FILOSOFIA

Filosofia Medieval – introdução e principais filósofos

Filosofia Medieval: introdução e filósofos

A característica principal da Filosofia Medieval é a experiência humana fundamentada na existência do sagrado. Essa perspectiva ficou conhecida como Quaestio Dei (Questão de Deus), que é a busca racional pela verdade que não se contradiz pela fé, mas, pelo contrário, lhe dá um novo sentido.

A Filosofia Medieval foi desenvolvida principalmente — mas não exclusivamente — na Europa durante a Idade Média (séculos V-XV).  Para o filósofo dessa época, Deus não seria apenas o fundamento do mundo, mas também se apresenta na vida cotidiana.

Outro ponto importante para a Filosofia Medieval são as argumentações puramente lógicas e racionais que têm por objetivo provar a existência de Deus.  É o caso, por exemplo, da argumentação ontológica de Anselmo de Cantuária.

É um grande desafio para o homem contemporâneo compreender os pensadores medievais, pois existem neles uma forte relação entre razão e religiosidade.

Tudo isso se contrapõe diretamente à filosofia puramente racional da Era Moderna, que separou a filosofia da teologia e da experiência mística — traços marcantes da produção filosófica da Era Medieval.

Devido a isso, a Filosofia Medieval causa estranhamento à mentalidade moderna, que entende os filósofos medievais como paradoxais ou simplesmente como religiosos em busca da afirmação racional de sua crença.

Atualmente, o senso comum sobre esse período e seu pensamento filosófico está carregado ou de um preconceito reducionista ou de uma valorização excessiva. Os dois casos podem nos levar a uma falsa interpretação.

Ler e conhecer os filósofos medievais


Texto Medieval

O ideal é, no que diz respeito à Filosofia, ler e compreender os textos dos próprios pensadores dessa época. Somente assim teremos uma visão pessoal, e não aquela mera opinião baseada no que os outros disseram — geralmente distorcida por tendências pessoais.

Não se trata de exigir a leitura de todas as obras produzidas durante mil anos. A simples leitura, por exemplo, de algumas folhas do livro Confissões, de Agostinho, pode levar o leitor a um passeio pelas ruas de Roma ao lado do filósofo e compartilhando seu espanto.

Escolher aleatoriamente uma página desta obra e fazer uma leitura despretensiosa já pode ser o suficiente para demolir falsas ideias ou confirmar o que já se sabia.

Naturalmente, o leitor vai aos poucos se interessando, pesquisando e lendo cada vez mais.

E vai também descobrindo que esses filósofos eram pessoas tão normais e cheias de dúvidas quanto nós mesmos.

Talvez seja um equívoco ler os filósofos medievais apenas por motivos religiosos, pois existem muitas outras razões para conhecer esses pensadores.

Talvez uma das mais interessantes motivações seja conhecer um filósofo que busca explicações racionais para o mistério da vida sem, contudo, abandonar a fé no sagrado e no insondável.

Se você não se interessa por religião — principalmente o cristianismo — ainda assim conhecerá na Filosofia Medieval pensadores racionais e sinceros. E essa é a característica fundamental de qualquer filósofo, seja ele ateu, agnóstico ou religioso.

Baseada nas obras desses pensadores, a Igreja ajudou a fundar as bases religiosas e culturais de nosso mundo ocidental.

Claro que, como qualquer instituição poderosa, a Igreja também cometeu graves erros — como os julgamentos de Giordano Bruno e Galileu Galilei, para citar apenas os mais conhecidos e registrados.

Era Medieval: um mundo distante que habita nossa intimidade


Era Medieval e Filosofia Medieval

Independente de posições religiosas ou filosóficas, quem faz uma análise sincera dos filósofos medievais acaba se surpreendendo, tanto pelo ponto de vista histórico quanto pela visão de mundo de uma época que é, na verdade, muito desconhecida pela maioria das pessoas.

Refletir sobre a Filosofia Medieval causa um estranhamento no homem contemporâneo. Mas, se este estranhamento nos levar a uma nova visão acerca de nós mesmos, esta reflexão poderá valer a pena, pois é sinal de que rompemos com o pensamento reducionista e simplório que os outros nos impõem.

Isso não quer dizer que o leitor irá finalmente conhecer a “grandeza” da Filosofia Medieval e dar razão a argumentos religiosos. Quer dizer apenas que o leitor irá encontrar algo diferente do que está habituado. E essa é uma boa oportunidade para observar nossos próprios hábitos modernos.

Além do mais, compreender os fundamentos do pensamento medieval é também conhecer as bases do nosso mundo ocidental.

A perspectiva cristã, o confronto com a filosofia “pagã” antiga, a forte presença do islamismo e do judaísmo formam o gigantesco mosaico da identidade cultural do ocidente. Tudo isso está muito presente na Filosofia Medieval.

Por isso tudo, a mera visão de uma Idade Média marcada pela ignorância e exploração do povo; pela inquisição e pelo envolvimento da Igreja com o poder político, corresponde à apenas uma parte da história. Ainda que seja verdade.

Grande parte desta má fama se deve aos filósofos iluministas que cunharam o termo Idade das Trevas — uma crítica ao poderio absoluto da Igreja e sua interferência em um mundo que já havia adentrado na Era Moderna.

Entretanto, quando deixamos de estudar a Era Medieval como uma época morta, e passamos a dialogar com os pensadores e culturas dessa época, surge um diálogo vivo que, surpreendentemente, não está tão distante assim do pensamento contemporâneo.

Isso nos leva a descobrir que este mundo medieval, exótico e distante, é também um mundo desconhecido que habita nossa intimidade.

Quanto mais o tempo nos distancia da Era Medieval, mais nos sentimos atraídos por ela — como pode ser observado na vasta produção cinematográfica e literária da atualidade.

Essa atração pode ser o reflexo da perda da relação com o sagrado que se iniciou na Era Moderna com Descartes. Não de um sagrado contido em alguma religião, mas no sentido de aceitação do mistério que se faz presente diariamente em nossas vidas.

E esse mistério sempre foi um fator fundamental para os pensadores medievais.

Era Medieval versus Era Moderna


Para refletir melhor sobre a Filosofia Medieval, é importante levar em consideração alguns fatores importantes que ajudam a contextualizar o leitor. São eles:

  • A Idade Média é uma invenção do homem moderno

Os homens a quem nos referimos como “medievais” não se pensavam como “medievais”. Idade Média, para o homem moderno, significa aquilo que está entre a Antiguidade e a Modernidade; ela faz transmissão da tradição ocidental e prepara a atmosfera em que surge a modernidade.

  • A Modernidade é uma invenção dos medievais

Todos nós somos medievais, por sermos modernos. A filosofia do século XVII (Descartes, Leibniz, Espinoza) não pode ser compreendida sem o legado da Idade Média.

Mesmo a ciência moderna (a de Galileu, Kepler, Newton, etc) nasce do horizonte de pensamento medieval: do nominalismo de Ockham, do projeto de uma ciência universal, que remonta a Raimundo Lúlio, da metafísica e física da luz de Roberto Grosseteste e de Roger Bacon etc.

  • O medieval é o nosso Outro

O período medieval (ou, como queiram, o homem medieval) é o nosso Outro, no sentido de Alteridade. O Outro causa estranheza, ele não cabe nos nossos parâmetros. O iluminismo o demonizou. O romantismo o idealizou. Podemos demonizá-lo ou podemos idealizá-lo. Podemos projetar sobre ele nossas próprias sombras ou podemos projetar sobre ele nossas próprias luzes. Difícil é deixá-lo ser o que ele é, com suas próprias luzes e suas próprias sombras.

  • O medieval nos traz uma percepção de nós mesmos

Quando estudamos os medievais, começamos a fazer uma autoanálise. Começamos a pensar o sentido de nossa própria história moderna.

Quem somos nós, os modernos? Qual o sentido de nosso projeto histórico? Em que medida somos uma mistura da Grécia Antiga e da Europa Medieval?

