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Caçadores de Emoção: os caminhos radicais da espiritualidade

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Caçadores de Emoção – 1991

No filme Caçadores de Emoção (Point Break), de 1991, Patrick Swayze e Keanu Reeves protagonizam uma história cheia de clichês, porém, com uma pitada de “busca espiritual” que acabou tornando a narrativa mais interessante. Uma tribo de surfistas assalta bancos para financiar uma vida alternativa, que no fundo é uma busca pela beleza transcendental da onda perfeita.Um agente do FBI consegue se infiltrar no grupo e acaba se convertendo à proposta espiritual, mas nega os meios violentos. A história é previsível, mas pequenos acertos acabaram sendo uma receita de sucesso.

Caçadores de Emoção – 2015

A nova versão, de 2015, além de atualizar a tecnologia da tribo, conseguiu cumprir o papel de dialogar com o primeiro filme sem simplesmente copiá-lo, aproveitando a ideia principal e ampliando algumas noções importantes, como a responsabilidade da escolha, ativismo político, espiritualidade pagã e até mesmo alguma filosofia existencialista.

Um novo contexto espiritual

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O contexto espiritual do novo filme envolve uma complexidade maior. Na nova versão os integrantes da tribo devem cumprir uma série de etapas radicais ligadas à uma consciência global, que também poderia levar ao nirvana. Não existe apenas a onda perfeita, mas também o salto perfeito, a descida perfeita, e mais. Para isso cada integrante deve ser um poliatleta. Os assaltos não são realizados em proveito próprio, mas são vistos como uma oferenda à Terra pelas coisas que ela dá à humanidade.

O grupo distribui aos pobres dinheiro e diamantes e não fica com nada. Outras operações envolvem prejudicar grandes corporações, como fazem os ativistas que atacam navios baleeiros. A ideia fundamental, presente também no primeiro filme, é a necessidade de ir voluntariamente até o limite, pois é na superação que reside a espiritualidade. “Caçar a emoção” tem aqui o sentido de buscar um estado elevado de consciência.

Nesta forma de ver as coisas, ou se vive de forma radical ou é melhor não viver, pois não há sentido ou transcendência no conforto da vida urbana. Nesse ponto eu concordo que uma visão mais elevada da vida costuma ocorrer entre aqueles que se arriscam, porém, discordo de quaisquer meios violentos para atingir isso, principalmente se afeta pessoas inocentes. A espiritualidade radical do filme lembra o fundamentalismo islâmico.

Moral existencialista

Caçadores de Emoção

O código moral dos integrantes do grupo pode ser um exemplo, ainda que superficial, da moral existencialista. Apesar do líder planejar bem operações de extremo risco, isso não dá ao líder a responsabilidade pelos integrantes. É importante que todos saibam que as escolhas são de responsabilidade absoluta daquele que escolhe. Nesse cotexto, ninguém é de fato responsável pelas escolhas de ninguém. Por mais simples que pareça, este é um erro que muitos de nós cometemos, pois acabamos culpando os outros pelas coisas que nos acontecem, quando na maioria das vezes nosso sofrimento é consequência de nossas escolhas.

Culpar os outros é um caminho fácil, mas é também escravidão e ressentimento. Para o existencialismo, toda moral reside na ação; só é livre aquele que assume as consequências de seus atos. A mentalidade dos integrantes da tribo segue claramente esta ideia. E este foi um acerto da nova versão, na minha opinião, pois se a proposta é liberdade, é preciso então uma moral que aceite as escolhas dos outros. Assim, a morte de algum integrante é seguida de tristeza, mas não de culpa.

O papel do espectador neste filme

O dilema ético é o mesmo nos dois filmes. Posso arriscar as vidas de outras pessoas, roubar e matar em nome de um ideal por mais elevado que ele me pareça? Isso não parece fundamentalismo religioso? Não existiriam outras formas de ativismo que não leve necessariamente à violência? A nova versão do filme acerta em levantar e atualizar essas questões, presentes na versão original.

Por fim, o filme cumpre o papel de levar o espectador para um mundo onde a vida é vivida de maneira muito arriscada, coisa impensável para o confortável cidadão urbano, que prefere viver o risco no conforto do sofá. Entretanto, talvez de fato a espiritualidade resida no perigo, afinal, não nos disse o poeta que “Deus deu ao mar o perigo e o abismo, mas nele escolheu espelhar o céu”? Se isso for verdade, então não existe risco maior do que a segurança e o conforto.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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