo o pesquisador Horácio Figueira, o trânsito transmite a falsa impressão de que a maioria das pessoas está se locomovendo de automóvel, quando, na verdade, transporta apenas 20% das pessoas. Os 80% restantes se apertam nos trasportes públicos (usando aqui um exemplo da cidade de São Paulo). O ITDP avaliou que na cidade do México 75% do orçamento da Secretaria de Transportes é consumido com a infraestrutura para automóveis, que levam apenas 28% das pessoas. Nas demais grandes cidades essas desproporções não devem ser tão diferentes.

O ciclista urbano atenta contra a imposição de uma arquitetura social sedentária, superficial, caríssima e que faz mal à saúde física e mental. O problema é que são poucos os que podem utilizar a bicicleta como meio principal de transporte, pois isso depende de uma série de fatores (disposição, distâncias, tipo de trabalho, etc..). É por isso que o uso da bicicleta não pode ser analisado isoladamente, e sim como participante de um grande debate sobre a mobilidade urbana e estilo de vida.

Venda de Automóveis

Bicicletas versus consumismo

A cultura do consumismo irracional, por outro lado, atenta contra o uso de bicicletas. E existem efeitos psicológicos bizarros no consumismo irrefletido. A maioria das pessoas, levadas pelo marketing e pela mídia, quer estar sempre impecável mesmo em situações onde isso não é necessário. E de preferência de carro. E, se for possível, de carro novo. Quem nunca viu uma mulher de salto alto cambaleando numa grama? Ou um jovem endividado por causa de carro? Por isso mesmo que o ciclista urbano, na maioria das vezes, é alguém que desconsiderou tudo isso, seja pelo estresse ou pela observação atenta, afinal, a vida é curta demais para ser desperdiçada com a insanidade coletiva. Não é o caso de não existir consumo, mas de consumo consciente. É claro que o carro é uma grande invenção humana. O problema não é o carro, somos nós mesmos.

Muitas pessoas pensam no carro como um fim em si mesmo. A letra da música “Camaro Amarelo” mostra bem isso, pois narra a história de um jovem que só chega a ser alguém quando recebe uma herança, compra roupas de grife e um carro de luxo. De certa forma, o brasileiro faz essa associação entre o automóvel e seu dono. Seria um “indicador de sucesso”. Essa associação entre “ter” e “ser” deveria ocupar nossas reflexões. Mas não há tempo para pensar, não é mesmo? Estamos com pressa! E na pressa, passamos a adorar tralhas e trambolhos que assumem um status superior ao ser humano. Aqui está, de fato, uma adoração a falsos deuses. Quem disse que não somos politeístas? Tamancos, sapatos, calças e carros nos definem. Como ocorre na mitologia, nós mesmos criamos os deuses e depois passamos a adorá-los. Atualmente o filósofo Zygmunt Bauman é uma das principais vozes sobre esse tema.

Não pretendo fazer aqui uma crítica completa ao consumismo irracional. Minha intenção é que as ideias aqui expostas sejam ponto de partida, e não porto de chegada. A filosofia não é veloz, pois a velocidade gera apenas conclusões apressadas. René Descartes sabia disso, e talvez este filósofo francês fosse apreciar mais uma bicicleta do que um automóvel.

Não é suficiente ter a mente sã, o principal é bem aplicá-la. As maiores mentes são capazes dos maiores vícios, tanto quanto das maiores virtudes, e os que andam muito lentamente podem avançar muito mais, se seguirem sempre o caminho reto, do que aqueles que correm e dele se distanciam.

René Descartes

Nosso amor pela velocidade e pelos motores impressionou o poeta italiano Filippo Marinetti, que redigiu o Manifesto Futurista, uma verdadeira apologia à guerra e à velocidade. Ele compreendeu que a velocidade estava associada à violência, e via nisso uma forma de poesia. Não por acaso o futurismo influenciou a Semana de Arte Moderna no Brasil. Entretanto, uma reflexão mais cuidadosa revela que talvez Marinetti tenha razão. Amamos muito tudo isso: a velocidade, a superficialidade, o automóvel, a vaidade. Mas, aonde mesmo estamos indo com tanta pressa?

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org

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