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Filosofia, religião e religiosidade

filosofia, religião e religiosidade

Existem diferenças entre filosofia, religião e religiosidade, ainda que estas três coisas estejam conectadas.  Se eu sou religioso, é importante saber que existem outros povos com tanta fé quanto eu em coisas diferentes. Devo aceitar o fato da diversidade, coisa difícil para um religioso dogmático.

Os adeptos de grupos radicais islâmicos acreditam que as sociedades ocidentais estão equivocadas e que deve-se matar quem ofende o profeta Maomé (isso é de fato um problema) . No judaísmo ortodoxo acredita-se que o não-judeu (chamado de gói) não possui alma divina, apenas animal (isto não é um problema). No cristianismo acredita-se que o único caminho até Deus é através de Jesus, e que outras religiões estão erradas (isto também não é um problema, pois tanto judeus como cristãos me deixam vivo). A lista de crenças mundo afora é tão grande quanto o próprio mundo, apesar do religioso dogmático acreditar que sua religião é a única correta.

Por outro lado, se eu sou ateu militante, sou muito parecido com um religioso dogmático. Ainda que o ateu se justifique dizendo que não concorda com as religiões, não é preciso ser ateu para criticar religiões. A certeza do ateu na inexistência de Deus não é diferente da certeza do religioso na existência de Deus. No final das contas, são certezas absolutas. O ateu militante ataca as religiões mas comporta-se de forma parecida com o religioso. Na maioria das vezes, o ateu acredita em outro “Deus” e não entende a estrutura das religiões tradicionais.

É o caso de Richard Dawkins, cientista brilhante cujos textos sobre religião são uma lástima e se comporta como um “profeta” da ciência. Dawkins afirma que a ciência “simplesmente funciona”, e ignora que as religiões funcionam também como agregadores culturais e identidade dos povos. Muitos religiosos vão ao culto também pela sensação de pertencimento, pois nem só de ciência e de fatos vive o homem.  

O filósofo francês Michel de Montaigne (1533 – 1592) dizia que a crescente onda de ateísmo de seu tempo era ruim, pois o povo precisa de religião e o ateísmo não tem função agregadora, podendo gerar desordem social. Apesar de se dizer cristão, para Montaigne todas as religiões tradicionais são importantes, pois o importante mesmo seriam suas funções sociais. Esta visão de Montaigne não é bem vista por cristãos ortodoxos, claro

Ter religiosidade é sentir que existe o mistério e que a vida tem profundidade, ainda que não se tenha certeza disso. Para quem tem religiosidade, fé é a certeza de um mistério não revelado (uma certeza incerta, por assim dizer), e não a certeza da revelação (característica das religiões). A religiosidade não tem religião, ainda que seja possível ser religioso (ou ateu) e ter religiosidade. A maioria das pessoas tem religião mas não tem religiosidade. A religiosidade é um traço de muitos filósofos, pois nasce do maravilhamento do homem com o mundo.

Tanto os filósofos pré-socráticos quanto Aristóteles e Schopenhauer são exemplos de personalidades que se encantavam com o mundo. Possuíam, por assim dizer, uma religiosidade que os estimulavam a investigar sempre. Schopenhauer afirmava que o povo deve contentar-se com uma “metafísica popular” (como ele chamava as religiões), mas encantava-se com as obras dos pássaros e das abelhas, que considerava obras de profunda e misteriosa sabedoria. Achava também que os físicos tinham uma “ignorância de sapateiro” para os problemas filosóficos.

Talvez o problema esteja na certeza absoluta, afinal, de dogmas e certezas (bem como de boas intenções) o inferno está cheio. Religiosos,  ateus e muitos cientistas (não todos) têm certezas absolutas. O filósofo, por sua vez, também busca esta certeza, porém, dada a natural desconfiança dos filósofos, não se convencem tão facilmente.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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