FILOSOFIA

Emmanuel Lévinas: Introdução à Filosofia da Alteridade

Emmanuel Lévinas - Filosofia da Alteridade

O filósofo lituano-francês Emmanuel Lévinas (1906-1995) é considerado um dos mais influentes pensadores éticos do século XX. Desenvolveu uma filosofia baseada na ideia de Alteridade. Segundo Lévinas, quando o outro é percebido como Alteridade torna-se absolutamente Outro, incompreensível, transcendente e incontornável, fonte das grandes experiências de vida e base genuína da ética.

Para desenvolver sua argumentação, Lévinas criou termos (chamados de categorias levinasianas) que aqui serão identificados com inicial maiúscula, como Alteridade, Infinito, Totalidade, Outro, Rosto e Mesmo. Esses conceitos se relacionam de forma a demonstrar as falhas da filosofia ocidental e propor uma nova visão ética.

Alteridade, Outro e Mesmo


Lévinas pretende romper com a ética da filosofia ocidental, que, segundo o filósofo, desconsidera a Alteridade do Outro. Para a mentalidade ocidental o Outro é aceito apenas se convertido e reduzido ao “eu“: minha cultura, religião, ideologia, filosofia ou visão de mundo.

Tal perspectiva reducionista define a própria existência a partir do “ser” (que surge com Parmênides: “O ser é, o não-ser não é”) e do “eu” ou ego cogito (“Penso, logo existo” de Descartes). Segundo Lévinas, essas são as bases filosóficas do pensamento ocidental que constituem a realidade apenas a partir de si mesmas.

A filosofia busca totalizar todas as coisas, ter uma síntese total da existência, inclusive do eu individual, deixando-nos “lado a lado” e não “face a face”. (HUTCHENS, 2007)

Fundamentada nessas bases, a ética ocidental (e a própria filosofia) justifica a guerra e a violência contra o Outro, uma vez que o Outro torna-se ameaça à visão de mundo reduzida e egocêntrica.

O Outro, estando além do “eu” (ou do Mesmo), é entendido como nada, não-humano ou inexistente, portanto, pode sofrer violência ou ser eliminado sem prejuízo à consciência, afinal, resistiu à “verdade”, sendo culpado de seu sofrimento.

Totalidade, Infinito e Rosto


A forma de ver o mundo a partir de si mesmo, negando a Alteridade do Outro, é chamada por Lévinas de pensamento totalizante ou Totalidade. Contudo, é impossível viver fora da Totalidade (a identidade que formou meu ser). Por outro lado, a Totalidade não pode ser base para a ética ou a relação com o Outro.

A face do ser que se mostra na guerra fixa-se no conceito de totalidade que domina a filosofia ocidental. Os indivíduos reduzem-se aí a portadores de formas que os comandam sem eles saberem. Os indivíduos vão buscar na totalidade o seu sentido (invisível fora dela).” (LEVINAS, 2008, p.8)

O que Lévinas propõe é uma nova relação entre Totalidade e Alteridade que não seja excludente e destrutiva, mas de aceitação mútua.

Lévinas entende que as relações éticas são transcendentais, estariam além da possibilidade de apreensão do “eu” e do “ser”. Contudo, é importante frisar que “transcendental” não tem sentido divino ou sobrenatural, mas sim de algo “além de mim” e, portanto, ainda assim inatingível.

Desta forma, a ética em Lévinas assume caráter sagrado, pois sendo o Outro transcendente, as relações com o Outro equivalem à relação com Deus ou com o Infinito, algo além de minha capacidade de apreensão.

Se o sofrimento do Outro não me afeta, é porque ele está reduzido à Totalidade, fato que me impede de ver seu Rosto. O Outro é sempre estrangeiro para mim, ainda que seja irmão, vizinho ou viajante. Mas a visão do Rosto, quando acontece, sempre surpreende, pois é visão do Outro nunca antes percebida que rompe minha Totalidade e minha ingenuidade. Deixamos de ficar “lado a lado” e ficamos “face a face”. Rosto é um conceito de Lévinas que sintetiza sua ética e possui uma complexidade que não pode ser abordada em um tento introdutório.

Por isso o nome da principal obra de Lévinas é Totalidade e Infinito, pois a relação ética é sempre relação do “eu” (Totalidade) com algo irredutível ao pensamento (Infinito).

Querer reduzir o Outro ao pensamento é querer, com minha Totalidade, abarcar o Infinito. Mas isso, obviamente, é impossível. Se acredito que conheço o Outro, isso é apenas ilusão egoísta da Totalidade. A visão do Rosto, que é vestígio de Infinito, é a súbita percepção disso.

A ética da Alteridade


A relação ética genuína ocorre quando a Alteridade é preservada sem, contudo, deixar de acolher o Outro em sua fragilidade e necessidade. É uma relação de passagem e aceitação, não de concordância, posse ou identidade, pois o “eu” será sempre o Mesmo e o outro será sempre o Outro.

Essa insistência de Lévinas no Outro como Alteridade (e consequentemente como Infinito) busca transportar para a ética uma das mais antigas experiências humanas: a experiência com o sagrado.

Não se trata da experiencia das religiões, principalmente quando dogmáticas, pois apenas reduzem o Outro ao Mesmo. Trata-se das autênticas experiências com a Alteridade, quando há assombro e súbita percepção de algo além de qualquer tentativa de posse ou redução.

Essa é a experiência que Lévinas chama de epifania do Rosto, e marca claramente a fronteira entre religião (que é relação com o Mesmo) e religiosidade (relação com o Infinito), pois rompe a ingenuidade.

A violência é uma das chaves para o entendimento da ética da Alteridade de Lévinas, pois a redução do Outro ao Mesmo sempre gera algum tipo de violência que parte daquele que recusa ou reduz Alteridade.

Ainda que a filosofia de Emmanuel Lévinas pareça religiosa, o filósofo pretende com isso demonstrar uma metafísica positiva de aceitação do Outro — uma ética da Alteridade. Evita, assim, a metafísica negativa (ética excludente da teologia, filosofia e política ocidentais), pois, nesses casos, a única certeza clara, nas palavras de Lévinas, é “a certeza da paz que traz a evidência da guerra”.

Autor: Alfredo Carneiro

Referência Bibliográfica


  1. CARNEIRO, Alfredo. Relação entre Deus e o Homem em Lévinas. 40p. Monografia Filosofia – UCB, Brasília-DF, 2016.
  2. LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito, Lisboa: Edições 70, 2008
  3. HUTCHENS B. C. Comprender Lévinas. Petrópolis: Editora Vozes, 2004

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