FILOSOFIA

René Descartes – a origem do método que mudou o mundo

René Desctartes

René Descartes nasceu em 1596 na cidade de La Haye, na Touraine, França. Recebeu uma sólida formação humanística em um dos melhores colégios europeus da época, porém muito cedo a rejeitou como pouco consistente e insatisfatória. Logo que se torna independente, assume sua própria educação, enfatizando os estudos de matemática e de assuntos científicos. Foi contemporâneo de Bacon e Galileu e manteve intensos contatos com a comunidade científica e filosófica da Europa da época.

Em 22 de junho de 1633, a obra Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo, de Galileu Galilei, publicada um ano antes em Florença, foi condenada pela Inquisição por defender o sistema copernicano e a ideia de que a Terra se move. O livro do próprio Copérnico já havia sido condenado havia alguns anos. Nesse mesmo ano de 1633, René Descartes, então com 37 anos de idade, já tendo alcançado resultados significativos na matemática e na ótica, desiste de publicar seu tratado científico, no qual defenderia as mesmas ideias que Galileu defendia, com receio de sofrer o mesmo tipo de condenação. Leia na íntegra a carta de abjuração que Galuleu foi obrigado a assinar.

Em compensação, alguns anos mais tarde, em 1637, Descartes publica o texto que, de uma forma geral, pode ser justamente considerado a certidão de nascimento da filosofia moderna: o Discurso do Método para Bem Conduzir a Razão e Buscar a Verdade nas Ciências. O Discurso, na verdade, é a introdução de uma obra composta por três tratados científicos: Geometria, no qual Descartes expõe sua geometria analítica, Dióptrica, no qual explica sua teoria da luz, formulando, em especial, sua lei da refração e Meteoros, no qual divulga algumas de suas ideias sobre fenômenos celestes.

Sobretudo os dois primeiros são obras muito importantes em suas respectivas áreas, mas o Discurso ganhou tal notoriedade que passou a ser considerado um texto independente. No Discurso, Descartes expõe sua trajetória intelectual, do colégio à formulação de seu sistema.

Fui nutrido nas letras desde a infância, e por me haver persuadido de que, por meio delas, se podia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, sentia extraordinário desejo de aprendê-las. Mas, logo que terminei todo esse curso de estudos, ao cabo do qual se costuma ser recebido na classe dos doutos, mudei inteiramente de opinião (DESCARTES, 1983, p. 30).

Nessa passagem do Discurso do método, que inicia a longa descrição que faz Descartes de sua formação intelectual, duas indicações importantes já aparecem. Primeiro, e mais importante, aparece explicitamente a intenção de adquirir um conhecimento claro e seguro.

Eu sempre tive um imenso desejo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas minhas ações e caminhar com segurança nesta vida. (DESCARTES, 1983, p. 33).

Descartes e a certeza matemática

René Descartes

O projeto cartesiano está, desde o início, pautado por essa busca de uma maneira de separar o conhecimento seguro do incerto ou de uma forma de tornar sólidas nossas crenças, de modo a que possam pretender ao status de conhecimento. A segunda indicação importante é a crítica da tradição cultural, incapaz, segundo Descartes, de satisfazer àquela intenção. De todas as disciplinas com que teve contato no colégio, diz ele, apenas a matemática, “por causa da certeza e da evidência de suas razões”, mostrou-se promissora.

O projeto, portanto, é o de atingir a certeza no conhecimento. O exemplo a ser seguido é o da matemática, que apresentava, para Descartes, as características necessárias de uma ciência segura e certa, servindo, assim, de modelo e parâmetro para todas as demais. Com isso, e aprofundando seus conhecimentos da ciência matemática (que o levaram, inclusive, a desenvolver a geometria analítica, lançando as bases da matemática moderna), sem dúvida inspirado também nos sucessos alcançados por Galileu, chega à ideia de formular um método – ou seja, um caminho que sirva, por um lado, para criticar e avaliar as crenças (separando as verdadeiras, que são  conhecimento, das falsas) e, por outro, para garantir que, a partir de um conjunto de crenças seguramente verdadeiras, possa-se transmitir essa segurança ou essa certeza para outras crenças.

Este método que amplia gradativamente o conhecimento, desenvolvido por Descartes e inspirado na matemática, é também conhecido como Dúvida Metódica. Os passos a seguir constituem sua parte mais conhecida, contudo, a dúvida metódica não se resume a estes passos, pois corresponde (de forma mais ampla) a uma postura criteriosa de investigação filosófica.

O método de Descartes:

  1. Jamais aceitar como verdadeira coisa alguma que não estivesse tão clara à minha mente que não restasse dúvidas de sua verdade.
  2. Dividir cada dificuldade em tantas partes quanto o possível e necessário para resolvê-las.
  3. Organizar meus pensamentos, iniciando pelos assuntos mais fáceis e simples e progredindo gradativamente para os mais complexos.
  4. Fazer, para cada caso, enumerações e revisões até que estivesse certo de não ter omitido nada.

Por fim, Descartes afirma a fé em seu método: “Agindo assim, não existirão (verdades) tão distantes que não possam ser alcançadas, nem tão escondidas que não sejam descobertas”.

O método cartesiano, como pode observado acima, é apenas uma lista de quatro etapas. Descartes inaugurou uma nova forma de pensar e investigar o mundo que influenciou de forma decisiva a filosofia moderna e o método científico. Nossa forma atual de pensar é ainda cartesiana, ou seja, tudo deve passar por um método, ser explicado e avaliado racionalmente para, somente então, fazer parte do conjunto de nossas crenças.

Referências Bibliográficas

  1. DESCARTES, René. Discurso do método, meditações e outras obras. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
  2. BURTT, Edwin A. As bases metafísicas da ciência moderna. Brasília: UnB, 1983.

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