FILOSOFIA

O que é Etnocentrismo?

O que é Etnocentrismo?

O Etnocentrismo é um modo de pensar que estabelece uma cultura como modelo ideal, servindo como parâmetro para outras culturas e sociedades. Este modelo ideal é entendido como superior em todos os aspectos, sejam culturais, raciais ou religiosos. Na Era Moderna, o etnocentrismo foi a base da distinção entre “povos primitivos” e “povos civilizados”, contudo, essa perspectiva tem raízes mais antigas.

O filósofo grego Aristóteles, por exemplo, acreditava que os “povos bárbaros” eram beneficiados ao serem escravizados pelos gregos, conforme escreveu em sua obra Política:

A natureza mostra sua intenção ao fazer diferentes os corpos dos livres e aqueles dos escravos; os corpos destes são vigorosos para os trabalhos, e os daqueles úteis para a vida política. Portanto, é manifesto que há alguns que por natureza são livres e outros escravos, e que para estes é a escravidão coisa proveitosa e justa.

Nossos aristocratas pensam ser bem nascidos não só entre si, mas em todas as partes, ao passo que os bárbaros nobres só o são em seu país, de sorte que haveria algo assim como uma nobreza e liberdade absoluta e outra relativa.

Ao longo da história, argumentos semelhantes foram utilizados como justificativa para a conquista militar, conversão religiosa e colonização de povos considerados “inferiores”. Desde os gregos, passando pelo Império Romano e impérios europeus — e mais recentemente por potências militares como os EUA — a essência do etnocentrismo é a mesma: diante da diversidade do mundo, uma determinada sociedade se apresenta como modelo ideal, seja de raça, cultura ou religião.

Apesar da argumentação de superioridade, o etnocentrismo sempre esteve relacionado com o poder econômico. Assim, em praticamente todos os casos de conquista e colonização (e a despeito dos argumentos sobre “salvar povos inferiores”), a real motivação é sempre a mesma: riquezas naturais e mão de obra escrava.

Este foi o caso da conquista dos Maias e Astecas. Ainda que esses povos tivessem impressionantes conhecimentos de urbanismo, arquitetura, engenharia e astronomia, foi estabelecido pelos espanhóis que eram selvagens e precisavam ser apresentados ao “verdadeiro Deus”, afinal,  seus templos pagãos estavam cheios de ouro, prata e pedras preciosas. O mesmo argumento etnocêntrico — com a mesma intenção econômica — foi utilizado pelos portugueses durante a colonização do Brasil para escravizar os povos nativos e africanos. Os exemplos são muitos, e mesmo hoje o senso comum está permeado de argumentos baseados no etnocentrismo.

Em seus aspectos filosóficos, o etnocentrismo é a negação do outro, do diferente, da alteridade. Isso gera uma visão distorcida do mundo que produz intolerância, pois tudo o que vem do diferente é considerado errado, primitivo, inferior, pecaminoso, herético, etc. Nesse caso, mesmo que o diferente não represente ameaça alguma, é depreciado pelo fato de não compartilhar as mesmas características e crenças de algum grupo social. Por isso o etnocentrismo tem relação estreita com o racismo, a xenofobia, a eugenia e a intolerância religiosa.

Para o filósofo Emmanuel Lévinas, esse tipo de negação do outro é ingenuidade, pois está fundada na ideia de que todos devam se adequar a mim. Como o etnocentrismo é um raciocínio centrado em si mesmo, não há possibilidade de aceitar o diferente. Nas palavras de Lévinas, esta é a “conversão do Outro no Mesmo” (o mesmo que eu). René Descartes, de modo semelhante,  afirmou que “devemos conhecer outras culturas, para que não achemos ridículo aquilo que contraria nossos hábitos, como fazem aqueles que nada viram”.

Etnocentrismo e Relativismo Cultural

Relativismo cultural é um conceito da antropologia moderna que aponta para a evidente diversidade dos povos e se opõe ao etnocentrismo. No relativismo cultural não é a “verdade” que é relativa, mas os valores de cada cultura, religião ou grupo social. 

Em outras palavras: o relativismo cultural afirma que não há cultura superior ou povos superiores; visa demonstrar a importância de cada cultura, evitando a hierarquização e comparação dos povos, tal como ocorreu no passado e ainda ocorre atualmente. É considerado postura indispensável a qualquer pesquisador que pretenda estudar culturas diferentes da sua.

Apesar do relativismo cultural valorizar as características de cada povo, seus defensores enfrentam desafios éticos internos, como justificar costumes locais violentos e até atrozes. A solução para esse dilema, entretanto, não estaria na dominação, afinal, a história mostrou que dominações são formas de exploração. Todavia, ainda que cada cultura deva ser preservada, deveríamos nos perguntar se não existiriam ideais humanos inalienáveis e universais, como a não aceitação da violência desnecessária contra qualquer ser humano.

AutorAlfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.

Referências Bibliográficas


  • ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Abril S/A, 1973.
  • DESCARTES. Discurso Sobre o Método. São Paulo: Hemus, 1972.
  • SCHOPKE, Regina. Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

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