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Eletrodoméstica: quando nos tornamos máquinas

“Habitualmente, o rosto de outro homem se apresenta em torno de nós como uma simples coisa sentido a mais. O chofer de táxi dá a impressão de ser um prolongamento mecânico do carro; a dona de casa como um momento a mais da limpeza e da arte culinária; o professor como um ornamento da escola; o soldado como um membro do exército…Parece difícil isolar o outro homem de seu sistema onde se encontra inserido. É então um ente; é parte de sistemas. Todavia há momentos em que se nos apresenta, se nos revela em toda sua exterioridade. Como quando de repente o chofer do táxi se apresenta como amigo e nos diz: Como vais? A pergunta inesperada surgida de um horizonte de entes causa impacto em nós: Alguém aparece no mundo! “

– Enrique Dussel, filósofo argentino

O texto acima consegue traduzir o curta-metragem “Eletrodoméstica” de forma poética e filosófica. “Eletrodoméstica” mostra uma dona de casa que é “um momento a mais da limpeza”, faz parte de sistemas, não é uma pessoa, mas uma engrenagem. Ela se integra e se confunde com as máquinas. Torna-se também máquina. Estamos rodeados por tecnologia, carros, celulares, TV, internet. Nos tornamos parte desse sistema e nos confundimos com ele, desaparecemos nele. O mau humor característico das grandes cidades ocorre, muitas vezes, quando somos forçados a abandonar a tecnologia ou quando ela nos falha.

Como rebelar-se? Dussel aponta um caminho: surgir no mundo para alguém, dialogar. Acenar para o lixeiro, dar bom dia para o carteiro, oferecer um copo d´água como faz a mulher do filme. A cena em que a dona de casa leva água para um homem que aparece em sua porta é o momento em que ela se torna humana, em que deixa de ser máquina, “eletrodoméstica”.

O conforto tecnológico nos isola, mas o diálogo face a face exige algo mais, algo que a tecnologia não pode dar. No diálogo contamos apenas com nós mesmos, e utilizamos nossa capacidade de julgar e compreender que ainda são inatingíveis tecnologicamente.Neste aspecto, dialogar é transcender toda a parafernália diária que nos dá suporte e nos isola.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc