FILOSOFIA

Filosofia da Mente: o problema da consciência

filosofia da mente: consciência

A relação mente/corpo tem sido um dos problemas mais antigos da filosofia. O dualismo de substância, materialismo, o behaviorismo e o funcionalismo não conseguem abarcar a experiência subjetiva, ou seja, a forma como alguém experimenta algo. Segundo o filósofo americano Thomas Nagel, a consciência é o que torna a relação mente/corpo um problema insolúvel. O problema da consciência, como chamaremos essas características subjetivas da experiência, abrange a experiência consciente, a intencionalidade e os qualia (as experiências subjetivas)

Desta forma, quando percebemos algo, como uma cor, essa experiência tem uma característica completamente privada. Esse fato já havia sido notado pelo filósofo inglês John Locke (1632-1704), que afirmou que o fato de existir uma palavra para uma determinada cor não significa que essa palavra transmita a mesma sensação a todos nós. Posso ha aceitar que as experiências existem nas outras pessoas, mas não posso saber qual a sensação que a experiência causa nos outros. Assim, apesar do avanço da neurociência, que têm criado estudos importantes acerca dos fenômenos mentais, o caráter subjetivo da experiência permanece sem respostas satisfatórias.

Thomas Nagel

Nagel explica que um organismo tem consciência (estados mentais conscientes) se e somente se existir algo que seja ser como esse organismo. Isto seria o caráter subjetivo da experiência, presente em várias formas de vida. Essa subjetividade está relacionada com o fenômeno da consciência. Podemos tentar imaginar como é ser outra pessoa, mas nunca teremos acesso a sua subjetividade.

Para abordar o problema da consciência, ou da experiência consciente, iremos adotar a perspectiva de dois filósofos que defendem visões opostas sobre o tema, ambos com contribuições importantes no campo da filosofia da mente: Thomas Nagel e Patrícia Churchland. Enquanto Churchland propõe uma visão fisicalista do problema, Nagel defende que tal problema seria intratável apesar da crescente esperança das abordagens fisicalistas e reducionistas.

Patrícia Churchland acredita que o avanço da neurociência, da química, da física e da biologia poderão fornecer respostas satisfatórias para o problema da consciência. Desta forma, Churchland defende que uma abordagem materialista, aceitando que o cérebro causa a consciência, irá criar um caminho possível para compreendermos o problema da experiência consciente. Esta abordagem elimina qualquer metafísica ou dualidade mente/corpo, e a alma teria então uma natureza cerebral.

Não compreendemos completamente como é que os humanos são conscientes, mas a verdade é que também não compreendemos como é que eles andam, correm, trepam às árvores ou conseguem fazer salto com vara. A consciência tão pouco nos aparecerá como intrinsecamente mais misteriosa do que o controlo motor se nos colocarmos a uma certa distância. Como contraponto em relação ao desapontamento causado pelo facto de que a compreensão integral ainda nos escapa, temos o optimismo cauteloso baseado sobretudo no tipo de progresso já alcançado. Isto porque as neurociências cognitivas já avançaram muito para além daquilo que outrora alguns filósofos cépticos achavam possível e prevê-se que continuem a progredir. (CHURCHLAND, 2005, p.1)

Patricia Churchland

Churchland acredita que uma abordagem materialista, aceitando que o cérebro causa a consciência, e sua constante evolução, irá criar um caminho possível para compreendermos o problema da consciência.

Segundo Churchland, o fato de que no passado existiam coisas misteriosas e incompreensíveis, que hoje são triviais, se aplica ao problema da consciência. Não sabemos como ocorre a consciência, ou, conforme afirma Churchland, não sabemos ainda o que o cérebro realmente faz. Isso não impede, contudo, que no futuro ocorra com a consciência a o mesmo que ocorreu em outros problemas tidos como misteriosos ou “inimagináveis”.

O que obriga a pensar melhor é o facto de que, ao longo da história, “certezas” tidas como “a priori” mostraram não passar de puros erros empíricos, por mais óbvias e sinceras que tivessem sido no seu auge. A impossibilidade de o espaço ser não-euclidiano, a impossibilidade de que no espaço real linhas paralelas possam convergir, a impossibilidade de possuir provas firmes de que alguns acontecimentos são indeterminados ou de que alguém está a sonhar neste momento, ou de que o universo tenha tido um começo — cada uma destas impossibilidades foi apanhada no seu próprio nó lógico à medida que nos aproximámos de uma compreensão mais profunda do modo como as coisas são. (CHURCHLAND, 2005, p.7)

