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A carta de abjuração de Galileu Galilei

Ao obrigar Galileu a assinar uma carta de abjuração,a Igreja acabou legando para a humanidade e para a história uma mensagem de intolerância e ignorância que se tornou um constrangimento histórico e um mancha que não se consegue mais apagar. Uma lição para o futuro que os mais inteligentes não esquecem.

O impacto das descobertas de Galileu Galilei (1564 – 1642) não pode ser facilmente mensurado. Os estudos sistemáticos deste físico, astrônomo e filósofo italiano tiveram forte repercussão na ciência – que praticamente nasceu com Galileu, da forma como a conhecemos – na filosofia, na astronomia, na religião, enfim, mudou radicalmente nossa concepção de mundo. É também o exemplo do poder de uma teoria, uma vez que olhávamos para cima e víamos um sol que girava ao redor da terra, e depois de Galileu nos percebemos girando ao redor de uma estrela em um espaço infinito. Não éramos mais o centro do universo, não éramos mais o centro de nada.  A própria física – como ciência -  nasceu com Galileu, se descolando da filosofia natural. Este cidadão de Florença é  um dos gigantes a que Isaac Newton se refere na sua famosa frase “Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”.

Mas a vida e as descobertas de Galileu não tiveram um caminho fácil. Em 1600 a inquisição da Igreja Católica havia queimado Giordano Bruno (1548 – 1600) por afirmar que a terra poderia não ser o centro do universo. A inquisição entendia que esta ideia ia de encontro às escrituras sagradas, portanto, era uma heresia. Galileu, após uma carreira brilhante, então com setenta anos de idade, minado pela velhice e problemas pessoais, foi submetido à Inquisição. O que Galileu não sabia é que seria complicado para a Igreja Católica matar um eminente astrônomo, já muito conhecido pelas grandes mentes, personalidades e políticos de toda a Europa. Assim, em seu  interrogatório, a inquisição sempre dava a entender para o velho astrônomo que, naquele dia, iria para as masmorras e para a tortura.  Os guardas o acompanhavam para seu quarto e Galileu nunca sabia para onde seria levado. Imaginava suas pernas e braços sendo esticados em uma roda de tortura. Tal era a tortura psicológica que os inquisidores usaram.

Assim, a inquisição conseguiu o que pretendia: fazer Galileu assinar uma carta de abjuração, negando suas ideias. Desta forma a Igreja Católica não precisaria se dar ao constrangimento de matar uma eminente personalidade, o que poderia gerar retaliações políticas.  No entanto, a Igreja acabou legando para a humanidade e para a história uma mensagem de intolerância e ignorância que se tornou um constrangimento histórico e um mancha que não se consegue mais apagar.

Autor: Alfredo de Moraes Rêgo Carneiro

Graduando em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília

 

Leia abaixo a carta de abjuração de Galileu, escrita em 1633. Tradução de Yaska Antunes.

“Eu, Galileu Galilei, filho do finado Vincenzio Galilei de Florença, com setenta anos de idade, vindo pessoalmente ao julgamento e me ajoelhando diante de vós Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, Inquisidores Gerais da República Cristã Universal, contra a corrupção herética, tendo diante de meus olhos os Santos Evangelhos, que toco com minhas própria mãos, juro que sempre acreditei, e, com o auxílio de Deus, acreditarei no futuro, em tudo a que a Santa Igreja Católica e Apostólica de Roma sustenta, ensina e pratica. Mas como fui aconselhado, por este Ofício, a abandonar totalmente a falsa opinião que sustenta que o Sol é o centro do mundo e que é imóvel, e proibido de sustentar, defender ou ensinar a falsa doutrina de qualquer modo; e porque depois de saber que tal doutrina era repugnante diante das Sagradas Escrituras, escrevi e imprimi um livro, no qual trato da mesma e condenada doutrina, e acrescendo razões de grande força em apoio da mesma, sem chegar a nenhuma solução, tendo sido portanto suspeito de grave heresia; ou seja porque mantive e acreditei na opinião que diz que o Sol é o centro do mundo e está imóvel, e que a Terra não é o centro e se move, desejo retirar esta suspeição da mente de vossas Eminências e de qualquer Católico Cristão, que com razão era feita a meu respeito, e por isso, de coração e com verdadeira fé, abjuro, amaldiçoo e detesto os ditos erros e heresias e de uma maneira geral todo erro ou conceito contrário `a dita Santa Igreja; e juro não mais no futuro dizer ou asseverar qualquer coisa verbalmente ou por escrito que possa levantar suspeita semelhante sobre minha pessoa; mas que, se souber da existência de algum herege ou alguém suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Ofício, ou ao Inquisidor do lugar onde me encontrar. Juro ainda mais e prometo que satisfarei totalmente e observarei as penitências que me forem ou me sejam ditadas pelo Santo Ofício. Mas se acontecer que eu viole qualquer de minhas promessas, juramentos, e protestos (que Deus me defenda!) sujeito-me a todos os castigos que forem decretados e promulgados pelos cânones sagrados e outras determinações particulares e gerais contra crimes deste tipo. Assim, que Deus me ajude, bem como os Santos Evangelhos, os quais toco com as mãos, e eu, o acima chamado Galileu Galilei, abjuro, juro, prometo e me curvo como declarei; e em testemunho do mesmo, com minhas próprias mãos subscrevi a presente abjuração, que recitei palavra por palavra.”

Giordano Bruno, o mártir da ciência

Giordano Bruno foi queimado pela inquisição romana por defender que o universo era infinito. Para a teologia cristã da época, só Deus podia ser infinito.

Giordano Bruno foi queimado pela inquisição romana por defender que o universo era infinito. Para a teologia cristã da época, só Deus podia ser infinito.

Giordano Bruno (1548-1600) é considerado um mártir da ciência, mas foi queimado pela inquisição sob a acusação de paganismo. Esse filósofo italiano não chegou a defender abertamente as ideias de Copérnico, que colocava o sol no centro do sistema solar e contrariava a visão da igreja, nem se declarou panteísta, doutrina que diz que Deus e a natureza são uma coisa só, que para a igreja era a mesma coisa que paganismo.  Mas então qual o motivo de sua condenação?

Giordano Bruno foi condenado por defender uma visão de universo original para a época.  Inspirado pelas ideias de Copérnico, Giordano afirmou que o universo era infinito, e que poderiam existir vários sistemas solares, não só o nosso, vários mundos com possibilidade de vida inteligente, várias estrelas.  A Terra não era centro absoluto, pois no infinito não existiria centro absoluto, apenas centros relativos. Nem Copérnico tinha imaginado isso.

Acontece que afirmar que o universo é  infinito é conflitante com uma das provas da existência de Deus para a teologia cristã, que considerava apenas Deus infinito e sua criação finita. Ora, defender que o universo era infinito significa dizer que Deus e o universo (ou natureza) eram a mesma coisa, e essa é uma perspectiva panteísta. Foi por defender essa “heresia pagã ” que Giordano Bruno foi queimado pela inquisição romana. Existe hoje em Roma, na praça onde ele foi queimado, um monumento dedicado a ele.