FILOSOFIA

Saiba a diferença entre Mito e Filosofia

Mito e Filosofia Aquarela do artista mexicano Diego Riviera, de 1930, inspirada no manuscrito maia Popol Vuh (do século XV) que registra os mitos da antiga cultura maia. Clique aqui para ver a imagem completa e ampliada!

Um mito é uma daquelas noções que a princípio parecem simples, mas, quando investigadas a fundo, revelam-se bastante complexas. O estudo dos mitos é complexo por duas razões: em primeiro lugar, existem muitos mitos em cada cultura; em segundo lugar, os mitos são diferentes de uma sociedade para outra ou de uma época para outra. Logo, qualquer definição de mito sempre acaba deixando alguma coisa de fora.

De acordo com o romeno Mircea Eliade (1907-1986), um importante estudioso do tema, “[…] o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do princípio” (Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972). Por meio de uma narrativa, o mito mostra como, pela ação de entes sobrenaturais, uma determinada realidade ou entidade passou a ter existência.

Assim, há cosmogonias, isto é, mitos que descrevem o surgimento do Universo; teogonias, mitos que narram o nascimento de divindades; assim como mitos que contam a origem de um elemento do cosmo, por exemplo, uma espécie animal ou vegetal, uma conduta humana, uma instituição social, entre outros.

Para os gregos antigos, por exemplo, o Universo teria se originado a partir da união de duas divindades: Urano, do sexo masculino, que representaria o Céu; e Gaia, do sexo feminino, representando a Terra.

Já para os antigos egípcios, a formação do Universo começou quando uma divindade hermafrodita chamada Atum emergiu de Nun, o oceano primordial, e gerou um casal de divindades, Chu e Tefnut. A partir deste casal teve inicio a formação do mundo.

Segundo a mitologia dos povos maias, há milhares de anos, dois deuses, chamados Gucumatz e Hurakan, teriam gritado ao mesmo tempo a palavra ”terra”, e a partir de então o mundo teria tido início.

Como podemos perceber, no mito a origem do mundo e de tudo o que há nele é resultado da ação de seres sobrenaturais.

Mito de Narciso
A obra Narciso ou O Auto Admirador (1599),  de Caravaggio,  retrata o mito grego de Narciso, que se afoga hipnotizado pela própria imagem. Os mitos também expressam vários tipos de sabedorias e valores morais que guiaram os povos antigos por muitos séculos. Clique aqui para ver a imagem completa e ampliada!

Uma ruptura importante em relação à visão mitológica ou mítica do mundo foi a busca dos primeiros filósofos gregos por identificar a arché, principio fundamental e causa de tudo que existe. Isso aconteceu na Grécia Antiga, entre os séculos VII e IV a.C.

Nessa época, dependendo do filósofo, esse princípio podia ser a água, a terra, o ar ou até mesmo algo indeterminado. Nesse sentido, esses filósofos davam continuidade a uma inquietação que os mitos pretendiam resolver: qual é a origem do mundo?

Mas, ao mesmo tempo, a Filosofia também se desvinculava do mito, pois tratava de interpretar o mundo a partir de elementos presentes no próprio mundo, e não a partir de explicações sobrenaturais.

Outra diferença importante é que o mito busca legitimidade na autoridade daquele que o narra ou em uma tradição. O filósofo, pelo contrario, busca o reconhecimento de suas ideias por meio de um processo argumentativo.

Por fim, podemos dizer que a crença no mito é sempre limitada a uma cultura ou grupo de culturas em particular, enquanto as indagações filosóficas podem ser pertinentes à diversas culturas em diferentes épocas da história.

É preciso ter em mente que, embora mito e Filosofia constituam formas distintas de interpretar o mundo, elas se assemelham em alguns aspectos. No pensamento oriental antigo, no pensamento africano ou no pensamento indígena, por exemplo, as mitologias sempre expressam uma visão filosófica.

De modo análogo, muitos filósofos do Ocidente incorporam narrativas míticas às suas argumentações. Outro ponto importante a ser considerado é que devemos evitar uma concepção evolucionista, como se o mito tivesse se refinado até se transformar em Filosofia. Se é verdade que no pensamento ocidental a Filosofia ganha certa autonomia em relação ao mito, isso não significa que uma forma de pensamento seja superior à outra.

Texto retirado do livro Reflexões: Filosofia e cotidiano, de José Antônio Vasconcelos.

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