FILOSOFIA

O que é Panteísmo?

Panteísmo - Introdução e conceitos

Panteísmo é uma perspectiva filosófica que afirma que Deus e a natureza são uma só coisa. Tudo o que existe seria desdobramento de um mesmo Ser; modos de existência de uma única substância, não criação ex nihilo (“do nada”). O termo foi cunhado no século XVIII pelo historiador Jacques de la Faye, mas entrou para a história da filosofia por ser a perspectiva filosófica de Baruch Espinosa, que criou o termo Deus sive Natura (“Deus, ou seja, a Natureza”). O físico Albert Einstein dizia que, quando se referia a Deus, falava especificamente sobre “o mesmo Deus de Espinosa”. A palavra panteísmo é oriunda do grego pan (“tudo”) e theos (“deus”).

Para Espinosa, Deus é condição necessária para a existência, contudo, a ideia da criação “do nada” não seria condizente com a perfeição divina, pois pressupõe a natureza separada do criador, ou seja, Deus seria um Ser transcendente e imaterial que criou a realidade material; um Ser ocioso que criou o universo por sentir falta de algo quando tudo era o vazio.

O filósofo afirma que não há diferença entre Deus e natureza; o mundo não teria sido criado por Deus, mas é extensão dele mesmo, que é imanente, não transcendente. Deus é o conjunto de todas coisas e cada coisa em particular; não está separado da matéria, pois é parte indissociável dela. Nunca existiu um início da criação assim como nunca existirá um fim, já que a realidade é imanência de um Ser eterno.

Da mesma forma, não haveria separação entre mente e corpo ou matéria e espírito. Tudo seria variação de uma única substância. Essa concepção de Espinoza foi denominada panteísmo racional ou monismo de substância. Foi uma resposta ao dualismo de substância de Descartes que afirma a separação entre entre o “eu” (substância finita) e Deus (substância infinita). Segundo Espinosa, Deus deve corresponder à unidade de todas as coisas, não estando nada fora dele, portanto, essa separação seria incoerente.

O panteísmo apresenta semelhanças com as formas mais antigas de religiosidade, que através dos ritos sazonais e interpretação de eventos naturais buscam se relacionar com seus deuses. É o caso do xamanismo de vários povos, do taoismo chinês, das religiões africanas, do hinduísmo indiano e do xintoísmo japonês. Para essas religiões, a natureza não é exterior aos deuses, mas algo que compõe um todo sagrado que está em eterna transformação. Essa perspectiva é conhecida como panteísmo religioso.

Existe um debate sobre as relações entre panteísmo, monoteísmo e politeísmo, pois a ideia de Deus como “o todo da realidade” conduziria à ideia de um só Deus, não sendo condizente com a crença em vários deuses, entretanto, como ocorre no hinduísmo, os deuses são entendidos como modos de existência de um mesmo Ser supremo, o que estaria de acordo com a noção de imanência do panteísmo. Assim, o panteísmo pode se conciliar tanto com o monoteísmo quanto com o politeísmo.

O panteísmo é considerado heresia pelas religiões abraâmicas, fato que condenou à fogueira o teólogo e filósofo Giordano Bruno em 1600 por afirmar que o universo era infinito. Para a Igreja, somente Deus é infinito, sendo sua criação finita. Assim, a inquisição entendeu que o teólogo defendia uma heresia igualando Deus ao universo. Espinosa, por sua vez, foi excomungado e expulso de sua comunidade religiosa na Holanda em 1656 devido às suas ideias.

Atualmente, o panteísmo racional é utilizado para pensar a ideia de Deus fora das representações religiosas, tal como fez Albert Einstein ao conciliar suas teorias científicas com a filosofia de Espinosa, aceitando a ideia de Alma do Universo e negando concepções religiosas. O filósofo Friedrich Nietzsche também se aproximou do panteísmo em sua noção de Eterno Devir, inspirada no antigo filósofo grego Heráclito.

AutorAlfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.

Referência Bibliográfica


  1. BURTT, Edwin A. As bases metafísicas da ciência moderna. Brasília: UnB, 1983.
  2. ESPINOSA, Baruch. Pensamentos metafísicos e outros textos. São Paulo: Abril Cultural,1983.
  3. SCHOPKE, Regina. Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

Navegue pelo netmundi.org