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Batman vs Superman: uma justa homenagem a Frank Miller

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Quando assisti pela primeira vez o trailer do filme Batman vs Superman, fiquei me perguntando: por que o diretor Zack Snyder não repetiu a mesma fórmula do filme 300? Tanto Os 300 de Esparta quanto Batman – O Cavaleiro das Trevas são duas HQs de enorme sucesso de Frank Miller, sendo esta última uma das mais importantes da história dos quadrinhos onde Batman enfrenta o homem de aço em uma batalha impossível.

No filme 300, Snyder seguiu quase fielmente a história dos quadrinhos. Quem já era fã da HQ 300 adorou e quem não conhecia ficou impressionado. Em Batman vs Superman Snyder não pôde fazer isso, pois o filme é intermediário para outros projetos. Porém, como o ponto alto é a luta entre os dois super-heróis, o diretor buscou inspiração na batalha criada por Frank Miller. Na trilogia Cavaleiro da Trevas o diretor Christopher Nolan se inspirou nesta obra de forma mais sutil, enquanto que, em Batman vs Superman, Zack Snyder fez referências ostensivas à HQ. Para compreender a importância desta obra e sua ligação com este e vários outros filmes de super-heróis, vamos recuar até 1986.

A cultura pop do Cavaleiro das Trevas de Frank Miller

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Nos anos 80 o mundo dos super-heróis estava infestado de personagens angustiados. Batman se tornara apenas um herói vacilante mergulhado em um politicamente correto irritante e limitador. Quando Frank Miller lançou, em 1986, Batman – O Cavaleiro das Trevas, o sucesso foi imediato e toda a indústria dos quadrinhos se inspirou no estilo antipático, enérgico e politicamente incorreto desta obra. O público estava cansado do bom-mocismo que não refletia mais a violenta realidade urbana. Nascia assim uma cultura pop que ajudou a reerguer a indústria dos quadrinhos. Não fosse esta HQ, talvez não existisse atualmente todo esse boom de filmes de super-heróis.

Na visão de Miller, o Superman representa o politicamente correto como uma ideia burra. Ele acredita fazer o certo, porém, de forma irrefletida. Bem antes de perceberem que o politicamente correto é uma moral simplória que não funciona, Frank Miller já havia percebido isso e realizou sua crítica através do homem de aço. Superman é um poderoso guardião das regras estabelecidas. Mesmo que elas estejam erradas.

Batman ressurge como um herói sem dúvidas sobre o que deve ser feito. Somos nós, cidadãos medianos, que não sabemos o que fazer, que temos dúvidas e morremos de medo. Heróis, por sua vez, não têm dúvidas. Se a vida é limitada por regras criadas por nós mesmos, os heróis pouco ligam para essas regras se elas forem injustas. Se a vida é restrição, os heróis são maiores que a vida. “Aquele que viola a lei por considerá-la injusta, esse é melhor que a lei“, declarou o filósofo grego Sócrates. E é isso que esperamos dos heróis, pois queremos nos inspirar em algo que está além de nós mesmos. Heróis vacilantes não são inspiradores.

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Na história criada por Miller, a volta do morcego é aplaudida pela população, pois Gotham City está mergulhada na violência, corrupção, guerras de gangues e estupros. A polícia era conivente e os poucos policiais honestos estavam acuados e impotentes. Nada podia ser feito, pois se o governo nada faz, ninguém está autorizado a fazer nada. Assim como no mundo real, muitas regras sociais, a despeito de sua intenção de justiça, acabam sendo injustas. E toda a sociedade paga por isso. A sombra do morcego que passa a aterrorizar o mundo do crime humilha o governo, por isso é considerado politicamente incorreto e criminoso.

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Pela primeira vez na história dos quadrinhos, Batman executa um sequestrador. Com a arma na cabeça da criança, o criminoso pergunta para o cavaleiro negro se ele duvida que ele iria matá-la. Com um tiro certeiro Batman mata o bandido. Com isso Frank Miller enterrou de vez o politicamente correto nos quadrinhos. Surgia um super herói que todos esperavam e que não perdoa ameaças. Batman não mata arbitrariamente e até se preocupa com os criminosos feridos, mas também não pensa duas vezes. A certeza é um atributo do herói, e se os bandidos percebem a incerteza, não terão medo. E o medo sempre foi a principal arma do Cavaleiro das Trevas.

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Neste ponto irá surgir a imponente figura do Homem de Aço como uma força coercitiva que age em nome do presidente dos Estados Unidos e dos valores democráticos. Batman dá gargalhadas da ingenuidade de Clark Kent. Frank Miller o retrata como um super herói que não desenvolveu seu intelecto pois seu enorme poder lhe poupava do pensamento criativo. Apesar dos poderes divinos de Clark Kent, sua inferioridade diante da inteligência estratégica de Bruce Wayne é contrastante. Esta batalha é apenas uma das várias tacadas geniais de Miller, que explorou desde complexos freudianos e conflitos pessoais até questões morais e políticas. Depois dessa obra, a indústria dos quadrinhos passou a repetir essa fórmula que agradava ao público. Pelo menos no gibi as pessoas queriam ver alguém fazendo alguma coisa certa.

Batman vs Superman

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Apesar de não se tratar de uma adaptação da HQ O Cavaleiro das Trevas para o cinema, o filme Batman vs Superman faz várias homenagens a Frank Miller. Ele utilizando os mesmos diálogos entre Bruce e seu mordomo Alfred reaproveitando cenas inteiras, copiando a armadura da batalha e as mesmas estratégias e armas utilizadas nos quadrinhos. A questão do politicamente correto surge no filme, mas não é tema principal. Para os fãs da HQ, o filme satisfaz o desejo de assistir em uma superprodução a várias cenas e diálogos inspirados no Cavaleiro das Trevas.

Como o Superman acabara de chegar à Terra, seria natural o surgimento de um debate filosófico diante do aparecimento de um alienígena. Como lidar com um poder absoluto? O que fazer agora que sabemos que não estamos sós? Como fica a convivência do Superman em uma democracia pautada pela obediência às regras? Não seria nociva a comparação de Superman com Deus? Esses e outros questionamentos surgem no filme e são, pelo menos para mim, um acerto do diretor. Claro que nada disso seria visto com bons olhos por um intelecto do nível de Bruce Wayne. Bruce acredita que se existir apenas 1% de chance do Superman se voltar contra a humanidade, então já seria motivo suficiente para preocupação, pois “ninguém permanece sempre bom nesse planeta“.

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O fato dos oponentes do Homem de Aço serem meros mortais de grande inteligência é algo bastante simbólico. Lex Luthor e Bruce Wayne, ainda que em lados opostos, têm algo que parece faltar em Clark Kent. O kriptoniano tem confiança absoluta nos seus poderes, o que já é uma vulnerabilidade estratégica. Contudo, Bruce e Luthor têm confiança em suas inteligências e sabem que Superman é meio tapado. E esse é o trunfo deles. Se você prestar atenção neste filme, irá perceber que o Clark é boa gente, porém é meio burrinho. E retratar o Superman dessa forma é uma ideia de Frank Miller que faz sentido. Não por acaso Batman, mero humano, é o líder da Liga da Justiça diante de seres com poderes divinos.

O filme tem um objetivo, que fica claro também no trailer, de ser um intermediário entre o filme anterior do Superman (Man of Steel) e a criação da Liga da Justiça. A história tem uma ação rápida, um aspecto sombrio e uma trilha sonora impactante. Jeremy Irons como Alfred ficou ótimo e os personagens não perdem tempo com muitas piadinhas. Ben Affleck como Bruce Wayne não decepciona, pois a velocidade do filme não permite. E a Mulher Maravilha ganhou uma música-tema de tirar a respiração. E quem espera cenas grandiosas, muita destruição e explosões vai encontrar o que deseja.

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Por fim, tudo o que disse aqui é minha opinião, e ela é independente da opinião dos críticos, pois qualquer arte fala somente para nós. E não será um crítico que dirá como devo me sentir diante da tela. Li uma crítica onde o sujeito disse que “faltou profundidade no filme“, mas eu acho que falta profundidade em quem busca profundidade em filmes de super-heróis. Eu gostei do filme, das cenas de ação do enredo e das dezenas de referências à HQ. Não fui para o cinema achando que ia assistir a um filme artístico (como é o caso do filme “A Bruxa, por exemplo). Esqueça o que falam os críticos, esqueça o que eu mesmo disse. Vá ao cinema, divirta-se e isso é tudo.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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