{"id":541,"date":"2014-09-19T01:15:32","date_gmt":"2014-09-19T01:15:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/?p=541"},"modified":"2023-02-02T12:31:02","modified_gmt":"2023-02-02T12:31:02","slug":"a-metafisica-em-platao-e-aristoteles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/a-metafisica-em-platao-e-aristoteles\/","title":{"rendered":"A metaf\u00edsica em Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Andr%C3%B3nico_de_Rodes\" target=\"_blank\">Andr\u00f4nico de Rodes<\/a> organizou a obra de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Arist%C3%B3teles\" target=\"_blank\">Arist\u00f3teles <\/a>no S\u00e9culo I a.C, reunindo um grupo de manuscritos em que o fil\u00f3sofo grego investigava as <em>causas primeiras<\/em>, a <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Metaf%C3%ADsica\" target=\"_blank\">metaf\u00edsica<\/a> j\u00e1 ocupava lugar de destaque na hist\u00f3ria da filosofia ocidental. <\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%B3crates\" target=\"_blank\">S\u00f3crates<\/a>, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Plat%C3%A3o\" target=\"_blank\">Plat\u00e3o<\/a> e Arist\u00f3teles foram considerados os respons\u00e1veis pela ruptura com os <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pr%C3%A9-socr%C3%A1ticos\" target=\"_blank\">pensadores da <em>physis<\/em><\/a>, que buscavam os fundamentos da natureza em um elemento f\u00edsico primordial. Os fil\u00f3sofos metaf\u00edsicos, como <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Martin_Heidegger\" target=\"_blank\">Heidegeer<\/a> os chamava, <strong>passaram a buscar os fundamentos da realidade em um mundo al\u00e9m dos sentidos, percebido apenas pela raz\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa filosofia primeira (<em>prot\u00e9 philosoph\u00eda<\/em>, como a chamava Arist\u00f3teles), passou a ser chamada de <strong>metaf\u00edsica<\/strong> (<em>metaphisik\u00e9<\/em>) por Adr\u00f4nico de Rodes para classificar os estudos de Arist\u00f3teles sobre os objetos transcendentais, como Deus, a alma e o mundo, sendo conhecida por esse nome desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A metaf\u00edsica n\u00e3o visa um fim pr\u00e1tico, mas o conhecimento dos princ\u00edpios ou causas primeiras. <strong>Sendo uma ci\u00eancia que tem um valor em si mesma, n\u00e3o dependendo de resultados pr\u00e1ticos, \u00e9 superior a todas as outras<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Arist\u00f3teles acreditava que a filosofia primeira, a metaf\u00edsica, era um conhecimento superior a todos os outros por pertencer aos deuses. <strong>Sendo os deuses imortais e al\u00e9m da condi\u00e7\u00e3o humana, esta ci\u00eancia seria tamb\u00e9m superior a todas as demais ci\u00eancias<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Mas \u00e9 imposs\u00edvel que a Divindade seja ciumenta (na realidade, como diz prov\u00e9rbio, \u201cos poetas proferem muitas mentiras\u201d), nem tampouco devemos supor que qualquer outra forma de conhecimento seja mais preciosa do que essa, pois o que \u00e9 o mais divino, \u00e9 o mais precioso. Ora, s\u00f3 existem duas maneiras nas quais a ci\u00eancia pode ser divina. Uma ci\u00eancia \u00e9 divina se for caracteristicamente posse da divindade, ou se disser respeito a assuntos divinos. E somente essa ci\u00eancia preenche essas duas condi\u00e7\u00f5es, pois todos creem que a Divindade seja uma das causas e um tipo de princ\u00edpio e que a Divindade \u00e9 quem possui exclusiva ou principalmente esse tipo de conhecimento. Consequentemente, ainda que todas as demais ci\u00eancias sejam mais necess\u00e1rias do que essa ci\u00eancia, nenhuma \u00e9 melhor do que ela. (ARIST\u00d3TELES, 2006, p.49)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 metaf\u00edsica deveu-se, em grande parte, ao <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ser\" target=\"_blank\">problema do Ser<\/a> que Plat\u00e3o acreditava n\u00e3o ter sido superado pelos fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos. Como posso afirmar que aquilo que era madeira \u00e9 agora carv\u00e3o? O que define o Ser de algo? Se esse algo se modifica constantemente, ent\u00e3o o Ser tamb\u00e9m se modifica?<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Her%C3%A1clito\" target=\"_blank\">Her\u00e1clito <\/a>prop\u00f4s o Ser como eterno devir, um constante vir a ser, como <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.netmundi.org\/pensamentos\/2014\/01\/heraclito-2\/\" target=\"_blank\">o mesmo homem que nunca se banha no mesmo rio<\/a>. Outros fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos, como <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tales_de_Mileto\" target=\"_blank\">Tales de Mileto<\/a>, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anaximandro\" target=\"_blank\">Anaximandro<\/a>, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anax%C3%ADmenes_de_Mileto\" target=\"_blank\">Anax\u00edmenes <\/a>e <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Di%C3%B3genes_de_Sinope\" target=\"_blank\">Di\u00f3genes<\/a> sustentaram que o princ\u00edpio da natureza seria um elemento f\u00edsico, como o fogo, a terra, a \u00e1gua e o ar. <strong>Grande parte do que hoje sabemos sobre esses fil\u00f3sofos devemos ao registro de Arist\u00f3teles, como o que segue<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>A maioria dos primeiros fil\u00f3sofos concebeu apenas princ\u00edpios materiais para todas as coisas. Aquilo que todas as coisas consistem, de que procedem primordialmente, e para o que, por ocasi\u00e3o de sua destrui\u00e7\u00e3o, s\u00e3o dissolvidas em \u00faltima inst\u00e2ncia, permanecendo a ess\u00eancia, ainda que modificada por suas afec\u00e7\u00f5es \u2013 isso, dizem, \u00e9 um elemento em princ\u00edpio das coisas existentes. (ARIST\u00d3TELES, 2006, p.49).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/plat\u00e3o-1.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1150\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"204\" src=\"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/plat\u00e3o-1.jpg\" alt=\"Plat\u00e3o\" class=\"wp-image-1150\" srcset=\"https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/plat\u00e3o-1.jpg 600w, https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/plat\u00e3o-1-300x102.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Plat\u00e3o (427 a.C &#8211; 347 a.C)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Entretanto, <strong>Plat\u00e3o n\u00e3o acreditava que o conhecimento que nos chega atrav\u00e9s dos sentidos pudesse fornecer um caminho seguro para atingir a causa primeira de todas as coisas<\/strong>. Dessa forma, a ess\u00eancia de algo n\u00e3o estaria vinculada a um elemento f\u00edsico, como afirmavam os pr\u00e9-socr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entre os primeiros fil\u00f3sofos, Anax\u00e1goras foi aquele a quem Plat\u00e3o atribui a sugest\u00e3o de um elemento ordenador da natureza, um princ\u00edpio inteligente do cosmos<\/strong>. Por\u00e9m, tanto Arist\u00f3teles quanto Plat\u00e3o criticaram Anax\u00e1goras por n\u00e3o explorar esse princ\u00edpio com mais profundidade, ainda que tenha exercido forte influ\u00eancia sobre esses dois fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos. Anax\u00e1goras manteve-se na busca por um elemento f\u00edsico que fundamentava a natureza.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Ora, eis que um dia ouvi a leitura de um livro que era, segundo se dizia, de Anax\u00e1goras, e onde se dizia o seguinte: \u201c\u00c9 o esp\u00edrito que, de modo definitivo, tudo p\u00f4s em ordem; \u00e9 ele a causa de todas as coisas\u201d. Tal causa constituiu uma alegria para mim; parecia-me que, havia sentido em fazer do esp\u00edrito uma causa universal. (PLAT\u00c3O, 2007, p.77-78)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Eis que, ao contr\u00e1rio do que esperava, foi-se a maravilhosa esperan\u00e7a! Distanciei-me logo dela enormemente. Ent\u00e3o, avan\u00e7ando na leitura, descubro um homem que nada faz do Esp\u00edrito, que n\u00e3o lhe atribui nenhum papel nas causas particulares da ordem das coisas, alegando, ao contr\u00e1rio, a este prop\u00f3sito, a\u00e7\u00f5es do ar, do \u00e9ter e dando numerosas outras explica\u00e7\u00f5es desconcertantes. (PLAT\u00c3O, 2007, p.79)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Desta forma, a metaf\u00edsica ir\u00e1 surgir com Plat\u00e3o para superar as limita\u00e7\u00f5es dos primeiros fil\u00f3sofos, que se mantiveram na busca de um princ\u00edpio f\u00edsico da natureza<\/strong>. Esse princ\u00edpio, conforme S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles afirmaram, seria <strong>transcendente<\/strong> e n\u00e3o estaria na realidade sens\u00edvel ou no mundo f\u00edsico, ainda que Arist\u00f3teles efetue, posteriormente, uma cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica de seu mestre, a metaf\u00edsica ainda mant\u00e9m sua caracter\u00edstica transcendental.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa nova abordagem tornou-se t\u00e3o significativa para o pensamento ocidental que hoje podemos afirmar que nossa forma racional de pensar encontra suas origens na metaf\u00edsica cl\u00e1ssica iniciada por Plat\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teoria_das_ideias\" target=\"_blank\">mundo das ideias<\/a>, simbolicamente retratado por Plat\u00e3o no&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Alegoria_da_Caverna\" target=\"_blank\">mito da caverna<\/a>, representa a mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas<\/strong>. Com ele, surge a ideia de um mundo espiritual que d\u00e1 origem ao mundo f\u00edsico. Esse mundo espiritual seria acess\u00edvel apenas por meio do racioc\u00ednio e da eleva\u00e7\u00e3o do pensamento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s ideias primordiais que originam o mundo f\u00edsico, sendo a nossa realidade apenas a sombra dessa realidade verdadeira, origin\u00e1ria e espiritual.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Pois agora, meu caro Glauco, \u00e9 s\u00f3 aplicar com toda a exatid\u00e3o esta imagem da caverna a tudo o que antes hav\u00edamos dito. O antro subterr\u00e2neo \u00e9 o mundo vis\u00edvel. O fogo que o ilumina \u00e9 a luz do sol. O cativo que sobe \u00e0 regi\u00e3o superior e a contempla \u00e9 a alma que se eleva ao mundo intelig\u00edvel. Ou, antes, j\u00e1 que o queres saber, \u00e9 este, pelo menos, o meu modo de pensar, que s\u00f3 Deus sabe se \u00e9 verdadeiro. Quanto \u00e0 mim, a coisa \u00e9 como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo intelig\u00edvel est\u00e1 a ideia do bem, a qual s\u00f3 com muito esfor\u00e7o se pode conhecer, mas que, conhecida, se imp\u00f5e \u00e0 raz\u00e3o como causa universal de tudo o que \u00e9 belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo vis\u00edvel, autora da intelig\u00eancia e da verdade no mundo invis\u00edvel, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos neg\u00f3cios particulares e p\u00fablicos. (PLAT\u00c3O, 1956, p.291)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa ser\u00e1 a \u201c<a href=\"http:\/\/platon.hyperlogos.info\/node\/736\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">segunda navega\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d de Plat\u00e3o, que representa um esfor\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao mundo das ideias perfeitas. A \u201cprimeira navega\u00e7\u00e3o\u201d, efetuada pelos pr\u00e9-socr\u00e1ticos, seria uma investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica realizada com a ajuda dos ventos e voltada para a <em>physis<\/em>, como um barco a vela. Na calmaria do mar sem ventos, \u00e9 necess\u00e1rio esfor\u00e7o f\u00edsico para remar. <strong>Da mesma forma, Plat\u00e3o prop\u00f5e um esfor\u00e7o do pensamento para atingir o mundo das causas primeiras<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A metaf\u00edsica de Plat\u00e3o, entretanto, \u00e9 unilateral. Isso significa dizer que a ess\u00eancia das coisas \u00e9 propriamente espiritual, sendo este mundo apenas uma sombra do verdadeiro mundo das ideias. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essa ser\u00e1 a cr\u00edtica que Arist\u00f3teles, disc\u00edpulo de Plat\u00e3o, far\u00e1 \u00e0 metaf\u00edsica de seu mestre<\/strong>. Arist\u00f3teles enfatiza que, da mesma forma que os primeiros fil\u00f3sofos acreditaram que a causa primeira seria um elemento f\u00edsico, Plat\u00e3o acreditava que causa primeira seria absolutamente espiritual: o mundo das ideias.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/aristoteles-motor-imovel.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1120\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"310\" src=\"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/aristoteles-motor-imovel.jpg\" alt=\"Arist\u00f3teles Motor Im\u00f3vel Deus\" class=\"wp-image-1120\" srcset=\"https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/aristoteles-motor-imovel.jpg 600w, https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/aristoteles-motor-imovel-300x155.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Arist\u00f3teles (384 aC &#8211; 322 a.C)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Arist\u00f3teles ir\u00e1 desenvolver uma metaf\u00edsica conciliadora em que a subst\u00e2ncia ou ess\u00eancia das coisas (<em>ous\u00eda<\/em>) \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o de forma e mat\u00e9ria (<em>s\u00ednolo<\/em>). <strong>N\u00e3o apenas uma subst\u00e2ncia f\u00edsica como afirmavam os pr\u00e9-socr\u00e1ticos, e n\u00e3o apenas uma subst\u00e2ncia espiritual como afirmava Plat\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Arist\u00f3teles prop\u00f5e que a mat\u00e9ria participa da subst\u00e2ncia, da mesma forma que a madeira necessita da forma da cadeira para que exista uma cadeira. A cadeira \u00e9 um <em>s\u00ednolo<\/em> (composi\u00e7\u00e3o) de mat\u00e9ria e forma. Mat\u00e9ria, forma e <em>s\u00ednolo<\/em> s\u00e3o subst\u00e2ncias. <\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa dizer, contra Plat\u00e3o, que a cadeira (enquanto objeto f\u00edsico) n\u00e3o \u00e9 apenas o reflexo de um mundo espiritual (de uma ideia de cadeira que reside no mundo das ideias). A mat\u00e9ria \u00e9 necess\u00e1ria para a presen\u00e7a da cadeira e, sendo assim, a mat\u00e9ria tamb\u00e9m participa da subst\u00e2ncia (<em>ous\u00eda<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, \u00e9 importante informar que a cadeira, em si, n\u00e3o esgota a subst\u00e2ncia. Por mais que a cadeira deixe de existir (sua madeira se desfa\u00e7a) ainda assim existe a ideia (forma) de cadeira que permite que existam outras cadeiras. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se essa ideia ou forma n\u00e3o existisse, n\u00e3o poder\u00edamos considerar subst\u00e2ncias aquilo que encontra-se apenas em um mundo intelig\u00edvel, como Deus e a alma.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Da\u00ed, ao definir a natureza de uma casa, os que a descrevem como pedras, tijolos e madeira, descrevem a casa em pot\u00eancia, j\u00e1 que essas coisas s\u00e3o sua mat\u00e9ria; os que a descrevem como \u201crecipientes para conter utens\u00edlios e corpos\u201d, ou alguma outra coisa, com id\u00eantico objetivo, descrevem a casa em ato, ou seja, sua realidade. Entretanto, os que combinam essas duas defini\u00e7\u00f5es, descrevem um terceiro tipo de subst\u00e2ncia, a que \u00e9 composta de mat\u00e9ria e forma. (ARIST\u00d3TELES, 2006, p.218)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para aprofundar essa quest\u00e3o, Arist\u00f3teles ir\u00e1 criar uma hierarquia das subst\u00e2ncias, onde a forma ou ideia ocupa a posi\u00e7\u00e3o mais elevada. No n\u00edvel intermedi\u00e1rio est\u00e1 o <em>s\u00ednolo<\/em>, e no n\u00edvel mais inferior da subst\u00e2ncia encontra-se a mat\u00e9ria. Assim, a mais elevada das causas \u00e9 uma subst\u00e2ncia imaterial.<\/p>\n\n\n\n<p>Prosseguindo na especula\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, <strong>Arist\u00f3teles chegar\u00e1 ao Motor Im\u00f3vel, causa primordial de todas as coisas e para onde todas as coisas tendem. \u00c9 um motor, pois move todas as coisas, mas n\u00e3o \u00e9 movido por mais nada. \u00c9 im\u00f3vel, pois se fosse sujeito \u00e0s leis do movimento, como as coisas da natureza, nasceria e pereceria como tudo na natureza. \u00c9 eterno pois sempre existiu.<\/strong> Da mesma forma que o ser amado atrai o amante, o Motor Im\u00f3vel atrai todas as coisas sem esfor\u00e7o. Os fil\u00f3sofos crist\u00e3os medievais ir\u00e3o se apropriar desse conceito aristot\u00e9lico para criar argumentos racionais a favor da exist\u00eancia de Deus<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o cabe aqui explorar os v\u00e1rios outros aspectos da metaf\u00edsica aristot\u00e9lica, que s\u00e3o muitos, uma vez que o objetivo deste texto \u00e9 demonstrar a import\u00e2ncia da metaf\u00edsica para o pensamento dos fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos, sendo ela o ponto fundamental de ruptura com os fil\u00f3sofos da <em>physys<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse pensamento metaf\u00edsico tornou-se a caracter\u00edstica marcante da <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">civiliza\u00e7\u00e3o ocidental<\/a>, influenciando tanto a hist\u00f3ria da filosofia quanto a cultura e a ci\u00eancia do ocidente. A filosofia medieval deve a Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles os grandes debates ocorridos nesse per\u00edodo da hist\u00f3ria da Europa, e a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Idade_Moderna\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Era Moderna<\/a>, atrav\u00e9s de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ren%C3%A9_Descartes\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Descartes<\/a>, dar\u00e1 prosseguimento \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica que surgiu na Gr\u00e9cia Antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 somente com <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Immanuel_Kant\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Immanuel Kant<\/a> que a metaf\u00edsica sofrer\u00e1 uma cr\u00edtica contundente que ir\u00e1 influenciar os fil\u00f3sofos posteriores. Para Kant, nosso conhecimento \u00e9 recebido pelos sentidos, enquanto que os objetos da metaf\u00edsica est\u00e3o al\u00e9m dos sentidos e, portanto, al\u00e9m de nossa capacidade de compreend\u00ea-los. N\u00e3o podemos, ent\u00e3o, provar racionalmente a exist\u00eancia de Deus ou falar sobre a imortalidade da alma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Immanuel Kant (1724-1804)<\/h2>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/immanuel-kant.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"268\" src=\"http:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/immanuel-kant.jpg\" alt=\"Immanuel Kant\" class=\"wp-image-1147\" srcset=\"https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/immanuel-kant.jpg 600w, https:\/\/www.netmundi.org\/filosofia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/immanuel-kant-300x134.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Tanto Plat\u00e3o quanto S\u00f3crates e os fil\u00f3sofos medievais \u2014 e at\u00e9 mesmo Descartes, fil\u00f3sofo da modernidade \u2014 tentaram provar racionalmente a exist\u00eancia de Deus e da alma. Contudo, Kant afirma que a metaf\u00edsica n\u00e3o pode ser chamada de ci\u00eancia, como afirmaram os fil\u00f3sofos antes dele, uma vez que suas investiga\u00e7\u00f5es est\u00e3o al\u00e9m de qualquer conhecimento emp\u00edrico.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do ataque radical que a metaf\u00edsica sofreu com Kant, ainda assim parece resistir como algo inerente aos seres humanos, por mais que n\u00e3o possa ser chamada de ci\u00eancia. Nossa disposi\u00e7\u00e3o natural para a metaf\u00edsica \u00e9 uma conclus\u00e3o do pr\u00f3prio Kant.