FILOSOFIA

Wittgenstein: Jogos de linguagem e os besouros nas caixas

Não é possível ler a obra Investigações Filosóficas como quem lê um livro qualquer. Os exemplos largamente utilizados por Wittgenstein nos obrigam a prestar atenção aos nossos pensamentos, nas imagens que surgem, nos sentimentos que aparecem ligados às imagens. Ler Wittgenstein já é, por si só, filosofar.

Certo e errado é o que os homens dizem, e na linguagem os homens estão de acordo“. Essa frase enigmática ilustra o pensamento de Wittgenstein sobre a linguagem, mas não se pode resumir a filosofia da linguagem  deste filósofo austríaco em uma redação ou frase, uma vez que ele mesmo declarou que o objetivo de sua obra não é poupar os outros do trabalho de pensar, mas estimular alguém a pensar por si próprio. De fato não é possível  ler sua obra Investigações Filosóficas como quem lê um livro qualquer. Os exemplos largamente utilizados por Wittgenstein nos obrigam a prestar atenção em nossos pensamentos, nas palavras, nas imagens que surgem, nos sentimentos que aparecem ligados às imagens. Ler Wittgenstein já é, por si só,  filosofar.

A filosofia da linguagem de Wittgenstein é o resultado tanto de uma investigação de si mesmo quanto da relação entre sujeito, linguagem e mundo. Do trabalho criterioso e obsessivo desse gênio nasceu o conceito de “jogos de linguagem“, ou melhor, esse conceito não nasceu, mas foi algo que Wittgenstein acredita que descobriu. Essa descoberta colocou em xeque qualquer “pretensão de verdade” tanto da filosofia quanto de qualquer pensamento que se acredite verdadeiro, demonstrando como somos ingênuos com relação às nossas certezas. Entre os vários exemplos que Wittgenstein utiliza para explicar a linguagem, as caixas com besouros foi o que decidi utilizar aqui.

Besouros de Wittgenstein

Para explicar o funcionamento da linguagem, Wittgenstein pede que imaginemos um grupo de pessoas, cada pessoa com uma caixa. Dentro de cada caixa existe um besouro e apenas o dono da caixa pode ver seu conteúdo. Mesmo que alguém diga que o conteúdo de sua caixa é um besouro, ainda assim não será a mesma imagem de besouro de outra pessoa. E também pode não existir besouro na caixa, a pessoa pode estar mentindo. É impossível que uma pessoa veja o conteúdo da caixa de outra porque a caixa é uma metáfora para a mente. Temos apenas a linguagem para comunicar o que existe em nossa mente. Mas a linguagem só é possível dentro de um contexto muito restrito chamado “jogo de linguagem”, fora disso, a linguagem gera confusão. Só podemos nos comunicar bem se antes estabelecermos regras muito rígidas de significados.

Imaginemos agora que cada um de nós tem uma caixa onde apenas o dono da caixa pode ver seu conteúdo. Dentro da caixa de cada um existe um besouro e todos afirmam  que, olhando para dentro de suas caixas, estão vendo um besouro. No entanto, cada um está vendo aquilo que denominam como besouro. Posso estar vendo um besouro de uma determinada espécie, outra pessoa vê um besouro de outra espécie, outra um besouro maior ou de cor diferente. Mas posso afirmar  estar vendo um besouro e, na verdade, besouro para mim é um objeto qualquer que não é o inseto. Posso também afirmar estar vendo um besouro mas minha caixa está vazia (posso estar mentindo). Todos, no entanto, afirmam estar vendo um besouro em suas caixas.

Mas não estamos vendo a mesma coisa e isso instaura um problema de linguagem ou de comunicação. A única solução para esse dilema é estabelecer um jogo de linguagem, onde colocamos um besouro na frente de todos e, apontando para ele, chegamos ao acordo que isto é um besouro. Então, a única solução para esse problema é um acordo coletivo sobre as palavras, conceitos e ideias. Mas ao criar esse acordo estamos criando jogos de linguagem. Wittgenstein recomenda que, ao ouvir uma palavra de alguém, não a procuremos no dicionário mas antes perguntemos à pessoa o que aquela palavra significa (“o que significa besouro para você?”).

