FILOSOFIA

Filosofia da Linguagem: Wittgenstein e outros autores

Filosofia da Linguagem - introdução

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A Filosofia da Linguagem é o ramo da Filosofia que investiga as relações entre mundo, pensamento e linguagem. O sentido das palavras, desde os primeiros pensadores, sempre ocupou um papel importante nas reflexões filosóficas. Contudo, foi somente a partir do século XX que a Filosofia passou a considerar a linguagem como uma investigação filosófica fundamental. Se antes ela era secundária, servindo como base para as reflexões, a partir da Era Contemporânea ela tornou-se o tema principal.

Não se trata apenas de compreender contextos históricos, sociais e culturais para, a partir disso, investigar o significado e sentido das palavras. Se trata também de compreender os limites da linguagem; das tentativas de exprimir pensamentos e, finalmente, se é o sujeito que determina a linguagem e não o contrário.

O que intriga os pensadores, muito além do mero “problema de comunicação”  — como os conflitos pessoais, políticos e religiosos causados pelas diferenças de sentido das mesmas palavras  — é se a linguagem pode mesmo dizer algo acerca do mundo e ser compreendida conforme a intenção daquele que tenta se comunicar

Cada pessoa possui um mundo particular que tenta inutilmente transmitir aos outros? Que tipo de mundo é comunicado pelos diferentes tipos de linguagem, como poesia, filosofia, religião, ciência, literatura, cinema e outras? Os  pensamentos que tentamos transmitir não são distorcidos pela linguagem do grupo no qual vivemos? Qual é, então, a linguagem adequada?

Para o filósofo austríaco Wittgenstein —  um dos mais notáveis autores da Filosofia da Linguagem —  estamos tão somente jogando ingenuamente jogos de linguagem que funcionam apenas inseridos em determinada interpretação social da realidade, e que muito provavelmente não é a própria realidade. Wittgenstein, em sua investigação da linguagem, foi ainda mais longe, afirmando que os problemas filosóficos são, na verdade, problemas de linguagem.

Dizer que nossa linguagem não funciona fora da realidade linguística na qual vivemos não é meramente afirmar o óbvio, mas sim dizer que os limites de nossa linguagem são também os limites de nosso pensamento.

Esta ideia, muito explorada na Filosofia da Linguagem, de certa forma está de acordo com a observação que o escritor Aldous Huxley fez sobre as tradições linguísticas em seu famoso livro As Portas da Percepção:

Cada indivíduo é a um só tempo beneficiário e vítima da tradição linguística na qual nasceu —  beneficiário, na medida em que a língua lhe dá acesso ao registro acumulado da experiência das outras pessoas, e vítima, na medida em que a língua confirma a crença de que a consciência reduzida é a única consciência, confundindo o sentido de realidade.

A filosofia da linguagem de Wittgenstein se divide em duas fases. A primeira, influenciada pelo seu mestre Bertrand Russell e marcada pela investigação dos limites lógicos da linguagem, exposta em sua obra Tratado Lógico Filosófico. E a segunda, em que o filósofo discorda de sua primeira fase, e cria o conceito de jogos de linguagem em sua obra Investigações Filosóficas. Essas fases são conhecidas como “primeiro Wittgenstein” e “segundo Wittgenstein”.

Lógica, mundo e linguagem


Filosofia da Linguagem: linguagem, lógica e mundo

A ideia de que os problemas da filosofia carregam problemas de linguagem não é algo novo. Os filósofos Leibniz e Espinosa já percebiam a confusão no uso das palavras. E antes deles, Platão, Aristóteles e os filósofos medievais (através do Problema dos Universais) também investigaram esse problema.

Todavia, a chamada “virada linguística” da filosofia ocorreu somente a partir do século XX, quando alguns filósofos se voltaram para a tentativa de estabelecer um sistema lógico formal que retratasse a realidade do mundo de forma precisa e racional. Esse movimento, representado principalmente por Wittgenstein, Bertrand Russell e Frege, ficou conhecido como Filosofia Analítica.

Uma das principais características da linguagem —  segundo Wittgenstein em sua primeira fase —  é que, de um lado, temos o mundo com sua multiplicidade de fatos, e de outro, uma linguagem que tenta falar sobre esse mundo. Assim, necessariamente existe algo em comum entre o mundo e a linguagem: a forma lógica. Consequentemente, as frases da linguagem comum podem ser reescritas em proposições lógicas para serem analisadas. A partir disso, se verifica a falsidade ou veracidade do que foi dito.

Entretanto, para Wittgenstein, só podemos considerar as proposições que espelham os fatos do mundo, como por exemplo, dizer que “o vaso está sobre a mesa”. Isso está de acordo com a teoria figurativa desse filósofo, que afirma que cada nome de uma proposição deve possuir uma referência na realidade, ou seja, nossa linguagem deve figurar algo no mundo. Qualquer coisa diferente disso, como falar sobre nomes que não podem ser apontados, significa dizer coisas sem sentido. Sobre isso, afirma Wittgenstein:

Representar na linguagem algo que contradiga as leis lógicas é tão pouco possível quanto representar uma figura que contradiga as leis do espaço”.

Todavia, para o primeiro, Wittgenstein, as coisas que não podem ser ditas não significa que não existam, mas sim que qualquer discurso sobre elas está além da linguagem. A isso se aplicaria, por exemplo, discursos religiosos, éticos ou místicos. Deste modo, a linguagem se limita ao que é factual, tal como ocorre com a biologia, a química e a física.

A possibilidade da existência de experiências interiores incomunicáveis é uma característica do pensamento do “primeiro Wittgenstein”, que não nega a existência dessas experiências, mas afirma categoricamente que, sobre elas, nada pode ser dito, pois o fato da linguagem ter seus fundamentos lógicos na realidade material é o que determina seus limites. Essa é a base das declarações mais conhecidas desse filósofo:

“O que se pode dizer, pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar, tem de ficar no silêncio.”

“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”

Como veremos a seguir, Wittgenstein irá criticar sua primeira fase, afirmando que se enganou ao acreditar que a linguagem possui apenas uma lógica possível, desenvolvendo a ideia de que não existe apenas uma linguagem, mas vários tipos de linguagem com lógicas próprias, abandonando a rigidez da lógica formal. Essa atitude o tornou um exemplo de honestidade intelectual na filosofia, pois não se importou em criticar a si mesmo e modificar suas ideias.

Contexto, pensamento e jogos de linguagem


Filosofia da Linguagem: Jogos de Linguagem

Pela experiência cotidiana, sabemos que a maioria das pessoas não se importa com questões linguísticas, vivendo de acordo com suas crenças locais e falando sobre elas de forma espontânea. Contudo, quando os indivíduos levam seus discursos para um cenário diferente — seja social, cultural ou religioso — eles não conseguem mais se comunicar de forma eficiente. Esse fato tem consequências mais complexas do que o mero problema de comunicação, pois trata-se também da limitação do próprio pensamento.

O conceito de jogos de linguagem, desenvolvido por Wittgenstein em sua segunda fase, tornou-se uma das ilustrações mais conhecidas desse problema. Dizer que nos comunicamos tal como ocorre com os jogos, significa dizer que existem várias linguagens governadas por regras próprias e contextualizadas.

Em um jogo de xadrez, por exemplo, os jogadores estão de acordo com as regras estabelecidas. Mas, se um dos jogadores quiser discordar radicalmente das regras, não existe mais jogo de xadrez. Pode-se até criar um novo jogo com novas regras utilizando as mesmas peças e o mesmo tabuleiro. Entretanto, definitivamente, não será mais xadrez, pois ele deixa de existir se não usamos as regras estabelecidas para ele.

O mesmo ocorre se alguém nos perguntar: “como se usa uma bola?”. Nossa resposta dependerá dos jogos que usaremos de exemplo, como futebol, vôlei ou basquete. Ou mesmo algum jogo inventado na hora. Com as palavras ocorre o mesmo, pois elas não teriam sentido universal, mas sim um uso que fazemos delas dentro das regras de um jogo de linguagem.

Se eu uso a palavra “santo”, posso me referir a algum personagem bíblico ou falar de alguém que considero bondoso. Mas também posso me referir a alguém que considero hipócrita ou até mesmo designar algum objeto. Tudo depende do uso que pretendo fazer dessa palavra dentro de um determinado contexto; a palavra em si não tem sentido se não estiver delimitada por alguma prática linguística. Esses exemplos podem parecer simples, mas se pensarmos nos aspectos sociais e culturais envolvidos, a questão assume grande complexidade.

Para o “segundo Wittgenstein”, a linguagem é uma vasta quantidade de práticas, cada uma com sua própria lógica. Nem todas as práticas linguísticas são argumentativas, como piadas, poesia, cinema, fábulas ou religiões, mas sim práticas com regras próprias. Esses discursos tem significados e fazem sentido dentro de seus contextos. Não existe, portanto, uma única lógica formal para a linguagem, como o filósofo supõe em sua primeira fase.

Da mesma forma, os grupos sociais jogam jogos de linguagem que não fazem sentido fora de suas regras. Essas regras também delimitam o pensamento dos integrantes desses grupos, pois o pensamento humano seria incapaz de ir além dos jogos de linguagem. Um indivíduo pode até navegar entre vários jogos de linguagem, mas não pode ir além dos jogos em si. Sobre isso, Wittgenstein afirma:

“Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.”

“Nos aprisionamos em nossos próprios jogos de linguagem.”

Apesar de delimitarem o pensamento, os jogos de linguagem tem uma função importante, pois permitem que integrantes dos grupos sociais, consigam se comunicar e agir de forma coerente e eficiente, ainda que essa coerência só faça sentido dentro das regras de cada grupo. Além do mais, as variadas práticas linguísticas revelam algo sobre as realidades dos grupos humanos, porém, como afirmado anteriormente, muitas coisas que são ditas não fazem sentido —  ou mesmo não existem —  fora de seus jogos de linguagem.

Assim, até mesmo a filosofia está aprisionada em seu próprio jogo de linguagem e não transcende suas regras. Nosso pensamento, da mesma forma, não vai além dos limites das práticas linguísticas, o que nos torna incapazes de falar sobre verdades absolutas ou universais — que sempre foi um dos objetivos fundamentais da filosofia. É por isso que se diz que Wittgenstein, na sua primeira fase, tentou matar a filosofia sem sucesso. Porém, na segunda tentativa, atingiu seu objetivo.

Filosofia da Linguagem: principais autores


Bertrand Russell


Filosofia da Linguagem: Bertrand Russel

Durante o século XX, o filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) foi considerado um dos intelectuais mais importantes de seu tempo. Sua influência não se faz presente apenas na Filosofia da Linguagem, da qual ele é considerado um dos pioneiros, mas também na matemática, na lógica, na literatura e na epistemologia.

Além disso, Russel militou politicamente em causas pacifistas e humanitárias. Pelo conjunto de sua obra, que inclui a publicação da História da Filosofia Ocidental , recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1950.

Inicialmente, Russel estava voltado para alguns paradoxos da matemática e da lógica. Seu interesse pela linguagem, principalmente dos problemas de linguagem na Filosofia, ocorreu depois que o filósofo (devido às suas pesquisas em lógica) se voltou para a epistemologia.

Russel era um empirista, e para ele toda informação que não viesse diretamente dos sentidos era passível de confusão. Da mesma forma, a linguagem deveria referir-se a realidade empírica. Na Filosofia, Russel acreditava que não poderíamos mais ser tão descuidados com a linguagem.

Sua abordagem foi chamada de atomismo lógico, uma vez que acredita que o mundo é composto de fatos lógicos que se refletem na linguagem e que podem ser separados e divididos até que se constate valores de verdade ou falsidade em um proposição.

Assim, uma proposição, para ser verdadeira, deve conter apenas argumentos válidos em suas “parte atômicas” constituintes. Um valor de falsidade na proposição significa que toda a proposição é falsa.

Por exemplo: a proposição “O atual Rei da França é careca”. Ao analisarmos a primeira parte da proposição, “O atual Rei da França”, percebemos que ela é falsa, pois não existe um atual Rei da França. Logo, não importa mais avaliar se o rei é careca ou não, pois toda a proposição já é falsa, uma vez que uma de suas partes constituintes é inválida.

Aplicada a uma pequena proposição, parece simples. Mas uma determinada filosofia é formada por várias proposições, que são seus argumentos encadeados à uma conclusão.

Então, se acreditarmos na lógica e sua relação com a linguagem e o mundo, conforme afirma Russel, todo um sistema filosófico deverá ser considerado duvidoso se apenas uma de suas proposições estiver falsa.

Sendo o Bertrand Russel um empirista, ele aconselha ainda que ao considerar qualquer filosofia devemos nos remeter tão somente aos fatos, evitando considerações distanciadas da realidade, conforme ele afirma em sua famosa entrevista para a BBC de Londres (assista o vídeo no link abaixo).

Imagine, por exemplo, que o sistema geocêntrico foi aceito por mais de mil e duzentos anos levando em consideração que o Sol gira ao redor da Terra.

Todo esse sistema, aceito por pensadores, cientistas e filósofos da época, foi considerado inválido pela simples falsidade de uma de suas principais premissas: o Sol não gira ao redor da Terra.

Imagine agora que Russel, sendo um empirista convicto, acredita que só podemos considerar verdadeiros os argumentos que são verificáveis de forma clara e sem dúvida alguma para todas as pessoas.

Consequentemente, argumentos metafísicos ou espirituais, bem como reflexões filosóficas distanciadas da realidade — ou mesmo argumentos que apelam para sentimentos — são passíveis de confusão e não devem ser considerados em uma filosofia rigorosa.

A verificação de verdade e falsidade de proposições também envolve um sistema formal chamado lógica proposicional, onde as partes atômicas constituintes são convertidas em símbolos e unidas por conectivos lógicos.

Ludwig Wittgenstein


O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) recebeu suas primeiras experiências em Filosofia de Bertrand Russel, o único que tinha um temperamento tranquilo o suficiente para aturar a personalidade insuportável e arrogante do jovem Wittgenstein, que atualmente é reconhecido como um dos grandes gênios criativos do século XX.

Russel não apenas suportou Wittgenstein e lhe ensinou pacientemente tudo o que sabia, mas também lhe apoiou de todas as formas na sua produção filosófica antevendo que o jovem gênio seria o prosseguimento de suas ideias. Este grande movimento filosófico iniciado por Russel, Wittgenstein e outros ficou conhecido como Filosofia Analítica, que tem entre as suas bases a Filosofia da Linguagem.

A Filosofia de Wittgenstein se divide em duas fases. A primeira onde ele expõe parte das ideias que desenvolveu com Bertrand Russel, ainda que existam discordâncias entre eles, representada pela sua obra Tractatus Lógico Philosophicus, e a segunda, onde o filósofo irá discordar dele mesmo e instaurar o seu conceito de “Jogos de Linguagem” na sua obra Investigações filosóficas.

A primeira fase de Wittgenstein é marcada pela investigação da relação entre mundo, linguagem e pensamento. Sua filosofia parte do pressuposto de que existe um paralelo entre a forma lógica da linguagem (sua sintaxe) e o mundo, uma vez que a linguagem precisa necessariamente refletir a totalidade dos fatos lógicos do mundo.

Essas ideias iniciais são semelhantes às de Bertrand Russel, utilizando também a análise lógica das proposições com o objetivo de estabelecer seus valores de verdade e falsidade. Porém, os dois filósofos têm sérias divergências, pois Russel dá primazia à experiência empírica enquanto Wittgenstein valoriza a lógica acima de tudo (pelo menos em sua primeira fase).

Para Wittgenstein a tarefa fundamental da filosofia seria “uma batalha contra o enfeitiçamento de nossa inteligência por meio da linguagem”, pois os problemas da Filosofia — assim como de boa parte de nossa vida cotidiana — são fundamentalmente problemas de linguagem e lógica.

Sem Filosofia “os pensamentos são vagos e indistintos” e sua tarefa seria justamente “esclarecê-los dar-lhes limites nítidos”. E como a linguagem está restrita aos limites impostos pelo mundo, não podemos dizer nada além desses limites — a não ser coisas sem sentido.

Uma das grandes questões para o filósofo austríaco é que, sobre assuntos que não podem ser “mostrados”, como Deus e a alma, nada pode ser dito. Isso não significa que essas coisas não existam, mas apenas que a linguagem, devido aos seus limites, não pode dizer nada acerca delas. Sobre isso Wittgenstein declara de forma enigmática: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”

Em sua segunda fase, Wittgenstein passa a tratar a linguagem como um jogo contextual com regras fixas, colocando em xeque as pretensões de verdade ou universalidade dos discursos.

O “Segundo Wittgenstein”, conforme ficou conhecida sua segunda fase, é uma surpreendente demonstração da honestidade intelectual do filósofo, pois ele irá discordar de vários pontos fundamentais de sua primeira obra.

Em sua segunda obra, Investigações Filosóficas, o filósofo apresenta seu conceito de Jogos de Linguagem, que procura demonstrar como a linguagem opera tal como os jogos, sendo restrita a regras altamente delimitadas de conceitos, sentidos e significados.

Contudo, a forma como as pessoas se comunicam, de maneira espontânea e inconsciente, as impedem de perceber que estão jogando jogos linguísticos. Isso não chega a ser um problema, pois esta delimitação e contextualização é uma característica da comunicação humana, mas representa também uma prisão (da linguagem e do pensamento) na qual os discursos filosóficos também estão aprisionados.

Este conceito já foi apresentado mais acima na sessão introdutória “Jogos de linguagem, contexto e pensamento”.

Wittgenstein elevou a Filosofia da Linguagem para um nível que lhe rendeu a fama de “o filósofo que matou a Filosofia”. O que se diz sobre suas duas fases é que, se o filósofo estava tentando matar a Filosofia em sua primeira tentativa, ele falhou, porém, na segunda vez teve sucesso.

Gottlob Frege


As ideias do filósofo alemão Gottlob Frege (1848-1925) são fundamentais para o desenvolvimento da Filosofia do século XX, podendo até mesmo serem consideradas o marco inicial da Filosofia Analítica, influenciando definitivamente a Filosofia da Linguagem.

Além disso, foi responsável por inovações conceituais no campo da lógica, da matemática e da epistemologia. Talvez por isso tenha declarado que “todo bom matemático tem um pouco de filósofo e todo bom filósofo tem um pouco de matemático”.

Sobre o Sentido e a Referência é seu mais conhecido trabalho, onde o filósofo questiona a relação de igualdade, sendo considerado praticamente um clássico da Filosofia da Linguagem. O artigo faz parte de seu livro Lógica e Filosofia da Linguagem.

Neste artigo Frege busca apontar questões sobre as mudanças de sentido que ocorrem quando falamos sobre a mesma referência, como por exemplo, referir-se a Aristóteles ora como discípulo de Platão e ora como Professor de Alexandre, o Grande.

Apesar da referência ser a mesma, que é o filósofo grego Aristóteles, o sentido (pensamento ou diferença cognitiva) é diferente. Esta ambiguidade, que pode parecer trivial, carrega um problema na relação de igualdade, principalmente no que tange à linguagem e à lógica.

No início de seu artigo Frege diz: “A igualdade desafia a reflexão, dando origem a questões que não são fáceis de responder. É ela uma relação? Uma relação entre objetos? Ou entre nomes e sinais de objetos?”

De fato, a partir da noção de sentido e referência, todo tipo de questionamento surge na linguagem comum. Como exemplo Frege diz em seu artigo: “As palavras ‘o corpo celeste mais distante da Terra’ têm um sentido, mas é muito duvidoso que também tenha uma referência”.

Nesse caso, temos um sentido sem um objeto de referência, o que pode produzir proposições inválidas (ou duvidosas, como afirma Frege). No exemplo de Russel que vimos anteriormente sobre a proposição “o atual rei da França é careca” acontece algo semelhante.

Da mesma forma, e ainda utilizando outro exemplo de Frege, “A referência de ‘estrela da tarde’ e ‘estrela da manhã’ é a mesma, mas não o sentido”. Nesse caso, a referência é o planeta Vênus, que observado pela manhã tem um sentido e no cair da tarde tem outro. Então, temos um mesmo objeto e dois sentidos, e cada sentido produz uma imagem diferente na mente; um pensamento ou ideia diferente.

O objetivo de Frege era criar uma linguagem artificial que eliminasse as ambiguidades e problemas da linguagem comum, aspirando assim à criação de uma linguagem rigorosa (que ele chamou de conceitografia) para as questões matemáticas, lógicas, filosóficas e científicas.

Independente dos desdobramentos das ideias de Frege — que exigiria um texto que extrapola a proposta introdutória deste post — foi sua abordagem analítica uma de suas principais influências.

Sua perspectiva matemática pode parecer com a filosofia de Descartes, que buscou trazer o rigor da matemática para a reflexão filosófica, contudo, trata-se de algo mais específico: da aplicação da exatidão matemática à linguagem.

John Searle


John Searle (1932 -) é um filósofo americano da tradição analítica que se destacou por enfatizar as relações entre Filosofia da Linguagem e Filosofia da Mente, apontando esta integração como indissociável.

Um dos pontos levantados por Searle é que a Filosofia da Linguagem, da forma feita por alguns filósofos, considera que os problemas filosóficos poderiam ser resolvidos apenas pelo esclarecimento da lógica e do significado das palavras.

Discordando abertamente desta perspectiva, Searle acredita que esse ponto de vista por demais lógico desconsidera que a linguagem é também resultado de características biológicas da mente, portanto, qualquer estudo acerca linguagem deve considerar a forma como a mente processa a realidade.

Isso não significa que o estilo analítico deva ser abandonado, mas sim que deva passar a considerar novos elementos, afinal, o rigor na clareza e na elucidação lógica de questões filosóficas é um dos maiores legados da Filosofia Analítica.

John Searle recebeu forte influência de Frege, graças ao estilo objetivo e claro, contudo, não pretende com isso apenas confirmar a concepção de Frege, mas sim acrescentar problemas que estavam sendo ignorados desde então.

De acordo com o filósofo americano, entre os problemas que a Filosofia da Linguagem deve considerar estão os problemas da relação mente-corpo, da consciência, da intencionalidade e da forma como nos expressamos naquilo que Searle denominou de “atos de fala”.

Searle também se destacou ao apontar erros em concepções científicas, em especial de cientistas da Inteligência Artificial, mostrando através de um experimento mental porque as máquinas nunca serão capazes de pensar tal como os humanos. Este argumento elaborado por Searle ficou conhecido como “Sala Chinesa”. Escrevi um post sobre este raciocínio de Searle, intitulado “Podem as máquinas pensar?” que foi utilizado em uma prova de concurso público do Tribunal de Justiça do Rio Grande Sul, para o cargo de técnico em informática. Links abaixo:

Considerações Finais


A Filosofia Analítica ganhou força como vertente filosófica contemporânea assumindo a tese de que a lógica criada por Frege e Russel poderia esclarecer ou mesmo solucionar os principais problemas da Filosofia.

Bertrand Russel, Gottlob Frege e Ludwig Wittgenstein são considerados os primeiros filósofos analíticos, voltados principalmente para investigação da linguagem. A Filosofia da Linguagem é uma das ramificações da Filosofia Analítica, e considera que a Filosofia não pode mais prosseguir sem considerar os fenômenos linguísticos.

Outros filósofos foram igualmente importantes para a Filosofia da Linguagem, entre eles Edward Moore, Rudolf Carnap e Willard Quine, mas expor aqui suas ideias tornaria o post muito extenso, perdendo seu caráter introdutório.

A presença do filósofo John Searle tem o objetivo de mostrar a relevância da Filosofia da Linguagem nos dia de hoje; sua relação com a Filosofia da Mente e sua abordagem analítica no tocante a temas polêmicos como a Inteligência Artificial.

AutorAlfredo Carneiro – Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília.

Bibliografia


  • ALSTON, W. Filosofia da Linguagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977.
  • THORNTON, T. Wittgenstein sobre linguagem e pensamento. Loyola, 2007.
  • TUGENHADT, E. Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem. Ijuí: Ed. Unijui, 1992.
  • WITTGENSTEIN. Tractatus logico-philosoficus. São Paulo:EDUSP, 1995.
  • WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas. Petrópolis: Vozes, 1996.
  • FREGE, G. Lógica e Filosofia da Linguagem. São Paulo: EDUSP, 2009


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