Filosofia Medieval: características fundamentais


Filosofia medieval: características fundamentais

Uma vez que nos entendemos claramente como indivíduos modernos que tentam compreender a Filosofia Medieval, cabe agora apresentar três características básicas desses filósofos. Estas características podem ser consideradas pontos fundamentais para a leitura e compreensão. São elas:

  • Razão e Fé

Na modernidade, Razão e Fé se separam. Os dois extremos dessa separação produzem o racionalismo de um lado e o fideísmo de outro.

O racionalismo é a ideologia da razão. Esta ideologia descarta a possibilidade de que haja outras formas de conhecimento e de verdade, que não sejam aquelas da razão científica.

O racionalismo é dogmático na compreensão da própria razão. Volta-se contra a metafísica, contra a religião e contra a ideia de uma revelação divina e de uma fé nessa revelação.

Em outras palavras, o racionalismo descarta que possa haver uma revelação divina e que esta revelação possa conduzir o homem ao conhecimento de verdades mais elevadas, que lhes são inacessíveis a partir de sua razão naturalmente conduzida.

O fideísmo é o oposto do racionalismo. O fideísmo é a ideologia da fé. Recusa todo empenho racional em relação à fé. Credo quia absurdum (creio porque é absurdo), segundo a frase (incorretamente) atribuída a Tertuliano.

O fideísmo relega a fé ao domínio do irracional, do emotivo, do sentimental. Tende ao fundamentalismo e à intolerância. Racionalismo e fideísmo são duas tendências fortes do homem moderno.

E o “medieval”? Podem ter havido tendências racionalistas e fideístas na Idade Média. Mas, na maioria dos casos, apostava-se na integração entre razão e fé.

Nesta tendência da Filosofia Medieval, se aposta que a razão não é eliminada com a fé na revelação, mas que ela é elevada a uma dimensão maior e mais ampla.

A razão natural é aberta, estruturalmente, para a revelação sobrenatural – assim pensavam os filósofos dessa época.

Entende-se, deste modo, que o dogma não fecha paredes para a razão, mas que ele lhe abre janelas. Por outro lado, se aposta que a fé não é irracional.

Ademais, não se evitava compreender racionalmente os mistérios da fé, ao contrário, se aplicava com todo afinco a tentar compreender racionalmente o que se podia.

Neste espaço, que não era estreito, mas largo, se podia jogar com as diferentes possibilidades da arte de raciocinar e argumentar, que é a dialética.

  • Autoridade e razão

As autoridades deviam servir de contraponto em toda investigação e debate. Não se fazia filosofia e teologia sem a tradição, sem diálogo com o passado (principalmente, no caso da Filosofia Medieval, com os gregos antigos)

Entretanto, mesmo com toda a veneração pela tradição e pelos antigos, o medieval não era propriamente subserviente às autoridades e nem apegado a um tradicionalismo estéril.

Tanto é que, nas questões disputadas, frequentemente seguia-se o método dialético, tornado normal por Pedro Abelardo, de contrapor as opiniões entre as diferentes autoridades e até de contrapor as opiniões de uma mesma autoridade.

O que decidia da validade a autoridade não era a mera opinião e sim a racionalidade do que se estava sendo colocado em debate.

Por outro lado, são muitas as correntes filosóficas e teológicas da Idade Média. Quem estuda a Filosofia Medieval depara-se com uma diversidade imensa, mesmo dentro de uma única e mesma fé, como a cristã.

Sem falar na diversidade e no diálogo entre outras culturas, como o judaísmo, islamismo.

  • Filosofia e Teologia

Filosofia e Teologia se distinguem, mas não se separam. A filosofia é o empenho autônomo de busca da verdade, que é iluminado pela razão. Teologia é o empenho de recepção da verdade, que é iluminado pela revelação.

A filosofia tem um momento teológico, à medida que ela se estrutura como metafísica: investigação sobre o Ser enquanto na sua totalidade (mundo) quanto do fundamento do Ser (Deus).

A teologia dos filósofos, porém, é uma teologia puramente racional.

Por outro lado, existe a teologia dos teólogos. Esta é o discurso acerca de Deus a partir da revelação divina e com base nos mistérios da fé anunciados na Bíblia.

Além disso, assim como há uma teologia dos filósofos, há uma filosofia dos teólogos. Os teólogos medievais — em grande parte — produziram especulações filosóficas bastante sofisticadas.

Patrística e Escolástica


Patrística e Escolástica

Apesar da Filosofia Medieval ser composta de quatro períodos  — Padres Apostólicos, Padres Apologistas, Patrística e Escolástica —, suas duas últimas fases são consideradas as mais importantes. Pelo menos em sua perspectiva filosófica.

Não se trata de desconsiderar as duas primeiras fases, porém, para efeito de pesquisa e estudo, as grandes produções filosóficas desse período (que se confrontam com as espetaculares filosofias de Platão e Aristóteles), ocorrem na Patrística e na Escolástica.

A Patrística corresponde à filosofia cristã que recebeu a influência de Platão, enquanto que a Escolástica corresponde àquela que recebeu a influência de Aristóteles.

Nesse ponto, não nos referimos apenas à de influência, mas também à cristianização da Filosofia Grega, que é entendida como uma filosofia que desenvolveu a razão até um nível de grande sofisticação. E por isso mesmo recebeu grande atenção dos pensadores medievais.

A Filosofia Medieval, portanto, pretendia principalmente conciliar a fé cristã com a razão grega, mostrando que fé e razão não são incompatíveis.

A Patrística foi desenvolvida a partir do século IV, e corresponde à produção dos filósofos considerados “pais da Igreja”. Por isso o nome Patrística (de Pater, pai em latim), sendo Agostinho seu principal representante.

Fé e razão se relacionam em uma hierarquia onde a razão, apesar de poderosa, tem um limite. A partir desse limite, o espírito precisa da fé, que irá iluminar a inteligência humana de uma forma que não é possível apenas com o uso da razão.

A Escolástica foi desenvolvida nos séculos IX e XVI, e também acreditava que razão e fé não são incompatíveis, contudo, seriam independentes (aqui ocorre uma clara discordância com a Patrística)

Através da razão poderíamos atingir algumas verdades fundamentais, como por exemplo, concluir que Deus existe mesmo sem fé ou religião alguma. A fé, por sua vez, pode nos mostrar realidades e sabedorias que a razão não pode atingir.

Porém, uma não depende necessariamente da outra. Tanto a fé quanto a razão possuem suas próprias sabedorias. O principal filósofo desse período foi Tomás de Aquino.

Principais Representantes da Filosofia Medieval


Santo Agostinho Deus

Abaixo você irá encontrar uma apresentação resumida, em ordem cronológica, dos principais pensadores da Filosofia Medieval.

Esta apresentação, contudo, não pretende detalhar a filosofia de cada um dos pensadores, pois isso fugiria da proposta introdutória do post.

O objetivo é informar quem são os mais conhecidos e citados filósofos para que você mesmo tenha uma boa referência de pesquisa.

Agostinho de Hipona (354-430)


Santo Agostinho

Agostinho de Hipona, vive em si mesmo o fim do mundo antigo com a desfragmentação do Império Romano. Ele é um homem que prepara a passagem da antiguidade para uma nova época, aquela que nós, modernos, chamamos de “medieval”. A característica fundamental de todo o seu pensamento é a Quaestio Dei (a Questão de Deus), que, em seu entendimento, é a própria busca da verdade e da felicidade.

Seu pensamento é marcado por um forte sentido existencial. Uma de suas principais obras, Confissões, é escrita em primeira pessoa (eu), diante de um Tu (Deus), e em comunhão com nós (os outros). Por isso, sua linguagem é, basicamente, a da “confissão”.

Confessar é, aqui, trazer à fala a alegria da libertação, que o homem experimenta na busca e no encontro da verdade. Por isso, a confissão é, em Agostinho, canto de louvor. A própria miséria da existência humana, experimentada no horizonte desta libertação cristã, se transfigura.

Até mesmo a culpa se torna “feliz culpa”, quando o homem experimenta a graça de uma verdade libertadora. E esta verdade libertadora Agostinho experimenta no horizonte da fé cristã.

É, pois, a partir deste horizonte cristão que Agostinho se apropria criticamente da Filosofia Grega, tornando-se um dos maiores pensadores da Filosofia Medieval.

Pseudo-Dionisio, o Areopagita (Século V)


Pseudo Dionísio, o Aeropagita

Depois de Agostinho, o segundo nome mais importante como fonte para o pensamento medieval é o do Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Sua influência se dá principalmente na mística cristã.

Na Idade Média, um conjunto de escritos, o corpus dionysiacum, teve uma alta relevância para a filosofia e teologia. Assim é chamado este conjunto de escritos, pois foi legado sob a autoria de Dionísio Areopagita, o filósofo convertido por Paulo em sua pregação no areópago em Atenas, na qual o Apóstolo anuncia aos gregos o “Deus desconhecido” (Atos dos Apóstolos 17, 17-34)

O verdadeiro autor destes escritos permanece-nos ignorado. Já Abelardo (1079 – 1142) levantou a dúvida sobre a autoria deles.

No século XV, por sua vez, Lorenzo Valla realizou de modo mais rigoroso uma crítica à autenticidade da autoria atribuída a Dionísio, o Areopagita.

Mas somente no século XIX é que a falsificação ficou provada. Daí o nome: Pseudo-Dionísio.

As pesquisas mais recentes corroboram a hipótese de que o autor do corpus dionysiacum teria vivido na virada do século V para o século VI, no espaço da Síria.

O corpus está escrito em grego. O autor promove uma síntese de neoplatonismo – ele é um herdeiro de Proclo (410 – 485) – e de especulação cristã. A obra aborda as possibilidades e os limites do conhecimento e do discurso humano sobre Deus.

Boécio (480 – 524)


Anício Mânlio Torquato Severino Boécio

Boécio nasceu em Roma e era de família nobre. Participou do governo de Teodorico, rei dos ostrogodos, mestre dos exércitos, que subiu ao poder no ocidente, no ano de 488, com o apoio do então Imperador Romano do Oriente, Zenão (474 – 491).

Boécio foi uma peça chave na transição do pensamento grego para a nova era que estava começando, o que nós chamamos de Idade Média.

Teodorico, o Grande confiou a Boécio a tarefa de promover a transmissão do saber antigo para a nova geração, mas também o nomeou para cargos administrativos e políticos.

De fato, Boécio chegou a ocupar o papel de cônsul e também o mais alto cargo do governo, o cargo de Mestre dos Ofícios. Mas caiu sobre ele a suspeita de conspiração com Constantinopla. Ele foi preso e depois morto, por ordem do rei.

Na prisão, ele compôs uma das obras mais célebres da literatura latina: A Consolação da Filosofia. O projeto da vida de Boécio foi mediar, como intérprete, a passagem da filosofia grega para a nova época,

João Escoto Eriúgena (810 – 877)


João Escoto Erígena

Foi como filósofo, e não tanto como teólogo, que João Escoto Erígena entrou para a história do pensamento medieval.

Seus grandes feitos foram: ter dado entrada no mundo latino, à tradição grega e ter apresentado uma concepção do Todo da realidade, na sua obra prima Da divisão da natureza, muito mais elevada no domínio da linguagem e do pensamento, do que toda outra obra de seu tempo.

Johannes Scotus Eriugena: assim era o seu nome para os medievais. Na literatura atual, ele é chamado ora de Erígena, ora de Eriúgena.

O seu nome diz a sua origem: Scotus significa que vem da Escócia; Eriúgena, ou Erígena, que ele vem da Irlanda (Eire, em irlandês).

Esta combinação – Scotus Eriugena – se explica pelo fato de a Irlanda ser chamada, naquele tempo, de Escócia Maior.

Sua atividade, porém, se dá na França, em Paris, sob o governo de Carlos, o Calvo.

Pedro Abelardo (1079-1142)


Pedro Abelardo

Pedro Abelardo (1079-1142) é aquele homem em que a modernidade do século XII  se faz visível. Pedro, o Venerável, o saudou como o Aristóteles de seu tempo.

Foi aluno de Roscelino de Compiègne, o grande representante do nominalismo do século XII e de Guilherme de Champeaux, que representava uma posição de extremo realismo na querela dos universais.

Os homens do século XII respiram ares de modernidade: já não se acham simplesmente como herdeiros dos antigos, mas também como iniciadores de algo novo.

Coisas novas vão acontecendo em todos os campos da vida destes homens. Por toda a parte sopram novos ares.

Podemos aqui citar: o surgimento do “amor cortês” em meio à aristocracia cavalheiresca; o renascimento urbano com o despontar das comunas; a importância das escolas catedrais, como a de Chartres e a de São Vitor e a reforma monástica dos cistercienses.

Outro fator de suma importância foi começo das traduções dos árabes e dos manuscritos gregos, que vão renovar o pensamento no século XIII com a redescoberta dos escritos de Aristóteles, que foi preservado pelo mundo árabe.

Ibn Ruchd ou Averróis (1126-1198)


Averróis

Averróis foi o filósofo do Islã de maior influência, mas também o mais contestado. Estudou direito, medicina e teologia. Foi juiz e médico. Nasceu e viveu em Córdoba.

Após sua atividade como filósofo, porém, foi exilado em Lucena (Elisama), seus livros foram queimados e morreu longe de sua terra natal, em Marrakesh.

Sua vocação aristotélica, porém, começou graças a um desejo do soberano Abu Yaqub Yusuf, que reclamava ao filósofo Ibn Tufayl do fato de Aristóteles ser incompreensível.

Ibn Tufayl já se sentia muito velho para pôr-se na empreitada de comentar Aristóteles.

Por isso, pediu ao seu mais brilhante aluno que o fizesse. E essa foi a missão da vida de Averróis, que a cumpriu de bom grado. Averróis foi chamado de “O comentador” de Aristóteles.

Maimônides (1135-1204)


Maimônides

O maior nome da filosofia judaica medieval é o de Maimônides. Moisés ben Maymun (Maimônides) nasceu em Córdoba, mas, devido às perseguições aos judeus, teve que se refugiar de cidade em cidade, até chegar ao Cairo.

Assim como Averróis, Maimônides tinha Aristóteles como o grau supremo do intelecto humano, só superado por aqueles que receberam a inspiração divina (os profetas).

Sua obra mais famosa se intitula Moreh Nebukhim, cuja tradução latina seria:  O Guia dos Perplexos, uma das culminâncias do pensamento medieval.

Impregnado de cultura muçulmana e enraizado na tradição judaica, consegue uma síntese teológica que ultrapassa a filosofia típica dos árabes e a teologia típica dos árabes e judeus. Procura expor o sentido da Torah e do Talmude, indo além de sua literalidade.

Tomás de Aquino (1225 – 1274)


O século XIII, no tocante aos estudos, é marcado pelo surgimento das universidades, pela implantação do método escolástico e pelo advento de Aristóteles. O maior expoente da escolástica deste tempo é Tomás de Aquino.

De 1150 a 1250 toda a obra de Aristóteles foi traduzida. Não somente o Organon, mas também os escritos de metafísica, de física, psicologia e ética. A recepção de seu pensamento começa pelos idos de 1200, especialmente na Universidade de Paris.

Tomás de Aquino nasceu em 1224, na Itália (perto de Nápoles). Foi educado com os beneditinos em Monte Cassino e estudou as Artes Liberais no centro imperial de estudos de Nápoles. Contrariando sua família, entrou para a Ordem dos Pregadores (a ordem mendicante dos dominicanos).

Estudou depois com Alberto Magno (1200- 1280) em Paris e em Colônia. Com este aprendeu a dedicar-se ao estudo de Aristóteles.

Tomás de Aquino se entende, antes de tudo como teólogo, mas nunca deixou de valorizar a Filosofia e afirmava que ela (a Filosofia) era autônoma em relação à teologia (ao contrário do que afirmava Agostinho, um dos primeiros filósofos medievais).

Boaventura de Bagnoreggio (1217-1274)


Boaventura de Bagnoregio

Para o franciscano Boaventura de Bagnoreggio (Nome de batismo: João de Fidanza) o conhecimento filosófico não pode ser cultivado em função dele mesmo.

