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Como treinar seu dragão?

Como Treinar seu Dragão

Minha impressão sobre o primeiro filme “Como Treinar seu Dragão” foi que o dragão é um simbolismo para nossos recursos interiores mais profundos. Esse “dragão interior” causa o conflito entre nosso dever como cidadão e nossos desejos e instintos.  De fato, não podemos fugir de certas regras que tornam o convívio em sociedade possível.

O dragão representa uma força primitiva

Como Treinar seu Dragão

Temos um contrato social, como diriam Thomas Hobbes e John Locke. Porém o dragão representaria uma força primitiva que abafamos em nome de todo um processo civilizatório. Ele acaba tornando-se fonte de angústias. É aquele sentimento de vida perdida, de trabalho em vão. É uma voz que “baila no ar”, diria Raul Seixas. Mas se, como acreditava Freud, é impossível conciliar as imposições da civilização e os instintos primitivos, o que podemos fazer?

No segundo filme minha impressão se confirmou. “Vi nos olhos do dragão minha própria alma”, afirmou um dos personagens que se afastou para viver de forma primitiva. A cidade de Berk, por sua vez, conseguiu conciliar os dragões com a vida em comunidade. Essa seria, para mim, a proposta utópica do filme: uma sociedade inteira que conciliou a vida em comunidade e a força primitiva representada pelos dragões.

Jung e Freud afirmaram que o homem que se desliga de suas forças inconscientes torna-se neurótico e doente. De certa forma, o cidadão domesticado das grandes cidades é cheio de temores, por isso Nietzsche acusou a modernidade de nos tornar covardes e animais de rebanho. Olhando para nossas grandes cidades, parece que a maioria das pessoas perdeu essa conexão. Isso acaba apontando para a conclusão pessimista de que, atualmente, apenas uma elite de pessoas consegue equilibrar essas forças antagônicas dentro do homem.

Eragon e a elite de cavaleiros de dragões

Eragon

Esse tema foi explorado no filme Eragon, onde apenas uma elite de homens podiam dominar dragões. Eram chamados cavaleiros de dragões e se comunicavam mentalmente com eles. Em Eragon, se o cavaleiro morre o dragão morre, mas se o dragão morre o cavaleiro vive sem essa ligação mágica. Torna-se triste e vive das lembranças de quando voava unido ao seu dragão. É uma clara alusão ao inconsciente.

É também um simbolismo que se encaixa no cidadão urbano, deprimido, assustado e desconectado. Entre a cidade utópica de Berk e a elite de cavaleiros de dragões de Eragon repousa o mito do dragão como força interior. Comunicar-se com o dragão é conseguir o acordo entre consciente e inconsciente. Jung chamou esse processo, que leva o homem ao conhecimento de si mesmo, de individuação.

Algumas linhas esotéricas, como a de Gurdjieff, afirmam que tal conexão só pode ser atingida através de um trabalho árduo, tanto físico quanto interior. Entretanto, nos dois casos, trata-se de um processo conseguido por pouquíssimas pessoas, enfim, parece ser algo elitista.

Como Treinar seu Dragão x Eragon

Soluço, o personagem principal do filme “Como Treinar seu Dragão”, acredita que todos podem dominar seus dragões.  Mas Eragon sugere que apenas uma elite pode conseguir isso (como o super homem de Nietzsche). Infelizmente (ou felizmente) apenas alguns conseguem essa proeza. São aqueles que não acreditaram no mito da modernidade e resolveram seguir seus próprios valores, mesmo vivendo dentro do necessário contrato social.

Esta dificílima habilidade de conciliar o contrato social com as forças primitivas do homem sugere, por si só, a constituição de uma elite. E esta elite reconhece sua distância em relação à maioria das pessoas, tal como no simbolismo do cavaleiro de dragão que voa alto e observa a população. Como voam em grandes alturas, raramente são vistos por nós. E quando são avistados, raramente são compreendidos pelo cidadão urbano, temeroso e limitado.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc