FILOSOFIA

Emmanuel Lévinas e a filosofia da alteridade

Emmanuel Lévinas

Normalmente temos um julgamento anterior sobre os outros. Esse julgamento, muitas vezes, foi adquirido culturalmente e sem vivências. Assim, julgamos os outros baseados em roupas, posição social, grupo religioso, cor da pele, comportamento social, bairro onde mora, casa onde mora e forma de se comunicar. Mas, quando o Outro nos surpreende, ele se revela incompreensível e irredutível ao meu preconceito. Esta revelação, quando nos sensibiliza, é anterior a minha anterioridade (meu conceito anterior). A sensibilização é a epifania do Outro enquanto incompreensível. Não tenho mais julgamento anterior que possa reduzi-lo, pois o Outro, para o filósofo lituano-francês Emmanuel Lévinas (1906-1995), é sempre absolutamente Outro. É a Alteridade que se assemelha a Deus.

Querer reduzir o Outro a um pensamento anterior é querer transformá-lo no Mesmo, o mesmo que o eu (ou aquilo que acho dele). Mas, para Lévinas, isso é impossível pois o Outro é  incompreensível para o eu. São iguais enquanto seres humanos mas distintos de várias outras formas.

Exemplos de alteridade no cinema

Vários exemplos ilustrativos podem ser encontrados no cinema, ainda que o conceito de alteridade seja algo muito mais amplo do que ser simplesmente outro ser humano. Podemos citar, por exemplo, os filmes Dança com os Lobos e O Último Samurai. Nesses filmes, o herói tem um conceito anterior em relação ao “inimigo”. No entanto, as circunstancias o lançam em uma convivência forçada que faz o Outro se revelar. Primeiramente porque o Outro acolheu o herói, não o matou, e no seu acolhimento o herói tem a epifania do Outro, vivendo na proximidade, no seu cotidiano.

Nesses filmes ocorre o simbolismo do herói convertido ao rosto do Outro. O herói compreende o Outro de uma forma que somente o acolhimento e a aceitação permitiriam. Compreende sua dor e sua situação, que era ocultada pelo julgamento anterior. O herói se sensibiliza e passa a lutar ao seu lado. Sua experiência passa a ser face a face, irmão a irmão. E sua vida, antes esvaziada pelo egoísmo, se preenche de significado.

Os julgamentos preconcebidos são conceituais, perversos e muitas vezes equivocados, egoístas e covardes. Principalmente quando não são acompanhados de vivências. Aquilo que surge da vivência e da proximidade é a revelação do rosto do Outro como o rosto de Deus, uma vez que o Outro é tão inatingível quanto Deus ou o Infinito. Tal é a comparação que Lévinas faz. Esta nova visão de mundo, muito mais ampla, é tão impactante e profunda que o herói decide sacrificar sua vida pelo Outro se for preciso.

Um exemplo cotidiano

Do cinema para um exemplo cotidiano, imaginemos na rua uma homem que se aproxima. Observamos aquele homem como parte de um sistema; da cidade. Um transeunte qualquer. Ao  aproximar-se percebemos que é um morador de rua e imediatamente o julgamos de acordo com nossos conceitos anteriores.

Mas ele está ferido, faminto, nos pede ajuda e está sofrendo. Na surpresa da abordagem podemos nos sensibilizar e decidir ajudá-lo, ou simplesmente evitá-lo e seguir nosso caminho. Porém, quando esta sensibilização ocorre, ela dissolve a anterioridade do meu julgamento. Da experiência da ajuda voltamos pra casa diferentes, fizemos algo de bom, mas também vivenciamos uma experiência transcendente. A experiência do acolhimento, segundo Lévinas, é uma experiência transcendente pois nela superamos não apenas os preconceitos, mas o próprio eu. Saímos do “conforto de nossa casa” para um lugar desconhecido, mas também infinito.

Emmanuel Lévinas pretende romper com a ética da filosofia ocidental, que ele julga excludente, uma vez que cria pensamentos segundo os quais para além deles está o Outro como nada, bárbaro,  não-humano, pagão, gói, herege, pecador, etc. Pensamentos que não levam em consideração a alteridade do Outro, que só conseguem julgar a partir de pontos de vista limitadíssimos. Pensamentos segundo os quais minha casa é o mundo todo.

Lévinas criou uma ética baseada no acolhimento e na proximidade, na experiência face a face, no recebimento do estrangeiro em nossa casa. O estrangeiro que entra em minha casa me incomoda, tira meu conforto, mas também pode me trazer a novidade. Lévinas é considerado um dos maiores filósofos éticos do século XX, e para ele qualquer pensamento ou interpretação excludente (seja filosófica, política ou religiosa)  é ideologia, egoísmo e covardia.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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