FILOSOFIA

O poder simbólico da Mitologia Grega

Mitologia Grega e seu poder

A mitologia grega foi registrada pelo poeta Homero, nas obras Ilíada e Odisseia, e por Hesíodo, na Teogonia. Homero compilou séculos de tradição oral da Grécia Antiga, sendo o próprio poeta personagem misterioso. Hesíodo, por sua vez, é autor dos poemas que narram o nascimento dos deuses. O mito era a forma de interpretação da realidade não apenas dos gregos, mas de todos os povos antigos.

Os mitos foram as primeiras tentativas da humanidade de compreender o mundo. Todas as civilizações antigas basearam suas culturas em narrativas sobre as relações entre homens e deuses, como as civilizações grega e egípcia. Aquilo que denominamos mitologia correspondia a uma verdade intuída expressa de forma simbólica, algumas muito sofisticadas.

Um exemplo disso é o mito de Atena, deusa da sabedoria e da justiça nascida da cabeça de Zeus, que literalmente abriu sua cabeça para retirar Atena. Fica implícito nesse mito que a sabedoria e a justiça nascem da cabeça — lugar da reflexão e do pensamento.

A mitologia grega exerceu poderosa influência no ocidente. Na Roma Antiga foi adaptada e no Renascimento inspirou vários artistas. A chegada da modernidade, contudo, não diminuiu sua importância. Poetas, filósofos e cientistas frequentemente recorrem aos mitos gregos para exporem suas ideias, como Albert Camus, Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche.

Albert Camus e o mito de Sísifo


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“Sísifo”, quadro do pintor renascentista Tiziano, 1549

O filósofo franco-argelino Albert Camus recorreu ao mito de Sísifo para retratar a condição em que a modernidade se encontra, comparando nossa vida cotidiana à condenação que os deuses deram a Sísifo por sua desobediência.

Nesse mito, Sísifo é obrigado a empurrar uma enorme pedra para o alto de uma montanha e, ao chegar ao cume, a pedra rola novamente montanha abaixo e Sísifo deve descer e trazê-la de volta. Esse processo se repete eternamente.

Os deuses devem ter dado este castigo a Sísifo por entenderem que não existe condenação pior que o trabalho inútil“. Tal é a interpretação de Albert Camus sobre o mito de Sísifo, fazendo uma comparação com a vida e o trabalho sem sentido de nosso tempo.

Freud e os mitos de Édipo e Narciso


Mito de Narciso
A obra Narcissus, de Caravagio (1561-1610) retrata o mito de Narciso, que narra a história de um jovem que se afoga hipnotizado pela própria imagem.

A modernidade fundada por Descartes estabeleceu o “eu” como constituinte do mundo e a razão como soberana, mas Sigmund Freud declarou que a razão nunca esteve no comando, pelo contrário, é marionete de forças irracionais. Para demonstrar sua tese, Freud recorreu aos mitos para ilustrar o funcionamento do inconsciente.

O pai da psicanálise utilizou o mito de Édipo para simbolizar a atração do filho pela mãe e o mito de Narciso para exemplificar o egoísmo excessivo. Segundo Freud, somos movidos por sexo, ódio e paixão, temas largamente explorados pelos mitos.

Nietzsche e os deuses Apolo e Dioniso


apolíneo e dionisíaco
Esculturas dos deuses Apolo e Dioniso, filhos de Zeus: segundo Nietzsche, os irmãos representam lados antagônicos e complementares da natureza humana.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche afirmou que a razão moderna é “aleijada”. Recorrendo aos mitos gregos, Nietzsche afirmou que a natureza humana é formada pela dualidade razão e desrazão, comparando-a com os irmãos Apolo e Dioniso: um é beleza e limite, o outro é embriaguez e loucura.

O homem moderno, contudo, nega seu lado irracional. Como isso é impossível, torna-se doente, moralista e medíocre. O homem saudável, idealizado por Nietzsche, é aquele que concilia essas duas forças, o que lhe confere razão inspirada.


A mitologia grega tem importância especial para o homem moderno, pois faz parte das bases culturais da Grécia Antiga, berço da civilização ocidental. Por isso o estudo da mitologia corresponde à exploração de si mesmo e dos fundamentos de nossa cultura, além de representar de forma poética os dramas humanos universais.

AutorAlfredo Carneiro


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