Parece algo simples de ser feito, até mesmo óbvio, mas ampliando a ideia da caixa com besouros concluímos que os grupos humanos se organizam através de jogos de linguagem e estabelecem seus jogos como verdadeiros e únicos, gerando implicações variadas. Os grupos, na maioria das vezes, não percebem que estão presos em seus jogos de linguagem, que não estão falando de uma verdade absoluta, mas estão apenas jogando um jogo com regras fixas.

Indo mais além, Wittgenstein afirma que não existe “linguagem interior”, pois a essência da linguagem é dizer algo a alguém. A interioridade de cada um, que normalmente chamamos de “linguagem interior”, para este filósofo, não é linguagem. É algo ainda não definido que deve ser investigado. Para falar alguma coisa a alguém é necessário que eu use as palavras estabelecidas em acordos coletivos, a linguagem que aprendi a falar, os conceitos que foram estabelecidos. Somente assim posso me fazer entender. Meu mundo interior, meus sentimentos e sensações, seriam incomunicáveis. Posso até declarar minha tristeza ou alegria, demonstrar com gestos,  assim as pessoas poderão saber como estou me sentido mas não o que estou sentindo. Os jogos de linguagem são necessários pois a linguagem interior não pode estabelecer acordos coletivos sobre significados.  Para me comunicar, os “besouros” (objetos, conceitos, ideias) devem ser estar definidos coletivamente.

No entanto, os jogos de linguagens, que são absolutamente necessários,  também criam sérios problemas de comunicação. Wittgenstein afirma que a pretensão da filosofia de atingir a verdade absoluta é impossível, e a própria filosofia está presa a jogos de linguagens. Ela também cria seus conceitos filosóficos com o objetivo de pensar de forma mais precisa e objetiva. Mas ao fazer isso ela não consegue mais transcender as regras do jogo que ela mesma criou. Não apenas na filosofia, mas em qualquer grupo humano, seja religioso, científico, político ou educacional, todos jogam jogos de linguagem.

Em um grupo religioso, por exemplo, um integrante pode fazer uma crítica interna, mas não pode fazer uma crítica radical que mude as “regras do jogo”, caso contrário, está fora do jogo. Como experimento mental, imaginemos os significados e sentimentos que grupos religiosos cristãos, protestantes e católicos, dão à palavra “Maria”. Iremos perceber que existem jogos de linguagens distintos sobre essa palavra nesses grupos religiosos.

Para Wittgenstein, estamos apenas jogando um jogo com regras estabelecidas coletivamente. Isso acontece com todos os grupos onde o jogo de linguagem se estabelece, seja religioso, filosófico, familiar, empresarial ou científico. No caso da ciência, por mais que os cientistas se refiram a fatos concretos e mensuráveis, eles devem utilizar a linguagem estabelecida pela comunidade científica.

Cada grupo estabelece seus conceitos ostensivamente, o que significa dizer, voltando ao exemplo do besouro, que os conceitos devem ser apontados ostensivamente como quem aponta para um besouro em uma mesa e afirma: “Isto é um besouro, estamos de acordo?” Surge, no entanto, o seguinte problema: não temos capacidade de transcendência? Para Wittgentein, ir além da linguagem é ir além do pensamento. Mas isso não significa que não existam coisas transcendentes….e diante dos sentimentos elevados, devemos manter um silencioso respeito e nos conscientizar de que para essas coisas não existem palavras. E as palavras que se referem a essas coisas transcedentais, para Wittgenstein, sequer deveriam existir.

 Autor: Alfredo Carneiro

Editor do netmundi.org

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