Seria como parar no meio do caminho que leva até Deus. Se o homem permanece abandonado ao uso apenas da sua razão, ele fatalmente erra.

Pois, falando como teólogo, Boaventura adverte que a natureza humana foi corrompida pelo pecado e uma das consequências desta corrupção da natureza humana é a ignorância.

A natureza humana não se encontra em seu estado perfeito originário, mas em estado degenerado. A razão é como uma flecha que não consegue alcançar o seu alvo por si mesma.

A verdade plena, que a razão busca, só é encontrada quando a razão é iluminada pela verdade sobrenatural da revelação.

A revelação assume, porém, uma certa racionalidade. Por isso, a fé não se limita a acreditar, mas quer também compreender aquilo que acredita.

Ela se empenha com todas as forças da razão em compreender o sentido daquilo que crê e disso surge a teologia.

Entretanto, todo o empenho racional da razão no interior da teologia consiste na busca de se abrir à iluminação do alto. Todo o conhecimento vem de Deus e retorna para Deus.

Por fim, porém, o homem deve calar em si mesmo toda a voz da especulação e, no silêncio, reconhecer que o mistério de Deus está além de toda razão.

Mestre Eckhart (c. 1260-c. 1327)


Mestre Eckhart

No século XIV, a escolástica começa a perder sua influência. Contudo, a mística cristã mantém o seu vigor especulativo em alta.

O maior místico especulativo da Idade Média é o dominicano alemão Mestre Eckhart, herdeiro da herança neoplatônica da escola de Colônia, fundada por Alberto Magno.

Sua obra é escrita em parte em latim e em parte em alemão medieval. A obra latina é de caráter mais escolástico, já a obra alemã é de caráter místico.

Seu modo de dizer é ousado e, por isso, foi acusado de heresia. Quando algumas de suas teses foram condenadas, porém, ele já tinha morrido.

Na mística de Eckhart o pensamento especulativo é posto contra seus limites extremos, falando a linguagem dialética ou mesmo a linguagem do paradoxo.

O homem volta à sua origem em Deus pelo desprendimento, pois Deus mesmo é, em última instância, desprendimento. “Desprendimento” é uma palavra primordial no pensamento de Eckhart.

Guilherme de Ockham (1285 – 1347)


Guilherme de Ockham

Para Guilherme de Ockham todo o conhecimento metafísico de Deus é vão e inútil. No século XII os pensadores acreditavam poder abranger a Trindade com o poder da razão (Abelardo).

No século XIII, Tomás de Aquino admitiu o conhecimento da existência de um Deus como dentro das possibilidades da razão.

Guilherme de Ockham retira até mesmo a possibilidade de o homem conhecer a existência de Deus a partir da razão. Não há um rigor necessário na demonstração racional da existência de Deus. A existência de Deus é, então, questão de fé e não de razão.

Se isso vale para a existência de Deus, vale ainda mais para a Trindade. Ockham, assim, não somente distingue, mas separa com um corte radical a filosofia e a teologia.

A filosofia é o conhecimento que o homem autonomamente pode alcançar seguindo em busca da verdade e tendo como parâmetro a evidência lógica. A teologia, por sua vez, é o saber da fé.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org

Referências Bibliográficas


  1. ABELARDO, Pedro.. Sic et Non. In: BONI, Luis Alberto de (org.). Filosofia Medieval: textos. Porto Alegre:
    EDIPUCRS, 2000.
  2. BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da filosofia cristã. Petrópolis: Vozes, 1970.
  3. BONI, Luís Alberto de. Lógica e Linguagem na Idade Média. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.
  4. _____. (org.). A Escola Franciscana de Boaventura a Ockham,in Veritas, Porto Alegre: 2000.
  5. _____. (org.). Filosofia Medieval: Textos.Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.
  6. _____. Idade Média: Ética e Política.Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.
  7. GARCIA, Antônio (org). Filosofia Medieval: A obra de Raimundo Vier. Editora Vozes: Petrópolis,
    1997.
  8. GILSON, Etiene. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
  9. LIBERA, Alain de. A Filosofia Medieval. Trad. Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
  10. REALE, Giovanni. História da Filosofia Patrística e Escolástica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2003

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