FILOSOFIA

Memento mori: “Lembra-te que morrerás”

Memento mori - lembra-te que morrerás

Memento mori é uma expressão latina que pode ser traduzida como “lembra-te que morrerás”. Suas origens remontam ao início do cristianismo e ao estoicismo, corrente de pensamento que tornou-se popular durante o Império Romano até o ano 529, quando o imperador Justiniano ordenou o fechamento de todas as escolas filosóficas visando a unificação do império através da religião cristã.

A origem da expressão estaria ligada a um relato atribuído ao escritor cristão Tertuliano (160 – 220) sobre um general vitorioso que, durante seu retorno triunfal, teria designado um assessor ou escravo para ficar sussurrando “Respice post te. Hominem te memento”, cuja tradução literal seria “Olhe após você, lembre-se de que és um homem”, para que a lembrança da frágil condição humana não permitisse que o poder, a glória e a vaidade prejudicassem sua conduta, seu pensamento e sua vida após a morte. Posteriormente, durante o período medieval, a expressão memento mori foi utilizada por monges cristãos como forma de saudação.

Seus fundamentos filosóficos, contudo, são atribuídos aos filósofos estoicos que, no final da Idade Antiga, desenvolveram numerosas reflexões sobre a morte e sua relação com a ética e o desenvolvimento das virtudes, influenciando grande parte da filosofia, da arte e da arquitetura medieval. Desta forma, ainda que memento mori seja uma expressão nascida e utilizada durante e Idade Medieval, ficou mais associada ao estoicismo.

O estilo Vanitas do século XVI (Vanitas, em latim, significa vaidade ou futilidade) é considerada uma típica arte memento mori: enfatiza em suas obras caveiras, objetos quebrados, frutas podres e ampulhetas como forma de lembrar a efemeridade da vida. Neste mesmo período, era comum a fabricação de joias e anéis memento mori. A imagem clássica da caveira sobre um velho livro, bem como algumas catedrais medievais, visam a “lembrança da morte” como forma de direcionar nossa conduta moral.

Memento mori: origens filosóficas


Os filósofos mais influentes do estoicismo durante o período romano foram Sêneca, Epiteto e o imperador Marco Aurélio, que enfatizaram a relação entre a morte e a ética. Há ainda a suposição de que Sêneca teria trocado cartas com Paulo de Tarso. Sendo isso verídico ou não, muitos comentaristas concordam que o estoicismo influenciou o cristianismo nascente.

Longe de ser uma ideia sombria, para os estoicos, a lembrança constante da morte é o que garante a tranquilidade da alma e o pleno desenvolvimento da razão. Os prazeres, a vaidade, a futilidade, a ganância e até mesmo a felicidade são ilusões que prejudicam a razão e a quietude da alma. Sendo uma corrente filosófica e espiritual, acreditava-se que a razão humana fora dada pelos deuses em prol do bem comum. Por isso, desperdiçar a vida com ilusões seria desonrar nossas qualidades divinas.

A razão é aquilo que o ser humano tem de mais natural e fácil de usar, enquanto que as ilusões são antinaturais e, por isso mesmo, prejudicam o pensamento. As várias reflexões sobre a morte, feitas pelos estoicos, visam dissipar as ilusões e cultivar as virtudes, como estas de Marco Aurélio em sua obra Meditações:

“Não conduzas tua vida como se tivesses dez mil anos à frente. A vida é curta e a fatalidade está sempre próxima. Faz o melhor com teu presente. Enquanto vives e podes, seja bom.”

“Que cada ação, cada palavra, cada pensamento teu ocorram quando estiveres consciente de que teus dias podem ter fim a qualquer momento.”

“É função de nossa razão aprender com que rapidez tudo se esvai; como as formas corpóreas são consumidas e a memória parte com as marés dos anos. Assim são todas as coisas, especialmente as que nos seduzem ou apavoram. Ou, ainda, a vaidade que alardeia em nossos ouvidos.”

“Necessita de pouco, seja gentil e franco; evite o exagero e a conversa fútil. Não vês quantas virtudes podes mostrar, pelas quais não estás incapacitado? O que te conduz é a vontade de reclamar, de te vangloriar dos problemas, de desgraçar teu corpo com teus erros. Não, pelos deuses, deverias estar livre desses vícios há muito tempo. É tua culpa seres lento e estúpido de compreensão […] Vais morrer e, ainda assim, não alcançaste a simplicidade e a calma. Não aprendeste a ser gentil ou a lidar apenas com a sabedoria.”

Sêneca também fez muitas reflexões sobre a morte, que para ele é capaz de trazer percepção plena do que vale a vida. Desta forma, o filósofo transforma um assunto ligado ao pessimismo e à tristeza em vigor, otimismo e quietude.

“É difícil, dirás, levar o espírito a desprezar a vida. Mas tu não vês como, continuamente, ela é desprezada por motivos fúteis?”

“Muitos há que andam miseravelmente à deriva entre o medo da morte e os tormentos da vida, sem querer viver nem saber morrer.”

“Se queres ter um vida agradável, deixa de te preocupares com ela. Anima-te, pois, e ganha coragem contra aquilo que é inevitável mesmo aos mais poderosos.”

Essas são apenas algumas das numerosas reflexões que atravessam toda a literatura do estoicismo.

No cristianismo, memento mori tem o objetivo de lembrar a transitoriedade da vida e a ação correta de acordo com as Escrituras tendo em vista a salvação da alma após a morte. No estoicismo, ainda que existam considerações sobre o que ocorre após a morte, a “lembrança da morte” é voltada para o cultivo das virtudes, da razão, e da quietude. Reflexões sobre a morte teriam a função ajudar a cultivar atitudes justas, simples e racionais. Diferente do cristianismo, o estoicismo tem uma perspectiva panteísta, todavia, ainda que suas visões espirituais sejam diferentes, seus efeitos práticos se aproximam.

Tanto no estoicismo quanto em qualquer corrente espiritual ou ética, a lembrança da morte busca evitar o desperdício da vida com pensamentos, atitudes e coisas desnecessárias. Essa lembrança também indica que todo sofrimento irá acabar, e que, dentre as poucas coisas importantes, estão a bondade, a tranquilidade e o raciocínio claro.

AutorAlfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.

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