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Quanto \u00e0 metaf\u00edsica, em raz\u00e3o de seu pequeno progresso e da dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a sua principal finalidade, podemos dizer que toda ela tem sido v\u00e3, e com isso tamb\u00e9m se explica a incerteza de sua possibilidade e exist\u00eancia.&nbsp;Todavia, essa esp\u00e9cie de conhecimento pode ser tida como dada em algum sentido, e, assim, embora n\u00e3o como ci\u00eancia, a metaf\u00edsica \u00e9 real como disposi\u00e7\u00e3o natural (metaphysica naturalis). N\u00e3o sendo alimentada pela simples vaidade da erudi\u00e7\u00e3o, mas impelida por sua pr\u00f3pria necessidade, a raz\u00e3o humana progride por demais at\u00e9 quest\u00f5es que n\u00e3o podem ser respondidas por nenhum uso da raz\u00e3o na experi\u00eancia, nem por princ\u00edpios da\u00ed tomados de empr\u00e9stimo, e desse modo sempre houve alguma metaf\u00edsica nos seres humanos, e continuar\u00e1 a existir verdadeiramente quando a raz\u00e3o se estender neles at\u00e9 a especula\u00e7\u00e3o. (KANT, 2009, p. 22-23)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Autor<\/strong>:&nbsp;<em><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.netmundi.org\/home\/quem-sou\/\" target=\"_blank\">Alfredo Carneiro<\/a>&nbsp;<\/em>\u2013 Graduado em Filosofia e p\u00f3s-graduado em Filosofia e Exist\u00eancia pela Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>ARIST\u00d3TELES. Metaf\u00edsica. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2006.<\/li>\n\n\n\n<li>PLAT\u00c3O. A Rep\u00fablica. S\u00e3o Paulo: Atena, 1956.<\/li>\n\n\n\n<li>KANT, Immanuel. Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2009.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Andr\u00f4nico de Rodes organizou a obra de Arist\u00f3teles no S\u00e9culo I a.C, reunindo um grupo de manuscritos em que o fil\u00f3sofo grego investigava as causas primeiras, a metaf\u00edsica j\u00e1 ocupava lugar de destaque na hist\u00f3ria da filosofia ocidental. S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles foram considerados os respons\u00e1veis pela ruptura com os pensadores da physis, que buscavam os fundamentos da natureza em um elemento f\u00edsico primordial. Os fil\u00f3sofos metaf\u00edsicos, como Heidegeer os chamava, passaram a buscar os fundamentos da realidade em um mundo al\u00e9m dos sentidos, percebido apenas pela raz\u00e3o. Essa filosofia primeira (prot\u00e9 philosoph\u00eda, como a chamava Arist\u00f3teles), passou a ser chamada de metaf\u00edsica (metaphisik\u00e9) por Adr\u00f4nico de Rodes para classificar os estudos de Arist\u00f3teles sobre os objetos transcendentais, como Deus, a alma e o mundo, sendo conhecida por esse nome desde ent\u00e3o. A metaf\u00edsica n\u00e3o visa um fim pr\u00e1tico, mas o conhecimento dos princ\u00edpios ou causas primeiras. Sendo uma ci\u00eancia que tem um valor em si mesma, n\u00e3o dependendo de resultados pr\u00e1ticos, \u00e9 superior a todas as outras. Assim, Arist\u00f3teles acreditava que a filosofia primeira, a metaf\u00edsica, era um conhecimento superior a todos os outros por pertencer aos deuses. Sendo os deuses imortais e al\u00e9m da condi\u00e7\u00e3o humana, esta [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4335,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[192,64],"tags":[7,95,196,40],"class_list":["post-541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-filosofia-antiga-2","category-metafisica","tag-aristoteles","tag-metafisica-2","tag-platao","tag-socrates"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A metaf\u00edsica em Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles - netmundi.org<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A metaf\u00edsica ocupa um lugar de destaque na hist\u00f3ria da filosofia ocidental. 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