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Nicolau Maquiavel e a Natureza Humana

Nicolau Maquiavel

Esse livrinho sobre a vida de Nicolau Maquiavel cumpre o papel de apresentar o mundo político de intrigas, traições e assassinatos da Itália do século XV que delineou o pensamento desse filósofo.

Acho favorável a leitura de obras introdutórias, pois contextualizam o leitor, trazem informações sobre a vida do filósofo e fatos históricos que influenciaram seu pensamento. Muitas vezes somos levados a ler as obras dos filósofos graças ao interesse que alguma outra obra despertou.

Porém, quando apresento uma obra introdutória sobre algum filósofo, faço sempre a seguinte ressalva: ela não substitui a leitura das obras do próprio filósofo.

O mundo como ele é

Nicolau Maquiavel foi um escritor objetivo. Não lhe interessava criar uma filosofia política para um mundo ideal, como fez Platão em sua obra A República.

Maquiavel escreveu sobre o mundo como ele é, e não como deveria ser. Escreveu sobre como o homem se comporta, e não como ele deveria se comportar.

O filósofo italiano parece nos dizer que a forma como a humanidade conduz assuntos políticos é reflexo de uma natureza humana violenta, cruel e traiçoeira.

E o poder, mais do que qualquer outra coisa, expõe a verdadeira natureza do homem.

Sua principal obra, O Príncipe, é fruto de sua experiência como diplomata a serviço da República Florentina. A forma fria e cruel como Maquiavel aconselha o governante parece coisa de uma “alma maquiavélica”, entretanto, é apenas reflexo de tudo o que Maquiavel presenciou.

Bertrand Russel chegou a afirmar que O Príncipe, é um manual para gangsters (fazendo aqui uma referência à máfia italiana). Mas, hipocrisias à parte, a história nos ensina que o poder é mantido através de alianças interesseiras e assassinatos.

Maquiavel aconselha o  governante sobre como ele deve proceder caso queira manter-se no poder. Simples assim.

Ética e moral devem ser deixadas de lado, afinal, não são coisas que combinam com o poder. Quanto à natureza humana, Maquiavel não se ilude: ela é perversa, cruel e traiçoeira, e qualquer um que almeje o poder deve aceitar esse fato.

Para não ser traído, o governante deve acreditar que todos são traidores e, antes de ser amado, ele deve ser temido.

Política e religião

Apesar de se dizer cristão, Maquiavel também não se ilude quanto à religião. Ela serve ao poder, e não o contrário.

Isso não é um “achismo” de filósofo excêntrico, pois, o próprio Maquiavel presenciou quando, durante a Conspiração Pazzi, o Arcebispo de Pisa foi jogado pela janela vestido com todos os paramentos eclesiásticos e uma corda no pescoço.

A ordem foi dada pelo governante de Florença após descobrir que o arcebispo participava da conspiração da família Pazzi para assassinar integrantes da família Médici e tomar o poder.

Até mesmo o Papa Sisto XV (que encomendou a famosa Capela Sistina) estaria envolvido. É útil ao governante que o povo acredite em representantes de Deus, mas se o próprio governante acreditar nisso, pode acabar assassinado.

Nicolau Maquiavel e a natureza humana

Maquiavel escreve a partir de um determinado contexto histórico, mas, convenhamos, a coisa não mudou muito de lá pra cá.

Durante séculos a obra de Maquiavel foi lida como um manual por governantes, líderes e mais recentemente por executivos realistas. Até mesmo Mussolini fez uma introdução para uma edição de O Príncipe.

Infelizmente, muitos desses leitores ignoram sua principal mensagem filosófica. Devemos nos questionar se ainda queremos ser assim ou se podemos mudar a natureza humana. Se quisermos mudá-la, claro.

Maquiavel já foi acusado até mesmo de ser o demônio em pessoa, entretanto, acusamos os outros porque não gostamos assumir nossas responsabilidades, como diria Sartre.

É mais fácil acusar alguém de demônio do que aceitar que, se a natureza humana for como acredita Maquiavel, nem o demônio conseguiria ser pior do que nós. Podemos acusar Maquiavel de tudo, menos de hipocrisia ou ingenuidade.

Autor: Alfredo Carneiro

Editor do netmundi.org