Devemos lembrar-nos que pareceu muito estranha aos contemporâneos de Copérnico a afirmação de que a terra é um planeta e que se move; soou estranho dizer que o calor é movimento molecular ou que o espaço físico é não-euclidiano, ou ainda que não há algo como a “baixidade” absoluta. E por aí fora. (CHURCHLAND, 2005, p.9)

Churchland defende ainda que o reducionismo é importante e produtivo. Compreender os detalhes do funcionamento de um organismo é um caminho para sua compreensão geral. Assim, o reducionismo não seria uma visão restrita de investigação, mas um método gradual de conhecimento. O conhecimento gradual acerca da consciência poderia então ser atingido através de um “contato redutivo fértil” entre as neurociências e a psicologia. Essa filósofa acredita que a consciência seria causada pelo cérebro através de um processo que ainda nos é desconhecido. Esse é um ponto de vista radicalmente materialista sobre o problema da consciência.

Thomas Nagel, por sua vez, critica o que ele chama de “onda de euforia reducionista”. Para Nagel, o reducionismo adota, confortavelmente, o abandono do problema da relação mente-corpo. Uma vez que ele é um problema “intratável”, seria mais fácil colocá-lo de lado e esperar que a evolução gradual da investigação reducionista. Esta seria uma forma de abandonar o problema e não enfrentá-lo, ou de não aceitar nossa profunda ignorância sobre o assunto.

Todo reducionista tem a sua analogia predileta tirada da ciência moderna. É muito pouco provável que algum dentre esses diversos [unrelated] exemplos de redução bem sucedida ilumine a relação entre a mente e o cérebro. Mas os filósofos compartilham da fraqueza humana de explicar o que não é compreensível em termos que se adequam ao que lhes é familiar e bem compreendido, ainda que completamente diferente. Isso levou à aceitação de descrições [accounts] pouco plausíveis do mental, porque permitiam tipos familiares de redução. (NAGEL, 1991, p.246)

Sem a consciência, o problema mente-corpo seria bem menos interessante. Com a consciência, ele parece insolúvel [hopeless]. O aspecto mais importante e característico dos fenômenos mentais conscientes é muito mal compreendido. A maioria das teorias reducionistas nem mesmo tentam explicá-lo. (NAGEL, 1991, P.246)

Nagel explica que um organismo tem consciência (estados mentais conscientes) se e somente se existir algo que seja ser como esse organismo. Isto seria o caráter subjetivo da experiência, presente em várias formas de vida. Essa subjetividade está relacionada com o fenômeno da consciência. Podemos tentar imaginar como é ser outra pessoa, mas nunca teremos acesso a sua subjetividade. Podemos tentar imaginar o que seria ser um determinado animal, pensar situações que o animal enfrenta, mas isso seria apenas tentar comportar-se como aquele animal, nunca ser aquele animal.

Podemos chamar isso de o caráter subjetivo da experiência. Ele não é capturado por quaisquer das recentes e familiares análises redutivas do mental, já que todas elas são logicamente compatíveis com sua ausência. Não é analisável em termos de nenhum sistema explicativo de estados funcionais, ou de estados intencionais, pois esses poderiam ser atribuídos a robôs ou autômatos que se comportassem como pessoas, embora não experimentassem nada (NAGEL, 1991, P.247)

Esse filósofo americano não nega que o avanço das neurociências possam fornecer novas informações relevantes para a consciência. Entretanto, mapear e analisar o cérebro e descobrir relações entre cérebro e consciência não responde à questão sobre o que origina a consciência.

Eu não nego que os estados e eventos mentais causem o comportamento, nem que possam ser dadas caracterizações funcionais deles. Nego apenas que esse tipo de coisa esgote a análise dos mesmos. Qualquer programa reducionista tem que se basear em uma análise do que deve ser reduzido. Se a análise deixa algo de fora, o problema será colocado erroneamente. (NAGEL, 1991, p.247)

O reducionismo materialista exclui a subjetividade e, sendo assim, Nagel não vê como se possa excluir algo que se pretende, no final das contas, compreender. Paradoxalmente, qualquer abordagem materialista, quando se depara com a subjetividade, é obrigada a colocá-la de lado.

Se se deseja defender o fisicalismo, deve ser dada uma explicação física dos aspectos fenomênicos. Mas quando examinamos seu caráter subjetivo, parece que tal feito é impossível. A razão é que todo fenômeno subjetivo é essencialmente conectado a um ponto de vista singular e parece inevitável que uma teoria física, objetiva, abandone esse ponto de vista. (NAGEL, 1991, 248)

Para exemplificar seu ponto de vista, Nagel sugere que imaginemos como seria ser um morcego. O fisicalismo pode nos fornecer informações sobre o comportamento de um morcego, pode detalhar seu esquema de ecolocalização e reproduzir através de máquinas esse processo, como fazem os sonares dos submarinos. Com todos esses dados, podemos imaginar como seria ser um morcego, mas, aceitando que os morcegos possuem uma experiência consciente, “ser como algo consciente” é uma visão reservada apenas a cada indivíduo com consciência. Essa visão é inacessível a qualquer abordagem reducionista. A objetividade da ciência, apesar de todo o conhecimento que produz, elimina a subjetividade. Isso não impede que acreditemos que a experiência subjetiva dos indivíduos conscientes exista. Ser como um morcego” é uma experiência subjetiva impossível de ser acessada, assim como ser uma outra pessoa também é.

como é ser um morcego

A objetividade da ciência, apesar de todo o conhecimento que produz, elimina a subjetividade. Isso não impede que acreditemos que a experiência subjetiva dos indivíduos conscientes exista. “Ser como um morcego” é uma experiência subjetiva impossível de ser acessada, assim como ser uma outra pessoa também é.

Imaginar ser outra pessoa pode até ser um exercício mais fácil de realizar do que imaginar ser um morcego, mesmo assim, não tenho acesso à experiência subjetiva de outra pessoa. Assim, Nagel não acredita que a abordagem fisicalista da ciência possa resolver o problema da consciência. Não existe nada na ciência que consiga nos mostrar o que é uma experiência subjetiva, que é a característica principal da consciência.

Então, se a extrapolação a partir do nosso próprio caso está envolvida na idéia de como é ser um morcego, então a extrapolação é impossível de ser completada. Nós não podemos formar nada além de uma concepção esquemática de como é ser um morcego. Por exemplo, podemos atribuir tipos gerais de experiência com base na estrutura do animal e do seu comportamento. Descrevemos o sonar do morcego como uma forma de percepção tridimensional; acreditamos que os morcegos sintam, além da percepção por sonar, alguma variante de dor, medo, fome, libido e outros tipos familiares de percepção. Mas acreditamos também que essas experiências tenham um caráter subjetivo específico, o qual está além da nossa habilidade de concepção.(NAGEL, 1991, p.250)

São essas as visões opostas de Thomas Nagel e Patrícia Churchland.  Enquanto Churchland advoga a que a evolução das neurociências poderá um dia nos entregar o que seria uma experiência subjetiva, Nagel argumenta contra essa possibilidade. Churchland adota, ao meu ver, uma posição mais confortável, uma vez que argumenta que aquilo que já foi mistério no passado é hoje algo comum e bem conhecido graças ao avanço da ciência. De fato, a história nos mostra que essa suposição é possível, uma vez que seria inimaginável para um indivíduo da Grécia Antiga, por exemplo, algo como a energia elétrica, computadores e internet. Mas isso, a meu ver, não significa que o problema da consciência seja resolvido a longo prazo, não sendo mais do que uma esperança. Nagel argumenta de forma a mostrar que o problema é intratável, apesar de tornar a relação mente-corpo um problema filosófico interessante. Sua postura com relação ao fisicalismo é totalmente cética. Apesar disto, Nagel admite que a ciência fornece dados importantes sobre o funcionamento dos organismos, contudo, são dados objetivos que não abarcam a subjetividade.

Os problemas relativos à qualia, à intencionalidade e à relação mente-corpo permanecem como problemas filosóficos, apesar dos constantes avanços científicos e das esperanças de filósofos como Churchland. Eles mantêm a fronteira filosófica sempre presente em todos os empreendimentos e investigações humanas. Essas características da consciência citadas acima já haviam sido apontadas por Wittgenstein como experiências privadas inacessíveis, sendo então um campo ainda aberto à pesquisa, pois nada podemos supor acerca de uma “linguagem interior” que interpreta nossas experiências. Para Wittgenstein sequer existe tal linguagem. Supor a subjetividade, ou até mesmo característica da personalidade e a intencionalidade de outros através de dados objetivos ou descrições analíticas supõe, também, certa ingenuidade. Claro que isso não invalida o trabalho analítico e descritivo das neurociências, mas, como sugere Nagel, parece que a consciência é confortavelmente colocada de lado como uma equação a ser resolvida futuramente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NAGEL, Thomas. Como é ser um Morcego? Oxford University Press, 1991, p. 422-28.  Tradução de Paulo Abrantes e Juliana Orione

CHURCHLAND, Patricia. Poderá a neurobiologia ensinar-nos alguma coisa acerca da consciência? Artigo publicado em 1993 na American Psychological Association. Tradução de Luís M. S. Augusto, Sorbonne/FCT – 2005.

Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
twitter:@alfredo_mrc

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